Arte da não-tristeza | Valdocir Trevisan

por Valdocir Trevisan |


Foto de Jr Korpa na Unsplash

Arte da não-tristeza


Imagine você nos seus momentos funestos, tristes, e descobre que um curador de tristezas tem um consultório na praça central da cidade.

Dizem que suas palavras circulam no ar, curando os entes de almas entristecidas.

Uauuuu! 

É para lá que eu vou…

O cara é Antifonte, filósofo da turma de Sócrates que, ao contrário do que o nome sugere, promete fontes serenas.

E se “a amizade sincera é um santo remédio” (Renato Teixeira), Antifonte vai além: “amigos novos são essenciais, mas os antigos ainda mais essenciais”.

Que bela fonte.  Amizade. Cooperação.

No entanto, somos massacrados pela competição, dizem que ela é o caminho e para progredir na vida somente superando o outro.

Não percebem que tal ideologia destrói a amizade e o espírito cooperativo.

Socorro… Oh, seu moço da fonte…

Ora, não posso crescer sem derrubar o outro? Que dogma é esse?

Paulo Honório, personagem de São Bernardo de Graciliano Ramos, passou toda sua vida atropelando quem tinha à  frente e seu final foi melancólico, sem esposa, família, amigos…

Bebeu na fonte errada.

Quando foi procurar Antifonte, este já tinha ido para outras praças.

Quer derrubar o outro?    

Derrube em diálogos com fontes seguras e seu bem-estar.

Nunca esqueci uma frase  de um livro de J.M.Simmel (devorava seus livros nas décadas de 1980, 1990 e preciso dar uma “revisada”), onde sobreviventes viviam em ruínas em um mundo pós-guerra: “os homens sempre procuram a felicidade e não entendem a diferença entre prazer e felicidade”.

Simmel falava de um rico que perdera tudo na guerra, mas como “Ainda Resta uma Esperança” (nome do livro), na sua solidão percebeu que felicidade é um conceito, e prazer outro…

Reviu referenciais com outras fontes.

Ralph Wando Emerson diz que somos únicos: “na esquina da rua, lemos a possibilidade de cada passageiro estampada no ângulo do rosto, na tez, no fundo dos olhos”

Que frase!

Ora, “só eu sei as esquinas que passei"

Nos rios da vida e da morte, cada um nada… com nada… ou tudo…

As possibilidades estão ofertadas, diz Emerson.

E se para os vivos três anos é muito tempo, para os mortos o tempo é indiferente.

As fontes têm o “anti” e o…depois…

Ah, sim, falava de Antifonte, aquele da praça… que tinha a arte de não-tristeza…

Promete caminhos iluminados como a casa de um amigo.

Cada sala, quarto, cozinha, tem sensores e conforme sua trajetória as luzes vão se acendendo como um caminho das luzinhas…

O caminho das luzes.

Nem os iluministas imaginariam uma casa repleta de conceitos brilhantes.

É, são várias possibilidades para assegurar uma arte da não-tristeza



Valdocir Trevisan é gaúcho, gremista e jornalista. Autor do livro de crônicas Violências Culturais (Editora Memorabilia, 2022)