por Valdocir Trevisan |
Arte da não-tristeza
Imagine você nos seus momentos funestos, tristes, e descobre que um curador de tristezas tem um consultório na praça central da cidade.
Dizem que suas palavras circulam no ar, curando os entes de almas entristecidas.
Uauuuu!
É para lá que eu vou…
O cara é Antifonte, filósofo da turma de Sócrates que, ao contrário do que o nome sugere, promete fontes serenas.
E se “a amizade sincera é um santo remédio” (Renato Teixeira), Antifonte vai além: “amigos novos são essenciais, mas os antigos ainda mais essenciais”.
Que bela fonte. Amizade. Cooperação.
No entanto, somos massacrados pela competição, dizem que ela é o caminho e para progredir na vida somente superando o outro.
Não percebem que tal ideologia destrói a amizade e o espírito cooperativo.
Socorro… Oh, seu moço da fonte…
Ora, não posso crescer sem derrubar o outro? Que dogma é esse?
Paulo Honório, personagem de São Bernardo de Graciliano Ramos, passou toda sua vida atropelando quem tinha à frente e seu final foi melancólico, sem esposa, família, amigos…
Bebeu na fonte errada.
Quando foi procurar Antifonte, este já tinha ido para outras praças.
Quer derrubar o outro?
Derrube em diálogos com fontes seguras e seu bem-estar.
Nunca esqueci uma frase de um livro de J.M.Simmel (devorava seus livros nas décadas de 1980, 1990 e preciso dar uma “revisada”), onde sobreviventes viviam em ruínas em um mundo pós-guerra: “os homens sempre procuram a felicidade e não entendem a diferença entre prazer e felicidade”.
Simmel falava de um rico que perdera tudo na guerra, mas como “Ainda Resta uma Esperança” (nome do livro), na sua solidão percebeu que felicidade é um conceito, e prazer outro…
Reviu referenciais com outras fontes.
Ralph Wando Emerson diz que somos únicos: “na esquina da rua, lemos a possibilidade de cada passageiro estampada no ângulo do rosto, na tez, no fundo dos olhos”
Que frase!
Ora, “só eu sei as esquinas que passei"
Nos rios da vida e da morte, cada um nada… com nada… ou tudo…
As possibilidades estão ofertadas, diz Emerson.
E se para os vivos três anos é muito tempo, para os mortos o tempo é indiferente.
As fontes têm o “anti” e o…depois…
Ah, sim, falava de Antifonte, aquele da praça… que tinha a arte de não-tristeza…
Promete caminhos iluminados como a casa de um amigo.
Cada sala, quarto, cozinha, tem sensores e conforme sua trajetória as luzes vão se acendendo como um caminho das luzinhas…
O caminho das luzes.
Nem os iluministas imaginariam uma casa repleta de conceitos brilhantes.
É, são várias possibilidades para assegurar uma arte da não-tristeza
Valdocir Trevisan é gaúcho, gremista e jornalista. Autor do livro de crônicas Violências Culturais (Editora Memorabilia, 2022)


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