Trechos do livro Zuca, de Fernanda Hamman


Trechos do livro "Zuca", de Fernanda Hamman

Trecho das págs. 70 a 71


Coloquei as compras na bancada da cozinha, enquanto o Wagner organizava as três lixeiras que comprou ontem. Uma para embalagens de plástico, metal e esferovite, outra para papel, outra para o lixo orgânico ou indeterminado. E as garrafas de vidro?, perguntei. Ele também não sabia o que fazer com elas. Fomos obrigados a investigar no Google, mais uma vez, como realizar uma tarefa que para os lisboetas é corriqueira, mas para nós é uma interrogação. Como pagar uma conta? Como pagar impostos? Como enviar um objeto pelo correio? Como votar? Como vacinar um filho? Como ler os numerozinhos do marcador de água ou de gás, para informar à empresa o consumo mensal? Como lavar a roupa que não pode ir à máquina, nos apartamentos sem tanque, como o nosso? Onde cortar o cabelo? Onde comprar um guarda-chuva, um cabide, uma pinça, um abridor de latas abre-latas? Para onde correr, no caso de uma emergência médica? Onde fica uma farmácia, um dentista, um posto de saúde centro de saúde, uma loja de ferramentas, uma loja de sapatos, uma loja de calcinhas e sutiãs cuecas e soutiens, um motel? Existe motel? Como fazer sexo fora de casa? Como chamar a polícia, o bombeiro, o encanador canalizador, o eletricista? Como pedir socorro? Cresce, a cada dia, a minha admiração pelos imigrantes que se arriscavam em culturas diferentes antes da invenção da internet. As garrafas de vidro, de acordo com o Google, devem ser descartadas em pontos de coleta recolha, distribuídos pelas esquinas das freguesias. E um mapa indicou a localização do ponto mais próximo de nós.


Trecho das págs. 80 a 81


Na companhia da Dandara, voltei ao Padrão dos Descobrimentos, onde encontramos um grupo de turistas chineses. Ela vestia uma roupa decotada, um top e uma saia de couro, bem diferente do uniforme de ama que usava quando nos conhecemos na casa da Bianca e do César. Nas bochechas, trazia marcas tribais de escarificação, como se viesse de uma aldeia remota no interior da savana africana. Dandara me ofereceu um gole de Sagres, depois virou a latinha até acabar a cerveja. O guia da excursão explicava aos chineses que ninguém sabe se a Escola de Sagres realmente existiu, mas a História é sempre uma colcha de retalhos tortos e mal costurados passajados. Os turistas tiravam fotos do monumento com flash, apesar da claridade do dia. E as esculturas dos conquistadores começaram a mover os braços, protegendo os olhos da luz artificial. Dandara transformou a lata de Sagres numa lata de tinta spray. Pichou em vermelho, na base do monumento: Não foi descobrimento, foi invasão. Nas águas do Tejo, apareceu uma esquadra de canoas indígenas, de onde partiam flechas na direção das estátuas. Uma flecha acertou a cara do Infante Dom Henrique, o primeiro na fila dos descobridores, que largou a caravela que segurava numa mão, o mapa que segurava na outra, soltou um urro de dor e arrancou a seta do meio da testa, revelando um buraco fundo na sua pele de calcário branco. Outra flecha atingiu o ombro do guia turístico. A gritaria se espalhou entre os chineses, correram todos por cima do mapa-múndi e da rosa-dos-ventos desenhados ao chão, entre sereias e monstros marinhos. Uma terceira flecha alcançou o pescoço do Vasco da Gama, uma quarta arrancou a orelha do Pedro Álvares Cabral, e o ataque não poupou o Camões, ferido de morte no abdômen abdómen. Dandara correu na minha direção, com duas sacolas de couro dois sacos de pele sobre os ombros. Nesse momento, reparei que eu mesma vestia um top e uma saia de pele, uma roupa tribal igual à dela. Passei a ponta dos dedos no rosto, senti a textura das escarificações nas minhas bochechas. Ela me entregou um dos sacos, com um arco e um punhado de flechas. E me chamou: Vem Anda, Bárbara, está na hora do contra-ataque.




Compre o livro: clica aqui



Fernanda Hamman é escritora e psicanalista, com pós-doutorado em Teoria Literária pela USP. Publicou mais de dez livros, entre romances, contos, ensaios e biografias, e recebeu diversos prêmios, dentro e fora do Brasil. Desde 2024, é colunista do jornal português Público. Em 2025, lançou “Zuca” (184 págs.) pela Editora Urutau, romance premiado na Europa; e em 2026, seu romance “Cativos” foi traduzido para o francês e lançado no Salão do Livro de Genebra.