por Pedro Matos |
Augustinos
Moscas sobrevoam a mim, zumbindo para que eu revide, atacando-as. Olho para cima e vejo o grande céu azul, tórrido e estranhamento volátil. Ele dança, contrai, se expande em formas acrobáticas, como o vestido de uma exímia rendeira que, sobre um rio, esfrega-o para retirar-lhe toda a impureza. Após a eterna peleja entre o sol e a lua - quando a última vence - o sítio é tomado pelo breu, pela escuridão, pelas trevas. Às vezes, quando olho para a ossada do pequeno roedor que sucumbiu às margens de um lago sombreado por um Juazeiro, penso que a morte se entrelaça intimamente a essa terra, com sua rudeza intimista; além da calmaria mais infernal, abusiva e melancólica que os trópicos podem conhecer. Alguns anuns-pretos me observam entre os galhos secos do verão. Sinto que estou rodeado por uma maldição, um mau agouro, eles me olham de forma profunda. Outrora, até olhos humanos parecem ter. Será que o quebranto me aflige em decorrência do sangue sefardita que possuo? Talvez eu esteja alucinando no apagão ao lado de fora do meu casebre. Uma grande e potente lua prateada cobre o telhado da construção. Por que essa luz só percorre a minha casa? O que a proíbe de penetrar o vazio da mata? Mais uma pergunta sem resposta. Olho para o inferior da casa. Seres quadrúpedes e esguios se movem pelos meus móveis, como se eu não os vissem. Estou fatigado demais para chamar um padre. Eles que se desloquem por aí. Não tenho motivo para temer, tendo em vista que sou tão impuro quanto eles. Estou sozinho neste sítio, durante a noite, ou melhor, só eu, essas criaturas e o pobre roedor. Meu coração bate como as ondas de um rio. Me confundo entre o vazio e a plenitude. Flashes azuis tamborilam pelas redondezas da fazenda. Eles irão me cercar. Reflito sobre as crianças vítimas do sebastianismo. Seria eu uma delas? Penso ser mais razoável explicar-me por meio disso, do que pelo meu sangue sefardita. Olho ao redor. Num espelho, eu sou o roedor. Nada importa mais, eu sou ele, ou pelo menos estamos equiparados. Uma orogênese estonteante alcança o meu tórax, sinto-me rasgado para a entrada de um terceiro ente. O flash azul já me alcançou. Invadindo o casebre, ele flui para dentro de mim. Tudo bem, já que nada mais importa. Ele se apoderou de mim. Eu, o roedor, o flash, todos somos um.
Pedro Matos, 19 anos, vive em Delmiro Gouveia, Alagoas. Interessado por Literatura, Geografia e Filosofia, almeja unir os três em uma nova forma de ver o Nordeste e o Sertão. Estuda Geografia na Ufal, Campus do Sertão e publicou "Panthalassa" pela editora Parresía em 2025.


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