por Taciana Oliveira |
Selo Gerânia reúne novas vozes da literatura escrita por mulheres
Selo Gerânia reúne novas vozes da literatura escrita por mulheres
Com a proposta de ampliar a visibilidade de escritoras estreantes, a Editora Jandaíra lança o Selo Gerânia, projeto editorial dedicado à publicação de novas vozes da literatura brasileira escrita por mulheres. Sob o lema “Literatura de mulheres em todos os sotaques”, o projeto nasce com o objetivo de reunir diferentes experiências, origens e perspectivas, fortalecendo a presença de novas escritoras no cenário editorial brasileiro. A criação do selo é resultado de um processo de amadurecimento editorial, explica a jornalista, tradutora e editora Lizandra Magon de Almeida, que atua no mercado do livro há mais de duas décadas. Após consolidar um catálogo marcado pela diversidade e pela publicação de autoras, ela decidiu criar um projeto voltado especialmente para escritoras que começam a construir suas trajetórias literárias.
“O Selo Gerânia aposta em novas autoras e em projetos muito atuais, que dialogam com os desafios que mais afetam as mulheres de hoje”, afirma Lizandra. A proposta é reunir obras capazes de provocar reflexão, identificação e diálogo com leitoras de diferentes gerações e contextos sociais.
Os dois primeiros títulos sintetizam essa vocação. Em “Dona de divinas tetas”, a escritora paraibana radicada no Rio de Janeiro, Vanusa Maria de Melo, apresenta uma coletânea de contos que utiliza o corpo feminino enquanto ponto de partida para discutir maternidade, sexualidade, relacionamentos, machismo e construção da identidade. Com humor afiado e olhar crítico, a autora transforma experiências cotidianas em narrativas que expõem contradições, dores e descobertas de diferentes fases da vida feminina.
Já o romance “A última mordida”, de Mayra Beatriz Bertazzoni, acompanha uma professora que viaja sozinha para o litoral após o fim de um relacionamento. A partir dessa experiência, a autora cria uma narrativa que aborda amor, perda, desejo, autoestima e os desafios dos vínculos na atualidade. Em uma escrita marcada pela ironia e pela observação cuidadosa das relações humanas, o livro acompanha uma personagem em processo de reinvenção pessoal.
A publicação da obra também carrega um significado especial. Mayra faleceu aos 36 anos, pouco depois da assinatura do contrato com a editora. A decisão da família de manter a publicação transformou o lançamento em uma homenagem à autora e à força de sua escrita.
Para Lizandra Magon, a diversidade de sotaques presente no lema do selo não se refere apenas às diferentes regiões do país, mas também às múltiplas formas de narrar e compreender a experiência feminina contemporânea. Distante de modelos literários rígidos ou canônicos, o Gerânia procura publicar obras que dialoguem com as inquietações do presente, sem abrir mão da liberdade criativa e da pluralidade de vozes. Com previsão de novos lançamentos ainda este ano, o selo surge como uma aposta na renovação da literatura brasileira escrita por mulheres e na ampliação do espaço destinado a autoras estreantes. Além de criar um catálogo, a iniciativa pretende fomentar debates sobre relacionamentos, ética, autonomia e os desafios da vida contemporânea a partir de narrativas que nascem da experiência, da imaginação e da observação do mundo.
Na entrevista abaixo, Lizandra Magon de Almeida fala sobre a criação do Selo Gerânia, os critérios que orientaram a escolha das obras inaugurais, os desafios enfrentados por escritoras iniciantes e as expectativas para o futuro de um projeto que busca fazer da literatura um espaço de descoberta, diálogo e transformação.
1. A Editora Jandaíra já possui uma trajetória marcada pela publicação de autoras. Em que momento surgiu a necessidade de criar um selo específico para os primeiros livros de mulheres escritoras?
Acho que faz parte da minha maturidade como editora. No início da editora, apesar de escrever poesia e de ter trabalhado em uma grande editora, tinha um foco mais na não ficção, por minha formação em jornalismo. Levou um tempo até que eu me sentisse capaz, fiz algumas parcerias, publiquei originais incríveis, ganhamos prêmios. E isso continua. Mas também achei necessário pensar em um projeto editorial mais focado em um público de leitoras e autoras que estão começando a se aventurar nas discussões sobre as mulheridades contemporâneas.
2. O lema do Gerânia é “Literatura de mulheres em todos os sotaques”. O que essa ideia de múltiplos sotaques representa para a linha editorial do selo e para a diversidade de vozes que vocês desejam publicar?
Os sotaques têm a ver com a forma da literatura que quero publicar. Os cânones nunca me interessaram, os clássicos estão aí para serem lidos e gerarem novas ideias, não para serem reciclados. Penso que esses sotaques também podem ser latino-americanos, porque é uma literatura instigante e rica, adoro. A diversidade e a representatividade sempre estiveram no centro do catálogo da editora, então os sotaques também têm a ver com isso, sem dúvida.
