por Carlos Monteiro |
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| Fotografias de Carlos Monteiro |
O que aconteceu?
Houve um tempo em que o Rio de Janeiro conversava mais baixo. Não porque
fosse uma cidade silenciosa — o Rio jamais soube ser silencioso —, mas porque
existia uma espécie de delicadeza dispersa no cotidiano. Um “bom dia”
atravessava a padaria sem constrangimento, alguém segurava a porta do elevador
sem olhar para o relógio, passageiros ainda trocavam gentilezas nos ônibus
antes que o calor e a pressa decretassem guerra entre desconhecidos.
Depois da pandemia, porém, parece que alguma coisa se perdeu no caminho
de volta.
Não foi apenas o hábito das máscaras ou o álcool em gel esquecido no
fundo das bolsas. O que desapareceu, aos poucos, foi uma certa tolerância
humana, uma capacidade mínima de respirar antes da explosão. Como se o
isolamento tivesse deixado rachaduras invisíveis dentro das pessoas — e agora
qualquer esbarrão, qualquer demora, qualquer opinião diferente bastasse para
abrir fendas maiores.
Hoje, caminhar pela cidade virou também um exercício de cautela
emocional. Os motoristas buzinam com raiva antes mesmo do sinal abrir. Clientes
tratam garçons como inimigos pessoais. Gente responde mensagens com
agressividade automática, como se estivesse sempre discutindo uma guerra
particular. Nas filas, ninguém espera; disputa-se território. Nos
supermercados, nos condomínios, nos aeroportos, nas redes sociais, instalou-se
uma irritação coletiva que parece viver à flor da pele.
E o mais curioso é que quase todos se dizem cansados.
Talvez estejam. Talvez tenhamos voltado da pandemia mais sobreviventes do
que propriamente vivos. Cada um carregando perdas que não couberam em
fotografias: empregos, amores, parentes, tranquilidade, equilíbrio. A cidade
reabriu, os bares lotaram, o trânsito voltou, mas alguma parte da alma
permaneceu trancada em quarentena.
O Rio sente isso nas pequenas cenas. O garçom já se aproxima da mesa
preparado para o confronto. O porteiro evita conversa longa. O caixa do mercado
mal levanta os olhos. As pessoas parecem ter desaprendido o convívio, como se o
outro tivesse deixado de ser companhia para virar obstáculo.
Há dias em que a cidade inteira parece andar armada — não de revólveres,
embora também os haja em excesso —, mas de impaciência. Uma armadura invisível
feita de pressa, medo e exaustão.
Ainda assim, de vez em quando, surgem brechas.
Outro dia vi uma senhora cair na calçada de Copacabana. Antes que o pior
pensamento sobre a indiferença contemporânea se confirmasse, quatro pessoas
correram para ajudá-la. Um rapaz trouxe água, uma moça segurou sua bolsa, um
taxista interrompeu a corrida para oferecer apoio. Durante alguns minutos,
aquela velha civilidade carioca reapareceu, tímida, mas viva.
Talvez ela nunca tenha ido embora por completo.
Talvez esteja apenas soterrada sob os escombros emocionais desses últimos
anos. Porque a pandemia não terminou quando retiraram as máscaras; ela
continuou dentro das pessoas, alterando humores, afetos, paciências. Criou uma
geração de sobreviventes acelerados, tentando recuperar o tempo perdido sem
perceber que, no caminho, perderam também a delicadeza.
O Rio continua lindo, como insistem os cartões-postais. O mar continua
azul, o pôr do sol segue arrancando aplausos em Ipanema. Mas basta observar um
pouco mais para perceber que a cidade anda cansada de si mesma. E gente
cansada, quase sempre, responde ao mundo com dureza.
Ainda acredito, porém, que as cidades aprendem com os próprios traumas.
Talvez demore. Talvez seja preciso reaprender gestos simples, reconstruir
lentamente a educação cotidiana, recuperar o valor das pequenas gentilezas.
Porque nenhuma metrópole sobrevive apenas de concreto, praias e paisagens. Uma
cidade também é feita da maneira como seus habitantes se olham.
E, ultimamente, temos nos olhado pouco — e mal.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade










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