por Ariel Montes Lima |

Foto de Matteo Vontz na Unsplash
A PSICANÁLISE COMO TEORIA LITERÁRIA

INTRODUÇÃO
A relação entre psicanálise e literatura é tão antiga quanto a própria teoria em questão. Desde os escritos pioneiros de Sigmund Freud, que se valeu de obras literárias como Édipo Rei, de Sófocles, e Hamlet, de Shakespeare, para ilustrar e desenvolver seus conceitos fundamentais, a psicanálise tem encontrado na literatura um campo fértil de interlocução. Freud via os escritores criativos como "aliados muito valiosos", cujo testemunho deveria ser levado em alta conta, pois "costumam conhecer toda vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar".
Não obstante, a articulação entre esses campos do saber não se dá sem tensões e deslocamentos. Nesse sentido, a hipótese que orienta o presente ensaio é a de que as fundamentações estruturantes da psicanálise servem melhor à compreensão de estruturas literárias e romanescas do que puramente de comportamentos humanos. Em outras palavras, a psicanálise, enquanto teoria do inconsciente e da linguagem, oferece um aparato conceitual mais adequado para desvendar a arquitetura profunda dos textos literários (suas narrativas, suas figuras, seus silêncios e suas ambiguidades) do que para diagnosticar autores ou personagens como se fossem pacientes em análise.
Essa hipótese implica uma dupla reorientação. De um lado, recusa a tentação biografista que marcou as primeiras aplicações da psicanálise à literatura, nas quais o texto era tratado como um sintoma da psique do autor. De outro, afirma a potência heurística dos conceitos psicanalíticos (inconsciente, desejo, fantasia, recalque, transferência) para a compreensão da própria textura da obra literária, de suas estruturas narrativas e de seus modos de significação. Nesse sentido, a psicanálise não é uma chave que decifra um conteúdo oculto, mas uma lente que ilumina os mecanismos de produção de sentido do texto.
DA BIOGRAFIA AO TEXTO
A história da crítica literária psicanalítica pode ser compreendida como um movimento progressivo de afastamento da biografia do autor em direção ao texto em sua materialidade. As primeiras aplicações da psicanálise à literatura, ainda sob a influência direta de Freud e de seus primeiros seguidores, tendiam a tratar a obra como um documento da psicopatologia do artista: "o que precisa ser elucidado não são as obras artísticas e literárias em si, mas sim a psicopatologia e a biografia do artista, do escritor ou dos personagens fictícios" . O escritor era visto como um neurótico que encontrava na criação artística um caminho de volta à sanidade, e a obra, por sua vez, era o sintoma de seus complexos inconscientes.
Essa abordagem, no entanto, revelou-se redutora. Analistas posteriores concluíram que "claramente não se pode psicanalisar um escritor a partir de seu texto; só se pode apropriar-se dele". O perigo, como alertam os críticos, é que o estudante sério pode se tornar um teórico, "esquecendo-se de que a abordagem de Freud não é a única para a crítica literária. Ver uma grande obra de ficção ou um grande poema primordialmente como um estudo de caso psicológico é, muitas vezes, perder seu significado mais amplo e talvez até mesmo a experiência estética essencial que ele deveria proporcionar".
Foi nesse contexto de insatisfação com o reducionismo biografista que surgiram abordagens mais sofisticadas, capazes de respeitar a especificidade do literário sem abandonar o instrumental psicanalítico.
O INCONSCIENTE COMO LINGUAGEM
Um marco decisivo nessa reorientação foi a obra de Jacques Lacan (2016), para quem "o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Essa formulação, que ecoa a ideia freudiana do inconsciente como uma "escrita", desloca o eixo da crítica psicanalítica: em vez de buscar na obra os sintomas de uma psique individual, a análise passa a se concentrar nos processos linguísticos do próprio texto.
O conceito lacaniano de inconsciente como linguagem implica que a subjetividade não é uma essência interior que a literatura expressaria, mas algo que se constitui precisamente no e pelo discurso. O sujeito, para Lacan, é um efeito da cadeia significante, e é na trama da linguagem que seu desejo se inscreve e se desloca. Essa perspectiva abre caminho para uma crítica literária que investiga como os textos literários, em sua sintaxe, em suas figuras, em seus ritmos, performatizam os movimentos do inconsciente.
