| Fotografias de Carlos Monteiro |
Rio, Cidade Ciclística
Saí
cedo, quando o sol ainda ensaiava os primeiros acordes sobre a Baía de
Guanabara. A bicicleta deslizava leve pela ciclovia, e o Rio de Janeiro, antes
de despertar por completo, parecia pertencer apenas aos pássaros, aos
pescadores e aos ciclistas. Há cidades que se observam pela janela; o Rio, não.
O Rio foi feito para ser percorrido. E poucas formas de conhecê-lo são tão
prazerosas quanto pedalando.
A
roda gira e, com ela, a paisagem muda como páginas de um álbum fotográfico. De
um lado, o azul do mar. Do outro, o verde das montanhas. Entre ambos, a fita
vermelha da ciclovia conduzindo homens e mulheres que descobriram um segredo
simples: a felicidade pode ter duas rodas.
Pedalar
na orla é como passear dentro de um cartão-postal em movimento. Em Copacabana,
o calçadão ainda boceja enquanto corredores disputam espaço com ciclistas
silenciosos. Mais adiante, em Ipanema, o sol nasce atrás das ilhas Cagarras e
pinta de dourado os rostos dos que seguem viagem. No Leblon, o Morro Dois
Irmãos parece vigiar a cena como um velho guardião da paisagem carioca.
Mas
o encanto não termina ali. A ciclovia acompanha lagoas, parques e praias.
Contorna a Lagoa Rodrigo de Freitas, onde as águas refletem o Cristo Redentor
como um espelho caprichoso. Segue pela Barra da Tijuca, onde o horizonte parece
não acabar nunca. Em cada curva, uma fotografia pronta; em cada parada, uma
nova descoberta.
O
mais bonito, porém, não está apenas na paisagem. Está nas pessoas. O senhor de
cabelos brancos que pedala com a mesma disposição de um garoto. A família
inteira ocupando a ciclovia numa manhã de domingo. O trabalhador que troca o
engarrafamento pelo vento no rosto. O turista que, surpreso, percebe que a
cidade pode ser contemplada sem a pressa dos automóveis.
A
bicicleta tem essa virtude democrática. Aproxima o cidadão da cidade. Faz com
que ele repare na árvore florida, no pescador paciente, na garça pousada à
beira da lagoa. Devolve ao olhar detalhes que a velocidade costuma roubar.
Enquanto
pedalava, pensei que o Rio possui uma vocação natural para o ciclismo. Poucas
cidades no mundo oferecem um cenário tão generoso. Mar, montanha, lagoa e céu
parecem ter firmado um acordo silencioso para acompanhar quem passa sobre duas
rodas.
Quando
terminei o percurso, já com o sol alto e a cidade completamente acordada,
percebi que a bicicleta havia me dado mais do que exercício. Havia-me oferecido
uma forma diferente de enxergar o Rio. Uma forma mais lenta, mais próxima e
mais humana.
E
então compreendi que, para conhecer verdadeiramente a Cidade Maravilhosa, não
basta olhar suas paisagens. É preciso atravessá-las pedalando, sentindo o vento
no rosto e deixando que cada quilômetro conte uma nova história. Afinal, no
Rio, a beleza não está apenas no destino. Está também no caminho.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade
.png=w352-h352-p-k-no-nu)
Redes Sociais