por Adriane Garcia
“Matei dentro de mim um bicho”, de Lívia Cristina LC
Em Inibição, sintoma e angústia, Freud ensina que a angústia é o resultado de um conflito psíquico que conta com a incompletude e a confrontação com o desejo. A angústia é um afeto de resposta do eu a uma situação de perigo e perda, que pode envolver traumas e fantasias do inconsciente, portanto, um afeto defensivo do ego ameaçado. Enquanto o medo tem um objeto definido, a angústia, por outro lado, carece da definição de objeto. Mais tarde, Lacan, para quem “a angústia é o único afeto que não engana”, no seu O seminário, livro 10: A angústia, ensina que ela é um afeto não só da falta, mas do excesso de presença do desejo do Outro. A falta atual leva à falta inaugural do sujeito, constitutiva, irresolvível. O exercício psicanalítico propõe que o sujeito suporte a angústia, escutando e elaborando esse afeto, partindo para a simbolização do conflito psíquico e dos elementos que o compõem, mas ao mesmo tempo se dando conta da impossibilidade de simbolizar o inapreensível da angústia ou de obter a satisfação plena do desejo, já que falta e angústia são estruturais. Eis o bicho.
Em Matei dentro de mim um bicho, da poeta Lívia Cristina LC, uma das chaves de leitura que pode nos guiar é a da angústia. Há um medo não da perda, que já se realizou, mas do que se perderá na perda. Não é à toa, que o título diz de “um bicho”, com esse artigo indefinido (um) e a generalização do objeto (bicho), pois sendo o medo definido, a angústia não é: “mas me preocupa que ainda o ouço/ sei que lateja um pulso tímido/ ao longe, até hoje, no fundo/ respira e insiste o bicho”. A poesia (talvez o melhor fosse dizer a feitura do poema) também acontece na proximidade do exercício psicanalítico de escutar e suportar a angústia, tentando redimensionar o desejo de si ante o desejo do Outro. O título Matei dentro de mim um bicho nos encaminha para o modo com que essa morte foi realizada: escrevendo. Nesse sentido, escrever é um exercício de libertação e em um dos versos, a persona-lírica pergunta: “escrever é uma cura?”
Estamos diante de poemas em que a angústia pode se disfarçar de muitos nomes-causa, havendo algo de solidão, algo que é perene: “não tinha com quem concorrer/ a não ser comigo mesma// como em tudo, como na vida” e cuja elaboração só depende do sujeito. O livro possui cinco seções que vão crescendo, alcançam um clímax e terminam em um anticlímax: “Sobre a dor”, “Sobre a dor de amor”, “Sobre o amor”, “Sobre o indizível”, “Sobre o ordinário”. Há poemas que podem ser lidos tanto em uma chave existencial quanto metalinguística: “sou um midas torto/ não do ouro mas da brasa:/ tudo que toco ateio// sou ainda medusa escusa/ não da pedra mas da asa:/ tudo que enxergo escapa”. Aqui, entrando nas questões de forma, é notável como a poeta usa a equivalência entre os versos e seus elementos para apontar aquilo que iguala e difere: Midas e Medusa, ouro e pedra, torto e escusa, brasa e asa, ateio e escapa.
A poeta sabe jogar (e a montagem de um poema é uma espécie de jogo com as palavras) um frescor, algo doloroso, mas brincante; um humor delicado, discreto, porém presente; a rima para Lívia Cristina LC é um projeto, descrito nos versos: “quero dar vida nova à rima/ tirar-lhe a poeira de cima” ou em : “lavar a rima onde hoje é viscosa/ banhar de luz suas encostas”. Apesar de a persona-lírica declarar que escreve “sobre flores e outras rimas pobres”, usa pouquíssimo dessas rimas, o uso que mais faz em todo o livro é de rimas imperfeitas e ricas, de forma irregular, tornando-as dissimuladas no texto. Em “leva de mim o que dói/ deixa só o que é leve// toma do que em mim é sede/ e bebe”, a poeta usa três classes gramaticais diferentes para rimar de forma toante, sem contar a familiaridade fonética aliterada de “leva” e “leve”, de “dói” e “deixa”; é raro o uso de rimas consoantes. Em estrofes muito bem-feitas, dando um exemplo, a poeta usa estrategicamente uma simetria verbal (e tônica) com palavras dissílabas (todos os finais dos versos) para embalar o ritmo: “tento fugir e não tenho pernas/ me esconder e não vejo portas/ respirar e me faltam foles/ retornar mas não sei ler mapas”
Sobre as figuras de linguagem, há uso abundante de metáforas, analogias, hipérbatos (o próprio título é um), aliteração, gradação, o que torna Matei dentro de mim um bicho um livro rico. A poeta usa de neologismos por aglutinação: “ferindo o papel como um lápis bruto/ e na mesma hora aparrasgado”, “anda corcunvada corcoventa” e mesmo trocadilhos que levam a leitora/o leitor a inusitadas imagens: “me quebra a ponte do nariz em direção ao chão”. Lívia Cristina LC inverte sentidos, brincando com expressões: “era ilusão sua ou minha ótica?”. Com a economia da exatidão, seus versos não desperdiçam nada: “me encolho numa toca-cova/ me acolho numa qualquer falha/ bem ali onde sou fraca e existe o medo”.