3. O mercado editorial brasileiro ainda apresenta desafios para escritoras estreantes. Quais lacunas o Selo Gerânia pretende preencher e de que forma pretende ampliar a visibilidade dessas novas autoras?
O Selo foi pensado de modo a oferecer um modelo de remuneração com foco no lançamento, mas que olha para uma continuidade no tempo. É muito difícil vender livro de estreantes no Brasil, mas depois de 12 anos à frente da editora, acho que precisamos alinhar melhor as expectativas em relação ao mercado de hoje, que é muito diferente de antes da pandemia. Estamos também criando uma comunicação especial para o Selo, buscando porta-vozes afinadas com essas discussões que os livros trazem, para além da literatura em si, e vamos colocar toda a estrutura de distribuição que já temos a serviço dessas autoras.
4. Os dois primeiros títulos abordam temas bastante distintos, mas ambos dialogam com experiências femininas contemporâneas. Quais critérios orientaram a escolha das obras inaugurais do selo?
O livro de contos, "Dona de divinas tetas", já estava no nosso radar, já era um livro que tinha sido enviado há um tempo e eu vinha conversando com a autora, nos tornamos amigas. Quando tive a ideia do Selo, achei que esse título que eu já tinha contratado era perfeito para abrir a conversa, porque tem tudo que enxergo no Selo: um texto bem construído, mas despretensioso, atual, com irreverência e afeto, com provocações e questionamentos, sem didatismo ou lição de moral. E a própria autora Vanusa Maria de Mello me apresentou para a Mayra Bertazzoni, no início deste ano. Ela leu o romance e adorou, me mandou, eu adorei também e aí a ideia do Selo ficou mais coesa. Falei com a Mayra, conversamos sobre o livro, contei sobre o Selo, nos demos bem na mesma hora. Aí tive uma emergência médica, fui internada para uma cirurgia de apendicite. A Mayra tinha feito um exame uns dias antes, e teve intercorrências, precisou ser internada em estado grave. Quando saí do hospital, soube que ela tinha falecido. Foi um choque. Ela só tinha 36 anos! Foi realmente uma fatalidade horrível. Aí a irmã dela, Evelyn, me procurou e disse que a família gostaria que a publicação continuasse, que era um sonho que precisava ser realizado, que ela estava muito feliz com a perspectiva da publicação. Fiquei muito aliviada, porque era exatamente isso o que eu queria ouvir. Então saímos de cara com esses dois livros, e já temos mais dois para o segundo semestre. Vou dar um spoiler: um deles é um romance de minha autoria. E outro é um livro de contos muito forte, de uma autora estreante negra que é de São Paulo e hoje vive em Salvador.
5. Além de publicar novos livros, que impacto cultural e literário vocês esperam que o Selo Gerânia tenha nos próximos anos para a produção literária escrita por mulheres no Brasil?
Acho que eu soaria muito pretensiosa se dissesse que nosso Selo tem condições de impactar a produção literária de mulheres no Brasil, mas o que eu espero é conseguir publicar mais livros que sejam lidos e discutidos, que ajudem a ampliar a leitura de mulheres e a provocar discussões que não podem ser adiadas, sobre relacionamentos, ética, de um jeito que não precisa ser canônico nem rígido. Só mulheres de hoje sendo mulheres de hoje, autoras e leitoras, com todos os questionamentos e alegrias que a gente tem nessa vida louca e linda.
Lizandra Magon de Almeida é jornalista, tradutora e diretora editorial da Editora Jandaíra e da Colmeia Edições. Atua no mercado editorial desde 2000. É formada em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com pós-graduação em Gestão do Conhecimento e da Inovação pelo SENAC-SP. Presidenta da Liga Brasileira de Editoras (LIBRE) e Conselheira do PMLLLB SP.
“Dona de divinas tetas” transforma o corpo feminino em plano de existência, desejo e resistência
“Dona de divinas tetas” transforma o corpo feminino em plano de existência, desejo e resistência
No seu livro de estreia, Vanusa Maria de Melo reúne contos que investigam as múltiplas experiências de ser mulher em uma sociedade permeada por desigualdades, violências e afetos contraditórios. Em “Dona de divinas tetas”, publicado pelo Selo Gerânia, da Editora Jandaíra, o corpo feminino deixa de ser apenas presença física para se tornar espaço simbólico onde se acumulam lembranças, traumas, descobertas, erotismo, maternidade e autonomia.
A autora desenha personagens que vagueiam entre infância, juventude e maturidade, revelando experiências marcadas por relações familiares complexas, precariedade social, racismo, sexualidade e sobrevivência. Os contos conversam entre si ao explorar situações aparentemente cotidianas que expõem estruturas de opressão e pertencimento.
