André Giusti estreia no romance com narrativa sobre crise masculina, jornalismo e busca por sentido

 por Taciana Oliveira |



"Só vale a pena se houver encanto": André Giusti estreia no romance explorando as fragilidades da vida adulta



O escritor e jornalista André Giusti lança seu primeiro romance, "Só vale a pena se houver encanto", obra que acompanha a trajetória de um homem em crise pessoal e profissional enquanto o Brasil atravessa alguns dos acontecimentos políticos mais marcantes das últimas décadas. Publicado pela editora Caos e Letras, o livro consolida uma carreira literária já reconhecida por premiações importantes, como a indicação ao Prêmio Jabuti e a semifinal no Prêmio Oceanos.


A narrativa acompanha Alessandro Romani, jornalista e escritor carioca radicado em Brasília, que se vê diante de uma sucessão de perdas: o desemprego, o fim do casamento e a morte de pessoas próximas. Em meio aos bastidores da cobertura jornalística de eventos como as manifestações de 2013 e o processo que levou à queda da primeira presidenta do Brasil, o protagonista mergulha em uma jornada de autoconhecimento marcada por questionamentos sobre trabalho, amor, paternidade e envelhecimento.


Escrito ao longo de onze anos, a história explora a fragilidade emocional masculina e os dilemas de uma geração que cresceu sob determinadas expectativas de sucesso, estabilidade e realização pessoal, mas que se depara com um cenário cada vez mais incerto. Pai de três filhas, divorciado e apaixonado por rock e blues, Alessandro recusa a ideia de que a vida possa se resumir ao cumprimento de obrigações cotidianas. Em busca de algo que dê sentido à existência, encontra na terapia um espaço para confrontar suas dores, frustrações e contradições.


A escritora Stella Maris Rezende, responsável pelo texto de orelha da obra, destaca a intensidade do personagem e sua permanente busca por uma vida mais significativa. Outros leitores ilustres também apontam a força do romance. O escritor Sérgio Tavares vê na narrativa um mergulho profundo nas inquietações masculinas contemporâneas, enquanto Débora Ferraz aproxima a voz do protagonista do universo de Fiódor Dostoiévski, especialmente de "Notas do Subsolo", pela mistura de lucidez, angústia e autocrítica.


Segundo André Giusti, um dos objetivos do livro é refletir sobre a forma como a sociedade lida com o sofrimento humano. “A gente precisa entender que a dor, a decepção, a derrota, o abandono, a frustração, o fracasso e as perdas fazem parte da vida. A gente trata tudo isso como um fato extracampo, mas não é”, afirma.




Jornalista com passagens por veículos como CBN, Grupo Bandeirantes, TVE-RJ, TV Justiça e Senado Federal, Giusti construiu uma trajetória paralela na literatura. Finalista do Prêmio Jabuti em 1997 com "Voando Pela Noite, Até de Manhã" e semifinalista do Oceanos 2024 com "As Filhas Moravam Com Ele", o autor chega agora ao romance mantendo temas que atravessam sua obra: as relações humanas, a passagem do tempo, as fragilidades da vida cotidiana e a busca por algum tipo de encanto em meio ao caos.


Para conhecer mais sobre o processo de criação de "Só vale a pena se houver encanto", os desafios de transformar experiências humanas em ficção e as reflexões sobre masculinidade, jornalismo e literatura presentes na obra, acompanhe a entrevista com André Giusti.


1. "Só vale a pena se houver encanto" acompanha um personagem em crise pessoal e profissional. Em que momento você percebeu que essa história precisava se transformar em romance? 

Não me lembro ao certo se lá nos momentos iniciais, nos mais remotos, já havia a ideia fechada de romance. Talvez eu não tivesse muita segurança em que gênero contaria aquela história que começava a brotar em minha cabeça na forma confusa de uma espécie de terapia. O certo é que sempre foi literatura, desde a centelha inicial, porque eu não consigo falar de nada que me aflige, angustia, emociona e alegra sem ser por intermédio da literatura. E então virou romance quando percebi a gama de situações e seus desdobramentos possíveis, inclusive os ficcionais, que cabiam naquela história que eu estava contando.

2. O livro foi escrito ao longo de onze anos. Como o passar do tempo e as mudanças políticas e pessoais influenciaram a construção de Alessandro Romani? 

A história atravessa pouco mais de treze anos, tempo que creio, bem razoável, para que uma pessoa amadureça. Mas não é, na verdade, o tempo que amadurece as pessoas, né? O que as amadurece é o que elas vivem, e o Romani passou por situações relevantes ao longo desses anos, que o moldaram, embora ainda com diversas falhas, em ser humano com maior ciência de seu papel no mundo, na sociedade e na própria vida. Juntamente a tudo isso, eu também amadurecia, inclusive enquanto autor, na busca de encontrar o que me pareciam os pontos exatos da narrativa, dos diálogos, em cada situação do livro.

3. Brasília não é apenas cenário do romance, mas ambiente emocional e político. De que forma sua experiência no jornalismo político ajudou a moldar essa atmosfera? 