Como observa um estudo recente sobre a relação entre psicanálise e literatura, "a hipótese que aqui trago é de que a narração é uma necessidade e direito de todo sujeito, posto que é no ato de se contar, digo, de criar narrativas sobre si, que ele situa seu desejo e se situa diante de sua fantasia”. Dessa perspectiva, a literatura não é um objeto a ser explicado pela psicanálise, mas um campo onde os processos de subjetivação e de criação de sentido podem ser observados em sua potência.
DA PSICOCRÍTICA À TEXTANÁLISE
O campo da crítica literária psicanalítica é heterogêneo e comporta diferentes métodos e abordagens. Entre as mais influentes, destacam-se:
a) A Psicocrítica de Charles Mauron
Charles Mauron, em 1963, concebeu um método estruturado para interpretar obras literárias por meio da psicanálise, que ficou conhecido como psicocrítica . O método envolvia quatro fases: primeiro, a compreensão do processo criativo como análogo ao sonho, uma representação mimética e catártica de um desejo inato; segundo a justaposição das obras de um escritor para definir temas simbólicos recorrentes; terceiro, a identificação dessas redes metafóricas como significativas de uma realidade interna latente; e, por fim, a vinculação da criação literária à vida pessoal do autor.
A psicocrítica de Mauron, embora ainda mantenha um vínculo com a biografia, já aponta para uma compreensão mais estrutural da obra, ao buscar identificar "entrelaçamentos despercebidos" sob as "estruturas voluntárias do texto". Para Mauron, o crítico deve procurar as modificações das estruturas ao longo da obra, de modo a liberar o "mito pessoal" que reflete a personalidade inconsciente do autor.
b) A Textanálise de Jean Bellemin-Nöel
Uma abordagem mais radical, que rompe definitivamente com o biografismo, é a textanálise ou psicanálise textual, proposta por Jean Bellemin-Nöel. Se não se pode psicanalisar seriamente nem o autor nem seus personagens, resta a psicanálise de um texto, supondo-se um "inconsciente do texto" que não se confunde com o do escritor.
A textanálise faz aparecer um desejo inconsciente singular em um texto singular. A singularidade de cada leitor encaixa-se em cada texto, e é ela que se deseja alcançar. Nessa perspectiva, o texto literário não é um documento da psique do autor, mas um campo de forças onde o desejo se inscreve e se desloca, independentemente da intenção consciente do escritor.
c) A Crítica da Ansiedade de Influência
Outra vertente importante é a crítica inspirada pela noção freudiana do complexo de Édipo, como a desenvolvida por Harold Bloom em seus estudos sobre as relações de influência entre poetas. Para Bloom, a história da poesia é uma história de lutas entre "fortes poetas", na qual cada novo poeta precisa superar a influência de seus predecessores, um processo análogo ao conflito edípico. Essa abordagem, que também inspirou variantes feministas, como o trabalho de Sandra Gilbert e Susan Gubar, desloca a psicanálise do indivíduo para a história literária, tratando a tradição como um campo de forças psíquicas.
POR QUE A PSICANÁLISE SERVE MELHOR À LITERATURA DO QUE AO COMPORTAMENTO?
Retomando a hipótese inicial, cabe agora explicitar os fundamentos dessa afirmação. A psicanálise, enquanto teoria fundada na escuta da fala e na interpretação dos significantes, tem como objeto não o comportamento observável, mas o discurso em sua dimensão inconsciente. O comportamento humano é opaco à psicanálise; o que ela interpreta é o que se diz, o que se escreve, o que se narra.
O texto literário, por sua vez, é integralmente discurso. Digo: nele, não há comportamento a ser observado, ou linguagem para além da materialidade da própria obra, mas uma trama de significantes a ser desfiada. Com efeito, as estruturas narrativas, as figuras de linguagem, os silêncios, as ambiguidades, tudo isso é matéria de interpretação. E é exatamente nesse terreno que a psicanálise encontra seu campo de aplicação mais fecundo.
Além disso, a literatura, como a psicanálise, lida com o indizível, com aquilo que escapa à representação direta. O escritor, como o analisante, está sempre às voltas com os limites da linguagem, com o que não pode ser dito e que, no entanto, insiste em se fazer ouvir. A obra literária é, nesse sentido, uma tentativa de dar forma ao informe, de inscrever no simbólico aquilo que resiste à simbolização.
Como observa um estudo sobre o tema, "a medida da vida só pode ser inventada por aquele que a vive, através de um semidizer”. Esse "semidizer" é o território comum entre a experiência analítica e a experiência literária. Tanto na análise quanto na literatura, trata-se de criar narrativas que deem conta do real que escapa, de tecer ficções que permitam suportar o vazio do desejo.