Nos textos “Cachorro” e “17 anos e saí de casa”*, a narrativa mergulha em memórias de infância e adolescência atravessadas pela violência simbólica e física, mas evita transformar suas personagens em vítimas passivas. Pelo contrário, são mulheres que aprendem a negociar suas dores, elaborar suas perdas e reivindicar a própria voz. O humor é estratégia de sobrevivência diante de situações difíceis, impedindo que a obra se acomode em um registro excessivamente dramático. Ao mesmo tempo, a escrita de Vanusa Maria de Melo preserva o impacto emocional das experiências narradas, revelando personagens contraditórias, vulneráveis e profundamente humanas. Entre lembranças, encontros, separações e reconstruções, a obra apresenta uma linguagem narrativa que se interessa menos por respostas definitivas do que pelas marcas que o tempo deixa nos corpos e nas relações. É um livro que fala sobre mulheres reais, suas fragilidades e suas formas de resistência, sem idealizações nem fórmulas de superação.
Vanusa Maria de Melo nasceu no sertão da Paraíba em 1972 e, ainda criança migrou para o Rio de Janeiro, crescendo em São João de Meriti. Foi nessa infância marcada pelo trabalho na máquina de costura que ela também aprendeu, com a avó — sua "mãe Ana" —, os encantos dos romances trágicos orais. Graduada em Letras pela UERJ, tornou-se ativista de direitos humanos e doutora em educação, com pesquisas voltadas para experiências literárias na prisão. É pelo projeto Escrevivendo a Liberdade que desenvolve suas atividades com literatura no cárcere e na socioeducação.
“A última mordida” transforma o fim de um relacionamento em reflexão sobre liberdade e autoconhecimento
Em “A última mordida”, romance de Mayra Beatriz Bertazzoni, publicado pelo Selo Gerânia, uma viagem ao litoral paulista torna-se o cenário para uma travessia interior sobre o fim do amor, os limites da solidão e os caminhos possíveis para a reconstrução emocional. A protagonista, Joana, é professora da rede básica e decide passar um fim de semana sozinha no Guarujá logo após o desmoronamento de seu casamento. O que poderia ser apenas uma fuga temporária transforma-se em uma incursão nas inseguranças, obsessões e contradições que acompanham qualquer processo de ruptura afetiva.
Com uma narrativa em primeira pessoa impulsionada por ironia e honestidade emocional, Mayra acompanha os pensamentos de uma mulher que alterna momentos de autocomiseração, lucidez, desejo, raiva e esperança. A autora observa com precisão os mecanismos atuais do sofrimento amoroso: a ansiedade pelas mensagens não respondidas, a vigilância das redes sociais, a comparação constante com a nova parceira do ex-companheiro e a dificuldade de aceitar o fim de uma história. Ao longo da estadia, Joana também se confronta com questões ligadas à bissexualidade, à autoestima e às expectativas impostas às mulheres. Sem recorrer a discursos didáticos, o romance aborda temas como gordofobia, feminismo e diversidade sexual a partir da experiência concreta da personagem, revelando suas ambiguidades e vulnerabilidades.
A força da obra reside justamente em sua recusa a oferecer respostas prontas. Ao invés de narrar uma trajetória linear de cura, a narrativa acompanha o processo irregular e muitas vezes desconfortável de alguém que aprende a permanecer consigo mesma após uma perda. Entre encontros inesperados, memórias da infância e descobertas afetivas, Joana percebe que talvez a solidão não seja um fracasso, mas uma condição necessária para reconstruir a própria identidade.
Com linguagem ágil, observação afiada e personagens reconhecíveis, o romance transforma um fim de semana aparentemente comum em uma reflexão sobre amor, liberdade, desejo e reinvenção. Uma escrita que encontra grande força justamente naquilo que tem de mais humano: suas dúvidas, imperfeições e recomeços.
Mayra Beatriz Bertazzoni sonhava em ser escritora. Nascida em Piracicaba em 16 de março de 1989, graduou-se em Letras e atuava em São Paulo como professora de literatura, dramaturga e atriz. Foi como trabalho de conclusão da pós-graduação em Escrita Literária do Instituto Vera Cruz que criou “A última mordida”. Em janeiro de 2026, logo após a contratação do livro para o Selo Gerânia, Mayra teve uma intercorrência médica e faleceu. Mas editora e família fizeram questão de materializar este sonho.
SERVIÇO
“Dona de divinas tetas”, de Vanusa Maria de Melo
“A última mordida”, de Mayra Beatriz Bertazzoni
Dia 27 de junho, às 15h
Mercadinho Simples
Rua Rocha, 416 – Bela Vista — São Paulo
Dia 3 de julho, às 19h
Livraria Belle Époque
Rua Soares, 50 – Loja A – Méier – Rio de Janeiro
*Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.
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