Tematicamente, a angústia é o sentimento de atmosfera, que perpassa várias situações. A escrita cria o espaço para a confissão do que se é, não daquilo que se tenta performar, mas da denúncia da performance, que age como tamponamento da verdade interior, bicho lava, vulcão. A presença da frustração é recorrente, se no poema de abertura do livro a persona-lírica se declara um “midas torto”, na página 27, outro poema diz “mas tudo que toco se entoca/ e o que teço, entristeço”. Há uma consciência da descartabilidade e isso também angustia. Algumas palavras aparecem com mais insistência: sumidouro, vulcão, lava, poro, cerne (no cerne, a falta inaugural e a linguagem), a água em suas vertentes rio, mar, sede. As personas-líricas de Lívia Cristina LC sentem tristeza, dor, transbordamento, inadequação, medo, amor, libertação e a ansiedade gerada pela presença do segredo. A condição de ser mulher em uma sociedade violenta se faz notada, o que, obviamente, é um gerador não só de angústia, mas de medo. E se a condição feminina gera insegurança, maior ela fica na condição de mulher poeta: “pobre humana, que não sabe caçar/ mais dó teriam se soubessem/ que meu ganha-pão é arte”. A persona lírica tece uma crítica ao papel da artista na sociedade e a sua própria falta de habilidade para caçar (com meios mais efetivos) em um sistema econômico capitalista. Ao final do livro, no último poema, ela conclama os dissidentes, os perdedores neste sistema, para dançar sua rima de aflição.
A
poesia do ordinário acontece quando traz o extraordinário: o olhar poético. É
ele que pinça o aparentemente banal. Um poema não é necessariamente um artefato
poético, pode ser apenas um artefato poemático (ou nem poema seria). O poema
poético acontece quando, e aqui temos o caso de Lívia Cristina LC, o
olhar existe e consegue trazer algo do voo instantâneo na poesia (tão
inapreensível quanto a angústia) para a fixidez de um artefato poemático. É
quando aquilo que se tem a dizer é do reino da poesia e a forma com que se diz
é do reino do poema. Exige olhar e exige trabalho artesanal sobre as palavras.
Com a matéria-prima da angústia, Matei dentro de mim um bicho traz poemas
com poesia.
caraíva
deitada na areia
fria de sereno
atenta ao movimento
alheia ao tempo
em meio às estrelas que caem
contei e vi: três
ensino para ela os caminhos
de quem tem boca e muitas vezes foi a roma
mostro os atalhos, treino as carícias
traço à minúcia o mapa
da minha obsolescência
apesar da miopia corrigida
levo às vezes as mãos ao rosto
pra ajeitar os ausentes óculos
é assim que sinto sua falta:
distraída, automática
e levo as mãos aos restos
***
Matei dentro de mim um bicho
Lívia
Cristina LC
Poesia
Ed.
Polifonia
2025
Lívia Cristina LC nasceu em Belo Horizonte, em 1989, e atua como fotógrafa, artista visual, poeta e tradutora. Formada em Letras e mestre em Poéticas da Tradução pela UFMG, lançou em 2024 seu livro de estreia, Fósforo Branco, pela Editora Crivo. Dedica-se à fotografia desde 2009, com foco em imagens analógicas em preto e branco, e desenvolve também uma produção em pintura, principalmente em óleo sobre tela. Sua obra transita entre literatura e artes visuais, combinando forte dimensão imagética, simbolismo e narratividade
Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você (Editora Peirópolis) e A Bandeja de Salomé ( Caos e Letras, 2023)



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