Romance autoficcional de N.Netta aborda aborto, silenciamento e autonomia feminina


Romance autoficcional de N.Netta aborda aborto, silenciamento e autonomia feminina


O aborto, tema ainda cercado por tabus e pouco explorado na ficção brasileira, ocupa o centro de Do tamanho de um grão (Dulcineia/Grupo Editorial Quixote), romance de estreia da escritora e jornalista mineira N.Netta. Com linguagem poética, frases curtas e estrutura fragmentada, a obra propõe uma reflexão sobre autonomia do corpo feminino, repressão social e memória a partir da experiência de uma mulher que decide interromper uma gravidez não planejada.


Ambientado no final dos anos 1980, o romance acompanha a protagonista diante das diferentes formas de violência e silenciamento impostas pela sociedade após sua decisão de não levar a gravidez adiante. A narrativa também recupera referências culturais da época, com menções a nomes como Cazuza, Madonna e Legião Urbana, inserindo a experiência íntima da personagem em um contexto histórico e geracional específico.


“O tema central é o aborto, mas vai além disso: trata-se da profunda humanidade dessa experiência na vida das mulheres”, afirma N.Netta.


A obra dialoga diretamente com a tradição recente da autoficção francesa, especialmente com os livros O Acontecimento, da vencedora do Nobel Annie Ernaux, e Dezessete Anos, de Colombe Schneck. Segundo a autora, a leitura dessas escritoras evidenciou uma lacuna na literatura brasileira em torno do tema.


“Ao ler Annie Ernaux e Colombe Schneck, percebi que o tabu do aborto estava sendo enfrentado pela literatura francesa e que havia essa ausência na literatura brasileira”, explica.


Embora parta de uma experiência real, a autora destaca que seu romance carrega uma especificidade importante: o contexto de ilegalidade da interrupção voluntária da gravidez no Brasil. Diferentemente das escritoras francesas, que escreveram em um cenário de legalização do aborto em seus países, N.Netta constrói sua narrativa a partir de uma realidade em que o tema permanece criminalizado.


Essa perspectiva de dupla ilegalidade me interessou, na medida em que acredito no caráter desafiador da literatura perante temas considerados tabus”, afirma.


A apresentação do livro é assinada por Isadora de Araújo Pontes, tradutora de Annie Ernaux no Brasil, que define a obra como uma narrativa íntima capaz de representar a experiência de milhares de mulheres. O projeto gráfico e a capa foram desenvolvidos pela artista Gabriela Abdalla, enquanto um dos textos de orelha é assinado pela editora Bruna Fortunata.


Jornalista formada pela PUC Minas, mestre em Teoria da Literatura pela UFMG e especialista em Escrita Criativa, N.Netta levou cerca de um ano para concluir o romance. Segundo a autora, escrever em primeira pessoa foi um dos principais desafios do processo, especialmente pelo grau de exposição emocional exigido pela narrativa.


Escrever na primeira pessoa, às vezes, incomodava muito, me expunha muito. Mas entendi que era exatamente isso que me interessava”, comenta.


A estrutura fragmentada do romance acompanha a lógica da memória da protagonista e reforça o caráter subjetivo da narrativa. A autora afirma que prefere construir histórias abertas à interpretação do leitor, sem respostas definitivas.


“Não gosto de responder, mas de lançar questões. Digo que, sobre meu livro, você vai mudar sua opinião sobre o aborto, seja ela qual for”, conclui.




Sobre a Autora

Nascida em Belo Horizonte, cidade onde reside atualmente, N.Netta tem ampla experiência na área da comunicação e atua hoje como analista socioambiental, conciliando a profissão com a escrita literária. “Tornei-me autora, que era algo que eu sempre quis ser. O livro me transformou porque me mostrou uma coragem que eu não imaginava que tinha e isso refletiu em outras áreas da minha vida, a qual eu enfrento agora com mais energia.” Atualmente, a autora trabalha em seu segundo romance.“Ele dialoga com o primeiro. Trata-se de uma história de adultério, infidelidade e videotape narrada por uma mulher, talvez a mesma protagonista de ‘Do tamanho de um grão’. Nesse segundo livro, vou aprofundar o contexto social, cultural e político do final dos anos 80 e início dos anos 90 no Brasil, quando vivíamos na hiperinflação e ocorrem as primeiras eleições diretas para presidente  após a Ditadura Militar”.


Trecho do livro “Do tamanho de um grão”

“Primeiro, tentei comprar o comprimido proibido, aquele que faz descer ‘a bola de sangue’, quem já passou por um aborto químico clandestino vai me entender. Tive pavor. Mas pensei: se eu não aguentar, procuro o hospital e invento mentira de que começou a sangrar, não sei o porquê.

Atravessei viadutos, passei por vielas, subi morros, caí em valas até entrar em uma farmácia aleatória numa avenida movimentada em um bairro miserável de Belo Horizonte. Achava que nesses lugares seria mais fácil conseguir o comprimido abortivo. Fiquei esgueirando pelos corredores, inventava cheirar sabonetes vagabundos, fingia ver preços, é como gastava minha aflição.”

Ficha técnica

Livro: Do tamanho de um grão
Autora: N.Netta

Editora: Dulcineia / Grupo Editorial Quixote
Páginas: 120 


Venda online
Site da editora:clica aqui

Amazon: https://bit.ly/4tp7xul 

Também disponível nas principais livrarias físicas de Belo Horizonte, nas livrarias da rede Leitura e na Martins Fontes, em São Paulo