Ao sabor das horas | crônica de Luiz Henrique Gurgel

 por  Luiz Henrique Gurgel | 


Foto de Jr Korpa na Unsplash

Ao sabor das horas


De duas, uma

Sexo e morte estão sempre à espreita. Ao descer pela rua, manhã de sol, contorno a praça e dou de cara com uma mulher bonita que subia em sentido contrário. Ela parou de repente, contorceu o corpo, fez careta e desviou o rumo. Foi aí que vi, enxotado junto à guia, o corpo de um gato malhado, enorme, bonito, inteiro, sem mácula que explicasse a morte do bichano. Na certa tentara atravessar a rua correndo, antes do carro que subia. Talvez tenha sido um tranco só e lá se foi o terror dos ratos e rolinhas da praça.

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Meio assim de viés

Às vezes, nas escadas do metrô, vejo aquele tanto de gente e lembro - do nada - que cada ser ali é fruto de uma transa. Pensamento óbvio, talvez intrusivo, certamente maroto.

 

Continuo.

 

Esbarro em gente bonita, feia, cheirosa e fedida. Braços macios de moças apressadas; braços suados de homens com olhares devassadores. Quando me assaltam esses pensamentos, me interessam mais as mulheres e seus mistérios. Homens são previsíveis. É a vontade de amar que me paralisa o trabalho e me leva a zanzar, a olhar os rostos, a arquitetura das ruas, o lixo, os pichos, ouvir ruídos, silêncios. Para que tanta perna? Pergunta meu coração. Justo o meu, o de um homem sem profissão vivendo dos favores e da paciência da companheira. 

Em meio à divagação, uma mulher enorme passa atabalhoadamente por mim, apressada em descer no meio de tanta gente. Na escada ao lado, sentido inverso, sobe um sujeito comendo algo fedido e barulhento, tirado e mastigado com ânsia de um saquinho colorido e metalizado. Os sentidos estão sempre aguçados e arrastados para qualquer coisa que resvale neles. E são tantas coisas... Fito a moça morena, de nariz fino e rosto conhecido. Ela resolveu sair do lado oposto ao meu, sem me dirigir um olhar mínimo de curiosidade.

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Embolada

Correria, estava atrasado, bunda bonita à minha frente, de novo na escada rolante. A moça carrega sacolas de plástico e tromba violentamente com outra moça, parada e indecisa diante da próxima escada rolante do caminho.

Um sujeito tocando violino no subterrâneo, quase na boca de uma das saídas do metrô, eu a caminho do Poupatempo para reencontrar minha identidade perdida. (Não era comum ter jovens tocando violino por aí a colher trocados). Pouco antes, na saída das catracas, um segurança foi chamar a atenção de um velho coxo, sentado num banco, cantando e tocando uma gaitinha: “Pára com isso aí, tio!”.

Um moça magra, com seios bem pequenos na blusinha decotada e com uma saia que apertava o quadril, tropeça no paralelepípedo da rua e quase se agarra em mim. Quase.

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Genealogia

Sem nada para fazer e com vontade de fazer nada – ainda irritado com a orelha que coça à toa – fui procurar notícias sobre antepassados na internet. Um divertimento. Descobri que minha tia-bisavó paterna, antes de se casar com um mancebo, teve dois filhos com um padre que, ao que consta, era um grande latinista.

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Enredo

Um conhecido meu sai em viagem de trabalho. Na verdade, soubemos depois, ia se encontrar com a amante. No caminho, quase noite, dá carona a duas jovens, que deixa num ponto qualquer do percurso. Dias depois, elas aparecem mortas, justamente no período em que ele se encontrava com a amante. Alguém viu aquele carro dar carona para as moças. Foi a última vez que foram vistas vivas. Vai preso, o encontro com a amante o salva da acusação e acaba com seu casamento. A amante, assustada, desaparece.

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Autoretrato

Minha careca é lisinha, branca, bem branca, cor de lagartixa. Papai e Mamãe eram primos. A dona Anita – que veio com eles no mesmo navio – sempre dizia isso com cara meio ressabiada. Eu suo bastante, a testa brilha. Mas o que me resta de cabelo, daqui pra baixo, fica bem rock and roll...  Eu acho. A droga é que estão sempre espetados. Sou o Judas Triste! Não me olho no espelho. Nem gosto de olhar pra mim mesmo. Essa sobrancelha grossa...

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En garde!

Cara sempre fechada, toda vez de óculos escuros, não dá para ver sua índole... Digo, sua íris. Pontual como eu, trancamos a porta quase sempre juntos, no mesmo horário. Passa por mim até o elevador como se eu fosse invisível. Entra, se ajeita no canto de sempre, de costas para o espelho e de frente para a porta. Imóvel. Nunca ouvi sua voz. Olho de esguela, nem se mexe. Quase três meses assim. Até tentei ouvir alguma coisa com o copo na parede que divide nossos apartamentos.

Hoje não escapa: “Joga xadrez?”. Virou o pescoço devagar e mais lento ainda foi abrindo um sorriso largo até dizer repentino: “xeque!”



Luiz Henrique Gurgel é jornalista, professor e pesquisador. Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é autor do livro de contos “amores malfadados” (Ed. Primata, 2020) e “Porque era ele, porque era eu e outras quase histórias” (Caravana Editorial, 2023).