Penso que um bom romance, um romance que prende o leitor, precisa ter detalhes atraentes que tornem imprescindível para o livro cada situação atravessada pelo personagem principal/narrador. Se não houver detalhes que prendam o leitor, determinada situação se tornará algo totalmente dispensável, solta e sem sentido no livro. Não é apenas contar o geral, é contar o geral e conferir a ele credibilidade a partir da narração de particularidades que serão a pimenta do prato. E acho que você só consegue levar detalhes a um livro, ainda que inventados, se você tem propriedade para narrar determinada situação, conhecimento como pessoa daquilo que está contando, vivência sobre o que está escrevendo, até mesmo para poder criar e inventar em cima.

4. O personagem Alessandro enfrenta questões ligadas à masculinidade, saúde mental e dificuldade de vulnerabilidade entre homens. O que mais lhe interessava explorar nesse universo masculino contemporâneo? 

Os homens não se abrem, não contam suas angústias, seus medos uns para os outros, nem para os amigos mais chegados, é muito difícil isso acontecer. Por exemplo, no geral, o homem, quando broxa, fica com aquilo para ele e, claro, com a mulher que testemunhou o fracasso. Eu quis jogar um pouco de luz sobre todo esse mundo escondido dentro dos homens, mostrar que não somos, nem de longe, fortalezas intransponíveis, que choramos e choramos muito, que ficamos sem rumo e perdidos. A literatura contemporânea cada vez mais fala das mulheres. É justo, é necessário, mas os homens permanecem sendo essa ostra impenetrável, sem querer colocar tudo para fora. Há uma fala do Alessandro Romani em que ele diz “Ser mulher realmente não deve ser fácil, mas ser homem também não é brincar no playground”. É isso, em linhas gerais, que meu romance procura dizer em relação a esse campo de nossas vidas: ser mulher é barra, mas ser homem também é bem chato, dependendo da ocasião.


5. Em diversos momentos, o protagonista parece buscar sentido para além da rotina e das obrigações. O que significa, para você, “haver encanto” na vida?

É ter prazer em acordar todas as manhãs, tomar café sentindo o gosto de cada coisa que está posta na mesa, ir para o trabalho observando os detalhes da manhã, as nuvens, as pessoas passando; chegar ao trabalho e procurar fazer a diferença não apenas para a empresa em que se trabalha, mas para si mesmo, para a sociedade. Se não estivermos assim, se não estamos encontrando encanto, sentido, e muitas vezes realmente não estamos, que partamos para as mudanças, porque elas estão aí pra gente ir atrás delas e melhorar. Não acho correto sermos massacrados pela vida se a vida está entregando apenas coisas que nos fazem viver por viver, feito autômatos. Esse encanto precisa existir até nos momentos difíceis, porque que eles fazem parte da vida, que a tristeza, as perdas, as crises são do jogo, e que mesmo nelas é possível sentir encanto, quando se procura aprender com essas dificuldades, e aprendendo sermos pessoas melhores para nós e para o mundo. Viver com encanto é viver, e não apenas passar pela vida.

6. A terapia ocupa um espaço importante na narrativa. Você acredita que os homens ainda têm dificuldade de olhar para suas próprias fragilidades?

Acho que eles, em muitos casos, nem sabem ao certo dessas fragilidades. Percebo que terapia ainda é tratada com certo tabu pelos homens (já foi muito mais, claro), então isso anuncia, em minha opinião, essa dificuldade em relação às próprias fragilidades. É difícil para um homem se mostrar frágil para uma mulher, principalmente se essa mulher for para ele (e ele para ela) nada mais do que uma aventura ocasional: “Ela vai pensar que eu sou um banana, vai rir de mim”, é mais ou menos essa a lógica. Com a esposa, a namorada de anos, devido à intimidade, é mais fácil, mesmo assim não é garantia de que haverá essa transparência de seus medos, seus conflitos. É difícil para um homem se mostrar frágil no ambiente competitivo do trabalho (claro, para a mulher é ainda mais, sem dúvida). É difícil para um homem se mostrar frágil na frente dos filhos. A sociedade não nos acostumou assim. A terapia tem sido uma porta para que muitos de nós contemos muito do que escondemos dentro de casa.

7. O romance conversa diretamente com acontecimentos políticos recentes do Brasil, a exemplo das manifestações de 2013 e do impeachment da primeira presidenta do país. Como equilibrar contexto político e dimensão íntima dos personagens?

Acho que precisa haver aí uma dosagem para os dois lados que seja razoável narrativamente, para que não aborreça o leitor e para que ele perceba qual universo é de fato o mais importante na história. No meu romance, o contexto político do Brasil dos primeiros quinze anos do século 21 é apenas pano de fundo. O que me importa é contar a história de um cara normal, com uma vida normal, vivendo acontecimentos normais e que quer apenas encontrar sentido em viver. Não é um livro sobre a história política recente do país, como também não é sobre jornalismo, outro campo em destaque no livro. Então, para deixar isso claro para o leitor, procurei dar a cada assunto a massa de texto necessária, sem me preocupar em ficar explicando detalhes que a maioria do brasileiro bem-informado conhece, que já virou história, não é mais notícia. Se você perceber, nem aparece na história o nome de nenhum político.  

