Você é quase da família | Douglas Souza

 por Douglas  Souza | 


Foto de Kofi Nartey na Unsplash

Você é quase da família

Já imaginou crescer sem nunca ter o direito de viver a infância? Sem poder estudar, ler e  escrever? Já imaginou crescer e envelhecer na “casa dos outros”? Já sonhou viver uma  vida inteira sem afeto e sem amor? Bem, essa foi a realidade imposta pela escravidão colonial. Durante séculos, corpos negros foram submetidos à desumanização, privados de direitos fundamentais e reduzidos à lógica da servidão.

Hoje, em pleno julho de 2026, uma idosa de 62 anos foi “resgatada” de um trabalho,  que não vou chamar de análogo, mas de escravo. Algo que fazia  desde a infância, durante três gerações, na casa da família de sobrenome Alencar Brasil.  O caso aconteceu em um condomínio de luxo no Eusébio, um bairro onde moram pessoas  que não têm a mínima capacidade de fazer suas próprias coisas, ou limpar sua própria  casa. Lugares como esse escancaram a desigualdade social desse país, principalmente  a do Ceará. Não seria essa a terra da luz? O Estado que aboliu a escravidão, em 1884, quatro anos antes do decreto de “abolição” em todo o país? Que abolição foi essa, se até hoje ainda há pessoas submetidas a condições análogas à escravidão por famílias de sobrenomes considerados "nobres" ?

A maldade que adentra o coração dos exploradores usa da má-fé afetiva para lesar a vítima, chamá-la de “da família”, para ter a desculpa de não precisar pagá-la ou assinar a sua carteira, garantindo-lhe os direitos trabalhistas. E o pior de tudo: usar o que ainda restou de afeto nessa mulher contra ela mesma é algo tenebroso.

Essa senhora poderia ser minha mãe, sua mãe, nossa avó, nossas tias. Porque essa gente espera de nós esse lugar: o lugar da subserviência, dos olhos tristes, do sorriso sem alegria, da cabeça baixa. Porque é isso que o racismo representa, uma violência que penetra o  corpo e a alma, que tira de nós, negros e negras, a vontade de existir e de ser gente, isso mesmo, gente! 

Por fim, a lógica colonial ajudou a construir um Estado no qual a população negra não é enxergada como cidadã, muitas vezes sem sequer ter o direito de ter direitos. Um Estado que se alterna entre esquerda e direita, mas em que ambas, quando chegam ao poder, continuam sendo majoritariamente representadas pela classe média branca. Nessa lógica, faço minhas as palavras de Sueli Carneiro: "entre a esquerda e a direita, eu continuo sendo negro."

Esse mesmo Estado, erguido sobre o sangue e o suor do povo negro, não foi capaz de oferecer uma resposta à violência sofrida por essa senhora. Ela precisou voltar para a casa dos escravocratas porque o Estado não dispõe de uma estrutura de acolhimento capaz de amparar vítimas do trabalho escravo. 




Por fim, este país deveria estar em chamas. Essa família deveria ser julgada e condenada, pois praticou um crime contra a humanidade. Se vivêssemos em um país verdadeiramente democrático de  fato, uma nação justa, a sociedade jamais aceitaria isso. Só romperemos essa lógica quando formos nós a ocupar os espaços de poder: nós, filhas, filhos, netas e netos de trabalhadoras domésticas; nós, o povo negro.

Quando nós tomarmos esse poder, e formos nós que tivermos as decisões nas mãos, aí  sim, será a hora de revidar. Já imaginou com o poder real nas suas mãos? Como você  reagiria contra o trabalho escravo? Guarde sua resposta, pois esse dia chegará! 

Quando ocuparmos esses espaços de poder e formos nós a tomar as decisões, então chegará a hora de revidar. Já imaginou ter o poder real em suas mãos? De que maneira você enfrentaria o trabalho escravo? Guarde sua resposta, pois esse dia chegará.



Douglas Souza — Nascido na comunidade do Parque Veras. Fundador do movimento Fortaleza Negra. Graduando em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Pesquisador da história negra no Ceará. Produtor cultural, músico, escritor e articulador político.