por *Taciana Oliveira |
Infância, fé e imaginação se encontram em obra vencedora do Prêmio CEPE
Infância, fé e imaginação se encontram em obra vencedora do Prêmio CEPE
Quem é Deus? A pergunta atravessa séculos, religiões e culturas, mas ganha uma perspectiva singular em “A menina que não queria ver Deus”, novo livro infantojuvenil da escritora Lisa Alves, publicado pela Cepe Editora. Vencedora do 5º Prêmio CEPE Nacional de Literatura Infantil e Infantojuvenil, a obra acompanha as inquietações de Maria Antônia, uma menina de 11 anos que busca compreender o mundo a partir das experiências vividas dentro de casa, na escola e em suas conversas imaginárias com o divino. Com ilustrações de Elisa Carareto, o livro propõe uma narrativa refinada e bem-humorada sobre relações familiares, dinâmicas sociais, espiritualidade e as grandes perguntas da infância. O lançamento acontece no dia 18 de junho, em Araxá (MG), cidade natal da autora, com programação que inclui leitura da obra, mesa-redonda com a psicanalista infantil Luciana Donadelli e sessão de autógrafos.
Ao longo de 14 capítulos, Maria Antônia se apresenta como uma observadora atenta da realidade. Durante o dia, questiona situações que presencia em seu ambiente familiar, marcado por conflitos, alcoolismo e violência doméstica, além de refletir sobre temas filosóficos discutidos na escola. À noite, transforma suas dúvidas em conversas diretas com Deus, abordando desde problemas cotidianos até questões mais complexas, como a origem da vida e a própria representação do sagrado.
Em um dos trechos da obra, a personagem questiona por que Deus seria necessariamente homem, observando que as mulheres ao seu redor são as responsáveis por cuidar da família e sustentar a vida cotidiana. As reflexões da menina conduzem a narrativa por caminhos que dialogam com temas universais sem perder a leveza característica da infância.
Embora demonstre intimidade com Deus, Maria Antônia faz um pedido curioso: prefere que Ele não apareça. Para ela, amizades à distância costumam durar mais. A relação construída pela protagonista com o divino revela uma mistura de humor, delicadeza e desejo de compreender aquilo que muitas vezes escapa às explicações convencionais. Segundo Lisa Alves, a personagem nasceu de memórias pessoais, inquietações acumuladas ao longo da vida e da observação de outras meninas que encontrou em sua trajetória. A autora afirma que a obra também representa uma tentativa de revisitar a própria origem e compreender experiências vividas na infância.
Os jurados do Prêmio CEPE destacaram o caráter inovador da narrativa, estruturada através de diferentes formatos, como diálogos, cartas, redações e sonhos. Para eles, a obra consegue abordar questões densas sem subestimar a inteligência do público jovem, equilibrando complexidade temática e linguagem acessível. As ilustrações de Elisa Carareto enriquecem essa proposta ao reproduzir visualmente a sensação de estar diante do caderno pessoal de Maria Antônia. Utilizando técnicas como aquarela, canetas hidrográficas, colagens analógicas e digitais, a artista cria um universo visual povoado por figuras humanas, animais, plantas, estrelas e elementos que conversam diretamente com a imaginação da protagonista.
Além de uma história sobre fé, “A menina que não queria ver Deus” investiga escuta, reconhecimento e a coragem de formular perguntas. Ao acompanhar o percurso de Maria Antônia, o leitor é levado a refletir sobre as relações humanas, os silêncios familiares e as histórias que ajudam a atribuir significado à experiência de viver.
E para aprofundar os temas presentes no livro, a Mirada entrevistou a escritora Lisa Alves sobre o processo de criação do livro, a construção da personagem Maria Antônia, a conquista do Prêmio Cepe Nacional de Literatura Infantil e Infantojuvenil e os desafios de abordar questões complexas a partir do olhar da infância. Segue a entrevista abaixo:
1. Maria Antônia enfrenta questões difíceis dentro de casa e, ao mesmo tempo, se lança em grandes perguntas sobre a vida, a fé e a existência. Quais foram os desafios de abordar temas tão delicados a partir do olhar de uma criança?
Acredito que as crianças convivem com questões existenciais muito antes de aprenderem a nomeá-las. Elas observam a morte, percebem injustiças, sentem ausências e formulam perguntas filosóficas com uma liberdade que os adultos muitas vezes perderam.
