por Carlos Monteiro |
Fotos de Carlos Monteiro
Mexa-se no Rio de Janeiro
O Rio de
Janeiro acorda cedo, embora tenha fama de boêmio. Antes que os bares recolham
as últimas cadeiras e que o primeiro ônibus carregue a pressa da cidade, já
existe uma multidão silenciosa em movimento. São os que descobriram que o Rio
não é apenas uma cidade para ser vista: é uma cidade para ser percorrida.
Na areia
de Copacabana, quando o céu ainda está indeciso entre a noite e a manhã,
aparecem os primeiros corredores. Vêm de todos os lados, com seus tênis
coloridos, fones de ouvido e aquela expressão séria de quem parece disputar uma
maratona invisível. Correm contra o sedentarismo, contra o colesterol, contra a
saudade de um corpo que já foi mais leve. Mas correm também porque o mar está
ali, chamando.
O oceano,
de manhã, tem uma paciência de professor antigo. As ondas chegam, quebram,
voltam. Repetem o mesmo exercício há milhões de anos, sem reclamar do calor, do
vento ou da falta de motivação. Talvez seja por isso que tanta gente se anima a
acompanhá-las. Enquanto o corredor passa, a espuma branca desenha uma linha
paralela à sua trajetória, como se a natureza também tivesse resolvido entrar
em forma.
Na
ciclovia, as bicicletas deslizam numa coreografia sem maestro. Há o rapaz que
pedala como se estivesse atrasado para um compromisso com a vida; há a moça que
segue devagar, observando os pescadores; há o casal que divide a mesma
bicicleta e, entre uma curva e outra, parece discutir quem manda no guidão. E
há os aposentados, que pedalam com a tranquilidade de quem já aprendeu que não
é preciso chegar primeiro para chegar bem.
Na Lagoa
Rodrigo de Freitas, o cenário é outro, mas a vontade é a mesma. A água parada
reflete o Cristo Redentor, que observa tudo lá do alto, braços abertos, como se
abençoasse cada caminhada. Ali, o exercício ganha uma espécie de solenidade. O
cidadão dá uma volta na Lagoa e sente que deu uma volta na própria vida. Em
alguns trechos, o vento traz o cheiro das árvores; em outros, o barulho dos
remos corta a água com a delicadeza de uma frase bem escrita.
Há quem
escolha as escadarias de Santa Teresa, onde cada degrau cobra seu preço e
oferece, em troca, uma vista que faz qualquer academia parecer uma sala sem
janela. Há quem suba a trilha da Floresta da Tijuca, respirando fundo entre
árvores que conhecem o Rio muito antes dos prédios, dos túneis e dos
engarrafamentos. Há quem faça alongamento no Aterro do Flamengo, diante da Baía
de Guanabara, onde o Pão de Açúcar surge como uma escultura colocada ali por
algum artista exageradamente inspirado.
O
carioca, quando se mexe, não está apenas cuidando do corpo. Está conversando
com a cidade. Cada passo na areia, cada pedalada na orla, cada braçada no mar é
uma maneira de dizer ao Rio: “Eu estou aqui.” E o Rio responde com o que tem de
melhor: uma montanha recortada contra o céu, um avião pousando sobre a baía,
uma garça parada numa pedra, um sol que parece ter sido inventado especialmente
para aquela manhã.
É curioso
observar como o exercício físico, no Rio, deixa de ser obrigação e vira
espetáculo. Em outras cidades, corre-se olhando para o relógio. Aqui, corre-se
olhando para o horizonte. Em outros lugares, a academia tem espelhos; no Rio, o
espelho é o mar. Em vez de aparelhos, há ladeiras. Em vez de teto, há céu. Em
vez de música eletrônica, há o barulho das ondas e o grito distante de um
vendedor de mate.
Claro que
há dias em que a preguiça vence. Dias em que o travesseiro parece mais
convincente do que qualquer personal trainer. Mas basta abrir a janela e ver a
luz derramada sobre as montanhas para que a cidade faça seu convite silencioso.
O Rio não obriga ninguém a se exercitar. Apenas seduz.
E talvez
seja essa a grande vantagem de viver aqui. Mexer-se no Rio é participar de uma
fotografia em movimento. É correr dentro de uma paisagem que o mundo inteiro
gostaria de pendurar na parede. É perceber que o corpo, quando encontra uma
cidade assim, deixa de ser apenas corpo: vira parte do cenário.
No fim da
manhã, quando o sol já domina a praia e os corredores diminuem o passo, fica no
ar uma sensação de dever cumprido. Não apenas porque se queimaram calorias, mas
porque se viveu um pouco mais perto da cidade. E no Rio de Janeiro, onde a
beleza aparece em cada esquina, mexer-se é quase uma forma de agradecimento
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade
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