8. De que maneira experiência pessoal e invenção literária se cruzam na construção do romance?

Na maioria das vezes, a realidade vem antes, geralmente é ela que puxa a fantasia, é nela que semeio a ficção. Muitas vezes essa ficção é desdobramento da realidade, como a construção de uma cena, de uma situação que é totalmente inverossímil, que nunca aconteceu, mas que se acopla perfeitamente ao que foi vivido no mundo real, e não necessariamente pelo autor como pessoa. Há cenas e situações no livro que me foram contadas anos e anos antes de ele ser escrito. No meu caso, a autoficção possui um trinômio: o que aconteceu; o que aconteceu, mas não foi bem assim; e o que nunca aconteceu e foi inteiramente inventado

9. Sua escrita é atravessada por referências musicais, especialmente do rock e do blues.  A música influencia de alguma forma o ritmo da sua prosa?

Não sei se o ritmo exatamente, mas o clima (se alegre ou triste) e a energia das cenas (raiva, desespero, euforia), certamente que influencia. Não raro escrevo escutando música, imaginando os personagens embalados por aquela canção que estou ouvindo, é como se eles estivessem em um filme ou em um videoclipe. Em  muitas cenas do romance, e em muitos de meus contos, há citação de músicas como apoio à história, à cena descrita. Escrevo e em seguida, escuto a música, lendo o que escrevi, para conferir se saiu com a pegada da música que eu quis dar.

10. Após livros de contos premiados e reconhecidos, como foi o desafio de sustentar uma narrativa longa pela primeira vez?

Logo cedo percebi que para sustentar essa narrativa longa eu precisava ter em mãos muita coisa para contar, ter uma história grande, corpulenta (caso contrário, seria conto), que fosse evoluindo com desdobramentos em forma de mudanças (mesmo que não fossem radicais) que não permitissem ao leitor a sensação de mesmice. Essa história precisava ter conteúdo de vida, drama humano (o que é básico na literatura), que tocasse as pessoas falando da vida de um personagem que, em algum momento, poderia ser qualquer um que estivesse lendo, uma história que jogasse luz sobre nossos dramas e prazeres diários; não podia ser superficial, precisava ter profundidade de pensamentos e sentimentos, sem ser manual de nada, sem ter a pretensão de regras e normas de sucesso, cura ou transformação. Precisava ter diálogos fortes, incisivos, ásperos, doces e engraçados. Busquei usar diálogos e humor ácido ou ironia porque, a meu ver, na literatura contemporânea, os narradores ficam com todo o trabalho de contar a história, os personagens pouco ou nada dialogam, e não há humor nos livros dessa geração que vem depois da minha. É todo mundo basicamente sério, todo mundo querendo mostrar que está comprometido com uma causa, como se rir afrouxasse a seriedade de se encarar o mundo e seus desafios. Descobri ao longo do processo que você precisa ficar atento à coerência dos personagens, especialmente os que atravessam a narrativa inteira. Eles não podem agir de um jeito no início e terminar o livro agindo de outro, a não ser, claro, que essa guinada esteja planejada e fique muito bem delineada. E, para encerrar: meu romance tem 360 páginas e uma escrita objetiva, de leitura fácil, porque foi escrito por um contista, que tem na concisão sua principal arma.

11. Alessandro é pai de três filhas e vive cercado por perdas, fracassos e tentativas de reconstrução. Você acredita que o romance conversa com temas como amadurecimento e envelhecimento masculino?

Acho que mais com o amadurecimento do que com o envelhecimento. O Alessandro Romani está numa idade em que ele não pensa ainda em envelhecimento, embora essa fase não esteja tão longe. O amadurecimento é um dos motes do romance. Em tudo o que o Alessandro vive, está o amadurecimento se oferecendo para que ele aproveite a chance de crescer. 

12. Ao longo da  sua vida profissional, você transitou entre jornalismo e literatura. O que a ficção permite dizer que o jornalismo não consegue alcançar? 

Acho que o plano subjetivo das histórias. O jornalismo é objetivo, né? Ele não tem tempo de observar muito, especialmente se é aquele jornalismo diário, do dia a dia, em que o repórter sai pra rua à tarde e no início da noite tem que fechar a matéria.  Uma mãe que enterra o filho assassinado certamente demonstrará desespero à beira do caixão, mas haverá também, em seus olhos, em determinado momento em que ela se aquietar, um vazio enorme e uma total falta de sentido em continuar vivendo. Isso, ali, naquele momento, talvez não seja notícia, porque passará despercebido. Mas é literatura, sempre vai ser. O desespero estará nas páginas dos jornais, nos telejornais; enquanto o vazio e o sem sentido de viver pularão de trás dos olhos dessa mulher para se abrigarem em livros de poesia ou prosa, porque o escritor é uma espécie de repórter da não notícia. 



Ficha técnica


Título: Só vale a pena se houver encanto

Autor: André Giusti

Instagram: https://www.instagram.com/andregiustim68/

Páginas: 368

ISBN: 978-65-80804-41-2

Gênero: Romance

Editora: Caos e Letras

Ano: 2026

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