É desafiante abordar determinados temas sem transformar o livro em um tratado ideológico. Penso que a literatura perde força quando passa a oferecer respostas prontas. E por isso, meu interesse sempre esteve mais próximo da pergunta do que da resposta. Maria Antônia não é uma personagem que ensina; ela é uma personagem que estranha o mundo. Ela observa contradições que os adultos naturalizaram: por que Deus permite guerras? Por que as mulheres sustentam a vida cotidiana e, ainda assim, quase sempre ocupam posições secundárias? Por que aprendemos mais sobre mitos e filosofias distantes do que sobre nossas próprias cosmovisões e saberes? E essas inquietações aparecem porque fazem parte da experiência dela.
E, de certa forma, o livro parte de uma convicção simples: as perguntas podem ser mais revolucionárias do que as respostas. Maria Antônia não quer destruir a ideia de Deus, da família ou da tradição colonialista das pessoas. Ela quer compreender a ideia. E, ao tentar compreendê-la, acaba revelando as contradições do pensamento que organiza o mundo ao seu redor.
2. A narrativa passeia entre problemas concretos do cotidiano familiar e reflexões profundas sobre Deus, sofrimento e pertencimento. De que forma você construiu a voz de Maria Antônia para dar conta dessas diferentes camadas da experiência humana?
A construção da voz de Maria Antônia nasceu de uma pergunta que me acompanhou durante toda a escrita: como compreender o mundo sem um olhar disciplinado? A partir dessa pergunta, procurei construir uma personagem que observa, questiona e não tem medo de expor seu imaginário.
Maria Antônia não chega às grandes perguntas através dos livros de Filosofia, mas através da experiência cotidiana. O sofrimento do pai a leva a questionar a falsa ideia de que homens são fortes. A força da mãe e da avó a faz refletir sobre os papéis atribuídos e não atribuídos às mulheres. As imagens de crianças sofrendo e morrendo em territórios de guerra despertam dúvidas sobre religião, justiça, humanidade e a fazem questionar o criacionismo. As questões filosóficas não aparecem como abstrações; elas nascem da vida concreta da personagem.
3. Sem subestimar a inteligência do leitor jovem, o livro aborda questões como a violência doméstica, o alcoolismo e os conflitos familiares. O que a literatura infantojuvenil permite dizer sobre essas questões que, muitas vezes, os adultos têm dificuldade de enfrentar?
Sinto que a literatura é capaz de oferecer um espaço para nomear aquilo que muitas pessoas tentam esconder. E que ela é um território capaz de abrigar qualquer experiência humana.
Em inúmeras casas, temas como depressão, alcoolismo, violência física e psicológica ainda são tratados como segredos. No entanto, crianças e adolescentes convivem com essas realidades diariamente. O silêncio não as protege; muitas vezes, apenas as deixa sozinhas diante de experiências que não conseguem compreender. E nesse sentido, a literatura pode funcionar como uma ponte, permitindo na leitura um reconhecimento de situações semelhantes e a percepção que não são os únicos a viver determinadas dores.
4. Embora trate de situações dolorosas, o livro preserva a sensibilidade, o humor e a curiosidade da infância. Como você trabalhou essa tensão entre a dureza da realidade e a imaginação da personagem?
Muitas narrativas sobre temas difíceis acabam colocando personagens, adultos ou infantis, em um lugar excessivamente sério. Minha vivência me mostra justamente o contrário. Mesmo em contextos marcados por perdas, conflitos ou precariedades, pessoas continuam brincando, inventando histórias e encontrando formas criativas de existir. A imaginação, o humor e a curiosidade são ferramentas de sobrevivência.
Os capítulos mais densos, por exemplo, são frequentemente atravessados por momentos de leveza, humor ou imaginação. Depois de uma conversa difícil, surge uma pergunta inesperada. Depois de uma reflexão sobre a guerra, aparece uma observação engraçada. Depois de uma noite de angústia, há o dia seguinte em um parque. Essa alternância procura reproduzir a experiência emocional humana, que nem sempre permanece presa a um único estado de humor.
5. A menina que não queria ver Deus apresenta uma protagonista que tenta compreender o mundo à sua volta em meio a situações familiares complexas. Em sua opinião, qual é o papel da literatura ao oferecer às crianças ferramentas para nomear e elaborar experiências difíceis?
Acredito que a literatura oferece algo que nenhuma cartilha ou discurso pedagógico consegue oferecer plenamente: identificação. Quando você encontra um personagem que compartilha suas dúvidas, medos ou inquietações, percebe que não está mais só. Muitas vezes, essa identificação produz um efeito silencioso, mas profundo. A literatura cria comunidades invisíveis de afeto entre pessoas que talvez nunca se encontrem.
