por Manoel Tavares Rodrigues-Leal |
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| Biblioteca – 1949 – Maria Helena Vieira da Silva |
Seis poemas inéditos do caderno “Ensaio de Ausência” | Manoel T. R.-Leal
Estamos sós com tudo aquilo que amamos.
[Man ist allein mit allem, was man liebt.]
Novalis – trad. Rui Chafes
Seis poemas inéditos *
cinco poemas
I
interrompo o rubro poente da boca,
os pulsos expulsos pelo tempo prenhe.
interiormente, atrai-me a trama estreme do poema.
Lx. 6-9-68
II
o silêncio maior e aceso, a tarde dissidente
dissimulam o tempo possessivo, das paredes nuas transpirado.
ao gesto suspenso prendo o gesto gasto, madrugante.
Lx. 7-9-68
III
imóveis, como imóveis se contraem em êxtase,
as tardes coincidentes, alto hálito de lutas, lugares exemplares,
como imóvel, divaga o domingo e comove.
o rosto, vagabundo, revela vírgulas moribundas.
Lx. 7-9-68
IV
a mágoa desagua, lisa, designa
os signos do café circular, intacta água aguda desta manhã em que fecho a face inscrita.
e há a prosa de nácar de pausas, isentas de sons.
Lx. 11-9-68
V
se recusei a alegria erguida no rosto,
o antigo corpo acossado de irregular luz alegre, se recusei
as cores virtuais e aéreas das coisas, agora reclusas,
ténue ternura se inscreve, diurnos dedos
segregam sagrado desastre, aventuram-se em íngreme madrugada.
Lx. 11-9-68
*
II
(retrato em rotação)
I
transparência
há vinho manso no sonho que se inventou, unhas suaves e isentas.
hastes de tardes invioláveis em visita, soalhos de luz silêncios.
Lx. 21-10-68
II
iluminação
que boca azul se inverteu, sucumbiu na lisa tarde.
sílabas de cal liam-se no rosto, quebrado em cubos de luz.
Lx. – 69
III
dia
metal alimentado pelo alto rosto do dia,
diria a dor? mentiria? para além do dia ausente, meu rosto resistia.
Lx. – 69
IV
visualidade
as coisas (coxas) casam-se,
sob o estilete de luz da tarde utilizada,
sábias se alinham em ângulos, os lábios cessam intactos.
Lx. ____ 15-10-75 – caderno Ensaio de Ausência
*
Manuscrito dos “cinco poemas”
*Poemas coligidos por Luís de Barreiros Tavares
___________________________________________
*1. Apresenta-se inicialmente um conjunto de cinco poemas, constituindo uma estrutura autónoma inserida no caderno Ensaio de Ausência. Daí o título do conjunto: “Cinco poemas”. Este tipo de caligrafia é característico da década de 70 (sobre as múltiplas caligrafias do autor, ver aqui). Pelo que é muito provável que estes poemas tivessem sido transcritos e eventualmente reescritos a partir de uma outra data em que foram criados originalmente
** (1968 – a caligrafia de 68 é diferente desta – ver aqui). A menos que se trate da eventual evocação de uma data marcante, o que é discutível. A maior parte dos poemas deste caderno são finalizados em 1974-75, como o poema aqui apresentado: “Retrato em rotação” (constituído por quatro partes – data final: 15-10-75). Ainda assim, a caligrafia destes poemas está mais de acordo, na sua letra muito miudinha, com a de inícios de 70 (sensivelmente de 70 a 72). Optou-se pela transcrição em letra minúscula (ver aqui). Esta publicação é ilustrada com uma pintura de Vieira da Silva, artista que o poeta muito estimava.
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Era primo de Francisco Sousa Tavares, marido de Sophia de Mello Breyner Andresen. Conheceu e conviveu com Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.

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