Mente hiperativa, oficina de texto | Iaranda Barbosa

por Iaranda Barbosa |

Foto de Katarzyna Zygnerska na Unsplash


Mente hiperativa, oficina de texto

Estava esses dias no dentista e, durante o tratamento, me dei conta do quão eróticas são as orientações dele, ou dela, não importa. Eu, no auge da minha gaiatice, segurava o riso enquanto ouvia “abra um pouco mais”, “ainda não está entrando”, “vou introduzir mais profundo”. Se doer, me avise, eu tiro ou paro”, “tá bom assim?”, “prefere anestesia ou não liga para a dor?”.

Desviei o olhar do dentista. Foquei na densidade ao mesmo tempo rígida e confortável da cadeira, na marca dos equipamentos, no símbolo bordado no jaleco, no teto pintado de marfim, nas próteses em cima da mesa, nas ilustrações de sisos, molares, incisivos e presas, cujos nomes mudaram para números, pois agora se diz: “restauração no 23”, “canal no 42”, “aplicação de resina no 48”. Peraí! 48? Não eram 32 dentes o máximo de dentes em um ser humano? A exceção de Freddie Mercury, com 36. A hiperdontia lhe deu o dom de alcançar notas inalcançáveis para muitos mortais. Mas, excluindo esse raro fenômeno que a natureza nos presenteou em forma de artista, de onde vêm esses 16 dentes a mais na contagem?

Lembrei da conversa entre o dentista e a assistente. O dente no qual ele trabalhava era o 24, “antigo” pré-molar. Na semana anterior, resolvi uma retração gengival no 13, cujo nome para mim seguirá sendo “presa” ou “canino”, pois gosto da sonoridade, do outro lado da boca, também na parte superior. Então, montei uma sequência lógica e concluí que eles iniciam pelo 11 e não pelo 1. Me senti a própria Mileva Marić realizando cálculos, criando fórmulas e teorias. “Vou precisar de uma mais fina, porque a minha é muito grossa”. Era a voz do doutor – doutor!? – pedindo outra broca e me puxando para a lascívia, ao vê-lo sobre mim, semelhante ao papai e mamãe.

O cheiro do látex da luva me fez refletir sobre o fato de os odontologistas não usarem perfume. Estariam conscientes da potencial sensualidade da profissão e evitariam, assim, comentários inconvenientes por parte dos pacientes? Ora, como comentar se estamos com a boca aberta e cheia de equipamentos?

“Preciso de mais algodão. Tá muito molhada”. “Posso continuar ou está doendo?” “Se doer eu paro”. E minhas respostas se resumiam a “uhum” “aham”, “humrum” e outras interjeições similares a gemidos, que me fizeram lembrar do capítulo LV, de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Sim, é verdade, bruxo do Cosme Velho, vivemos em função desse eterno diálogo de Adão e Eva, haja vista o fato de que, findado o procedimento, quando estava na iminência de sair da sala, ouço o dito-cujo me pedir para fazer a avaliação do atendimento através de um link. Imaginei a primeira pergunta: “Foi bom pra você?”.

 


Iaranda Barbosa
é professora, escritora e crítica literária, doutora em teoria da literatura pela UFPE. É autora dos livros Salomé (2020) e Palavras de Silêncio (2022). Organizou e foi curadora das coletâneas: Antologia das Mulheres Pretas (2021),  Artemísias: vozes de libertação (2021) — traduzido para o espanhol —, As várias faces da Perna Cabeluda (2023) e Nativas, mestiças e transoceânicas: o poderio feminino em Abya Yala (2023). Atualmente, é professora adjunta da Universidade Estadual da Paraíba e está com o livro Ponto de Luz em pré-venda.