Outro aspecto fundamental é que a literatura não tem a obrigação de oferecer respostas definitivas. Vivemos em uma cultura que frequentemente exige soluções rápidas para problemas complexos. A arte opera de outra maneira. Muitas vezes, uma boa história não resolve um sofrimento, mas ajuda a torná-lo compreensível.
6. O livro foi o vencedor do 5º Prêmio CEPE Nacional de Literatura Infantil e Infantojuvenil. O que esse reconhecimento representou para você, especialmente por marcar sua estreia na literatura voltada para crianças e jovens?
Recebi esse reconhecimento como um convite à continuidade. Mais do que uma chegada, ele representou uma abertura de caminhos. Evidentemente, há a alegria do prêmio literário, do reconhecimento dos jurados e da possibilidade de estrear na literatura infantojuvenil por meio de uma obra que já nasce premiada. Isso amplia as chances de o livro alcançar mais pessoas, e quem escreve deseja, antes de tudo, ganhar leitores.
Mas existe também uma dimensão menos visível e igualmente importante. O prêmio me ofereceu algo raro para quem vem da classe trabalhadora: tempo para escrever. Virginia Woolf afirmava que, para uma mulher produzir literatura, eram necessários independência financeira e um espaço próprio. Sempre penso nessa reflexão porque, para muitas escritoras, especialmente aquelas que precisam conciliar trabalho, cuidado e sobrevivência, o maior desafio não é a falta de ideias, mas a falta de tempo.
Venho de uma trajetória em que a escrita sempre precisou dividir espaço com outras formas de trabalho. Por isso, o prêmio significou também alguns meses de tranquilidade para concluir projetos que estavam há anos aguardando uma oportunidade de existir. Nesse sentido, ele não reconheceu apenas um livro; ajudou a criar as condições materiais para que outros livros fossem escritos.
Penso muito também em autoras como Carolina Maria de Jesus, que escreveu uma obra fundamental da literatura brasileira entre o trabalho exaustivo, a pobreza e a responsabilidade de sustentar os filhos. Ela nos lembra que o talento literário está distribuído por toda a sociedade, mas as oportunidades para desenvolvê-lo não. Por isso, quando uma política pública, um edital ou um prêmio literário oferece condições concretas para que um autor continue escrevendo, ele faz mais do que premiar uma obra: ele amplia o direito à criação.
Recebi o Prêmio CEPE exatamente dessa forma. Como reconhecimento, mas também como possibilidade. Como um gesto de confiança em um livro já escrito e, ao mesmo tempo, um incentivo para todos os livros que ainda estão por vir.
Trecho do livro:
Mas sabe o que eu acho estranho? Todo mundo fala que o homem é forte, mas quem tá segurando a barra aqui em casa é a mamãe. A vovó também é assim. Ela cuida do vovô, que nem lembra mais quem ela é, porque a doença apagou tudo na cabeça dele.(...) Sei lá, não parece que o homem é tão forte assim, se a gente parar pra pensar. E hoje Tuka me mostrou aquelas imagens, Deus. Das crianças lá no Oriente Médio. Crianças como eu, como meu irmão, como as meninas do meu bairro. Mas elas... Elas estavam mortas. Explodidas. Por quê? Por que o Senhor deixa isso acontecer? Tuka disse que é por causa de religião. Que cada lado acha que tá certo, que o Senhor prometeu aquele lugar pra eles. Mas, Deus, isso faz sentido? Prometer um lugar e depois deixar as pessoas se matarem por ele? Por que você não dá um jeito nisso?
(páginas 50 e 51)
"A menina que não queria ver Deus" é o oitavo livro ilustrado por Elisa Carareto e o primeiro pela Cepe. Antes, ela assinou obras como Enquanto não me lembro (2024), Maremoto (2020) e A avó amarela (2018), escritos por Gabriela Romeu, Flávia Reis e Júlia Medeiros, respectivamente, e publicadas pela ÔZé Editora. A Avó amarela rendeu, em 2019, o Prêmio Jabuti de livro infantil, enquanto Maremoto, em 2021, Prêmio FNLIJ na categoria melhor ilustração. Com estes dois livros, ela conquistou vaga para a Bienal da Ilustração em Bratislava (Eslováquia). No ano passado, uma de suas ilustrações de Enquanto não me lembro ficou entre as vencedoras da 59ª Exposição de Ilustradores da Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália).
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| Lisa Alves | Divulgação |
Serviço:
Lançamento do livro A menina que não queria ver Deus, de Lisa Alves
Quando: 18 de junho de 2023, quinta-feira
Hora: 18 h
Local: Livraria Nobel Araxá, Rua Dom José Gaspar, 267, Centro, Araxá/MG.
Preço do livro: R$ 60,00 (impresso)
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