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Créditos: Divulgação
Poeta da Brasilândia, Flávia Teodoro Alves fala sobre feminismo, corpo e literatura
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Em entrevista, a autora reflete sobre desigualdades no meio literário e como a escrita pode transformar experiência pessoal em resistência política.
Moradora da Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, Flávia Teodoro Alves construiu uma trajetória literária que cruza arte, educação e performance. Autora dos livros de poesia “Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo” (2022) e “Toda reza é tentativa de telecinese” (2023), a escritora utiliza a palavra como instrumento de investigação do mundo e de si mesma, explorando temas como corpo, desejo, frustração, autonomia feminina e os limites impostos às mulheres dentro e fora do campo literário.
Professora da rede pública há duas décadas, pesquisadora e artista multimeios, Flávia também incorpora em sua obra a experiência de um diagnóstico tardio de autismo com TDAH e altas habilidades, recebido aos 40 anos, que reconfigurou sua compreensão sobre identidade, linguagem e pertencimento. Em seus poemas, o íntimo se entrelaça ao coletivo, revelando como histórias pessoais podem expor estruturas de desigualdade que atravessam gênero, território e neurodivergência.
Semifinalista do Prêmio Loba Festival em 2024, premiação dedicada à literatura produzida por mulheres, a autora defende que escrever pode ser, ao mesmo tempo, gesto estético e ato de resistência. Nesta entrevista, Flávia Teodoro Alves reflete sobre feminismo, amor romântico, desigualdades no meio literário e o papel da escrita como ferramenta de autonomia e transformação.
1. Quando se fala em luta e resistência das mulheres, como você enxerga sua escrita dentro desse campo de disputas simbólicas e políticas?
Vejo minha escrita como parte da resistência. Mas é importante ressaltar que não “uso” a arte e a literatura como panfleto. Discuto e pauto essas questões porque elas atravessam minha existência de forma muito direta. Como artista e escritora me debruço sobre a forma e proponho uma linguagem alinhada à mensagem, o que é fundamental para o discurso artístico.
2. Sua poesia atravessa corpo, desejo, frustração e ruína. De que maneira escrever sobre essas experiências é também reivindicar autonomia sobre o corpo feminino?
Minha escrita literária e minha pesquisa acadêmica no campo da arte/educação está profundamente ligada ao corpo, à nossa presença no mundo. Isso aparece nos processos de edição, principalmente do primeiro livro, em que o resultado da escrita afetiva é um livro/corpo, que materializa o processo criativo. Reivindico autonomia, não só em relação ao meu corpo, como também à minha história e intelectualidade por meio dos meus processos artísticos (pesquisa, arte/educação e literatura) buscando decidir meus rumos em um mundo que não é feito para mim, tanto por ser mulher quanto por ser neurodivergente. Modéstia à parte, é um ato de rebeldia e tanto.
3. Você desconstrói o amor romântico em vários poemas. Para você, desmontar esse imaginário é um gesto literário, político ou ambos?
A partir do momento em que percebi que o amor romântico não é um fato dado ou natural desse mundo/sociedade em que cresci, comecei a destruí-lo a marretadas, rsrsrs. O senso comum pode ver esse processo como amargura (e de novo) como rebeldia, porque a mulher que não busca validar-se por meio de uma parceria romântica se torna perigosa para a sociedade. A verdade é que esse processo me leva a amar mais e profundamente, porque é um afeto que se fundamenta na liberdade e não pelo medo da perda. É um gesto ao mesmo tempo literário e político, porque tem fundamentado minha criação nos últimos anos. O ponto alto é a escrita da Cerejinha, meu personagem/alter ego que reflete essa minha jornada de criação de formas mais livres de amar.
4. Sendo uma mulher periférica da Brasilândia, quais são os principais desafios para construir e sustentar uma carreira literária?
Como já disse, a sociedade em que vivemos não é feita para pessoas como eu. Além de mulher e neurodivergente, sou trabalhadora e periférica. Via de regra, vivo inviabilizada para o meio literário tradicional, por questões geográficas e também por conta do tempo restrito que tenho para me dedicar à literatura profissionalmente. Por outro lado, não posso simplesmente largar meu trabalho e fonte de renda, porque a literatura nem de longe me sustenta financeiramente. Na verdade, financio minha carreira literária. Pós-graduação, tiragens dos livros, cursos de marketing, traduções, viagens para divulgação (um internacional, inclusive) e leituras críticas especializadas foram pagas a partir do meu salário de professora. Apesar de permanecer no não-dito, a regra é clara. Ou você é parte do clube, ou paga. E ainda será vista como literatura nichada (feminina/feminista, periférica, até neurodivergente), raramente como “literatura”. Acho que os coletivos de sarau e slam são preciosos, admiro muito, mas até pelo meu tempo restrito, é difícil encontrar e me engajar nesses grupos de forma consistente. Mas sempre que apareço e me candidato ao microfone aberto, encontro acolhimento e escuta. A gente cria nossos espaços. Mas minha jornada tem sido mais solitária, mais por contingência do que por escolha. Carlos Drummond de Andrade já tinha alertado: “se quer ter uma carreira literária, precisa ser funcionário público!”