LIMITES E RISCOS DA CRÍTICA PSICANALÍTICA
Embora a crítica psicanalítica ofereça subsídios muito úteis ao labor da interpretação literária, ela não está isenta de riscos. O principal deles é o reducionismo: a tendência a explicar as ambiguidades da obra literária com referência à doutrina psicanalítica estabelecida, transformando o texto em mera ilustração de conceitos. Muito da crítica psicanalítica inicial, que tratava o texto como um sonho e buscava seu "conteúdo latente" por trás do "conteúdo manifesto", incorreu nesse erro.
Outro risco é o da "interpretação selvagem", na qual o crítico projeta sobre o texto suas próprias fantasias e teorias, sem levar em conta a especificidade do literário. Como alertam os críticos, "nenhuma abordagem pode iluminar ou interpretar adequadamente uma obra de arte complexa”. A crítica psicanalítica deve, portanto, ser uma ferramenta entre outras, não uma chave mestra que resolve todos os enigmas.
CONCLUSÃO
A trajetória da crítica literária psicanalítica sugere um movimento de progressiva sofisticação e de crescente atenção à especificidade do texto literário. O que começou como uma aplicação de conceitos clínicos à biografia de autores e personagens transformou-se em um campo heterogêneo de investigação sobre os processos de significação, subjetivação e desejo que atravessam a literatura.
Com efeito, a hipótese que orientou este ensaio encontra respaldo tanto na história da crítica quanto na própria teoria psicanalítica. A psicanálise, ao tratar o inconsciente como uma linguagem e o sujeito como um efeito do discurso, oferece um instrumental conceitual de relevo para desvendar a arquitetura dos textos do que para diagnosticar pessoas.
Isso não significa, no entanto, que a psicanálise se reduza a um método de crítica literária. A clínica psicanalítica, com sua escuta singular e sua aposta na transferência, permanece irredutível à análise de obras. O que se defende, antes, é que a psicanálise e a literatura compartilham um mesmo horizonte: ambas lidam com o indizível, com os limites da linguagem, com a impossibilidade de uma verdade plena. Ambas são, em última instância, modos de narrar o que não pode ser narrado, de dar forma ao informe, de tecer ficções que permitam suportar o real.
Nesse sentido, a psicanálise emerge como chave epistemológica para uma vertente teórica dos estudos literários. E a literatura, por sua vez, assume lugar de interlocutora privilegiada do conhecimento psicanalítico.
REFERÊNCIAS
CÂNDIDO, Antonio. Direitos humanos e literatura. In: CÂNDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades; Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004.
CURADO, Bárbara Taveira Fleury; LAZZARINI, Eliana Rigotto. Narrativa em análise: da escrita ao conto. Cadernos de Psicanálise (Rio de Janeiro), v. 41, n. 40, p. 29-44, jan./jun. 2019.
DACORSO, Stetina Trani de Meneses. Psicanálise e crítica literária. Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte, n. 33, p. 151-160, jul. 2010.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1999.
GUERIN, Wilfred L. et al. A Handbook of Critical Approaches to Literature. New York: Oxford University Press, 2005.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
MAURON, Charles. Des métaphores obsédantes au mythe personnel: introduction à la psychocritique. Paris: José Corti, 1963.
TADIÉ, Jean-Yves. A crítica literária no século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992.
WILLEMART, Philippe. Psicanálise e teoria literária: o tempo lógico e as rodas da escritura e da leitura. São Paulo: Perspectiva, 2014.
WIKIPEDIA. Crítica literária psicanalítica. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%ADtica_liter%C3%A1ria_psicanal%C3%ADtica. Acesso em: 20 jun. 2026
Ariel Montes Lima é mestre e doutoranda em Estudos de Linguagem (PPGEL-UFMT). Autora dos livros Poemas de Ariel (TAUP, 2022), Sínteses: Entre o Poético e o Filosófico (Worges Ed., 2022), Ensaios Sobre o Relativismo Linguístico (Arche, 2022), Poemas da Arcádia (Caravana, 2023), Silêncios: Duros Silêncios (Worges, 2024), O Inominado ou A Descoberta do Mundo (TAUP, 2024), Liberdades (2025), Contos Femininos (Worges, 2025) e Histórias do Casarão (Worges, 2025) e Os Odinokiov (sob pseudônimo de Cássia Frankl)
.png)
Redes Sociais