5. Sua obra transita entre o íntimo e o coletivo. O que há de especificamente feminino e feminista nesse movimento de transformar experiência pessoal em denúncia estrutural?
Carol Hanisch sentenciou: o pessoal é político. É um ensaio de mais de 50 anos que continua tristemente atual. As cenas cotidianas de racismo, capacitismo, machismo e misoginia não são espontâneas. Quando fiz o curso Performatividades no CRD (centro de referência da dança), a artista e filósofa Elle de Bernadini nos alertou que as mulheres criam na arte a partir dos seus corpos e experiências, porque é praticamente só isso que nós temos. Essa alquimia de transformar subjetividade em denúncia parte de de um processo que parte justamente dessa escassez, casual e intencional ao mesmo tempo. No meu caso, a questão anterior já explicita tudo, pelo menos em relação à literatura.
6. O diagnóstico tardio de autismo com TDAH e altas habilidades reorganizou sua trajetória. Como a experiência de ser uma mulher neurodivergente impacta sua visão sobre feminismo?
O diagnóstico tardio é uma expressão do abandono a que mulheres e meninas estão expostas o tempo todo, além de escancarar que a ciência não é neutra, principalmente a ciência positiva (mais baseada em números e dados frios). Historicamente, os estudos sobre autismo se basearam em meninos, que inviabilizou as mulheres e meninas no espectro. Sem contar que os primeiros estudos de Grunya Sukhareva, psiquiatra russa, ficaram esquecidos na história da ciência. Ela pesquisou meninos e meninas ainda em 1925. Os primeiros casos nomeados como autismo surgiram a partir dos anos 1940.
7. A literatura ainda é um espaço marcado por desigualdades de gênero. Que violências, sejam explícitas e sutis, você identifica no meio literário?
Acredito que a literatura escrita por mulheres está passando por um momento incrível, de muita visibilidade, no entanto, as desigualdades persistem. O machismo e a misoginia atingem todos os meios e ambientes, mesmo os mais intelectualizados.
8. Você foi semifinalista do Prêmio Loba Festival, um prêmio voltado à literatura produzida por mulheres. Qual a importância de espaços exclusivos para autoras em um cenário historicamente desigual?
A literatura escrita por mulheres é literatura. Gostaríamos de sermos vistas como escritoras, apenas. No entanto, os nichos acabam sendo importantes para sermos lidas e avaliadas com parâmetros mais justos. O júri do Loba, por exemplo, também é composto exclusivamente por mulheres.
10. Na sua experiência como professora da rede pública, como você percebe as meninas de hoje lidando com autonomia, desejo e futuro? A escrita pode ser ferramenta de emancipação para elas?
Eu percebo que as meninas já não aceitam mais o papel de submissão e obediência que o mundo espera delas. O que se choca com as expectativas de muitos garotos, que ainda são criados para um mundo que supostamente é feito para eles. Eu trabalho com crianças e essas relações estão postas desde o começo.
A rede municipal de São Paulo (onde trabalho) tem projetos de literatura primorosos, em que tanto a leitura literária quanto a escrita são meios de conscientização e descoberta de talentos. Vou citar aqui dois que eu já participei: a Sala de Leitura, que existe há mais de 50 anos, e a Academia Estudantil de Letras, que completou 20 anos em 2025.
11. Seu trabalho como performer e poeta multimeios também ocupa as ruas. Que diferença faz para você tirar a poesia do livro e colocá-la no espaço público, especialmente sendo mulher?
Comecei com o espaço público e depois migrei para o livro. Comecei a colar e performar meus poemas na rua em 2019, cansada e revoltada com a falta de oportunidade e silenciamento que estava sofrendo na escola em que trabalhava à época, que cala mulheres e dissidentes, apesar de se declarar “progressista”. Já estava fazendo a especialização em escrita do Vera Cruz e já era mestre em Arte pela Unesp. Os estudos e a experiência com performance moldaram minha persona de arte de rua, como um ato de resistência e desobediência.
12. Você já disse que escreve para “atacar o sentido estabelecido”. Quais sentidos estabelecidos sobre o que é ser mulher mais te provocam hoje?
Acho que a própria ideia de gênero devia ser implodida. Sou leitora de Paul Preciado, rsrs. Mas entendo que isso leva tempo, então por enquanto, adoto o binarismo estratégico, como aprendi com a Dra. Valeska Zanello. Sou mulher porque me deram essa sina, não fui eu que inventei.
13. Se pudesse deixar uma mensagem para outras mulheres que escrevem qual seria?
Além de escrever e publicar, é importante a gente fortalecer as redes. Ler nossas contemporâneas, indicar livros de mulheres, organizar clubes de leitura, saraus, slams. Tudo que nos ajude a sermos vistas e lidas.
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