Programação paralela da Flip reúne romances sobre memória, identidade e resistência


Lançamentos abordam memória, diversidade, pertencimento e questões sociais através de diferentes narrativas.

Da fantasia ao thriller político, da autoficção ao romance histórico, autores independentes transformam a programação paralela da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em um espaço de encontro entre diferentes formas de narrar o Brasil. Ao longo do evento, escritores de várias regiões do país apresentam obras que abordam temas como memória, desigualdade, ditadura militar, neurodivergência, diversidade sexual e os modos como construímos nossa identidade.

Embora percorram gêneros distintos — fantasia, ficção científica, suspense, romance histórico e autoficção —, as obras compartilham uma característica comum: utilizam a literatura para refletir sobre experiências atravessadas por questões sociais e políticas, sem abrir mão da força narrativa.



Entre os destaques está Beijada pela maré, terceiro romance da carioca Thainá Fernandez. A obra acompanha Nina Meireles, jovem estudante de Biologia Marinha que, após receber um diagnóstico tardio de autismo, enfrenta o capacitismo na universidade e encontra em Paraty um inesperado processo de transformação ao conhecer uma misteriosa criatura marinha. Inspirado pela fantasia, o romance aborda pertencimento, saúde mental, amor-próprio e inclusão, transportando para o litoral fluminense referências como A Pequena Sereia e A Forma da Água.



A memória também ocupa papel central em Ficção que chamo de eu, plaquete da escritora luso-brasileira Luciana Palhares. Em treze minicrônicas, a autora revisita episódios da infância para investigar as origens da identidade e a maneira como reinterpretamos nossa própria história ao longo da vida. Misturando autoficção, conto e crônica, o livro transforma lembranças particulares em reflexões sobre família, pertencimento e percepção, propondo ao leitor preencher os espaços deixados entre as recordações.


Sandra Godinho leva para a Flip o premiado romance Inventário de um silêncio, vencedor do 1º Prêmio Escreviventes. A narrativa acompanha um engenheiro que investiga o desaparecimento do irmão durante a ditadura militar, revelando como a repressão também atuou nos bastidores de empresas e refinarias da Amazônia. Ambientado entre Manaus, Rio de Janeiro e Salvador, o romance recupera episódios pouco explorados da história brasileira e propõe uma reflexão sobre memória, justiça e apagamento histórico.



A ditadura militar também aparece sob outra perspectiva em Projeto Futuro, novo romance de Danilo Heitor. Voltada ao público jovem-adulto, a obra combina ficção científica, suspense e investigação histórica ao acompanhar duas adolescentes que descobrem um experimento clandestino iniciado durante o regime militar para realizar viagens no tempo utilizando presos políticos como cobaias. A partir dessa premissa, o autor discute ética científica, direitos humanos, reparação histórica e o papel das novas gerações diante do passado brasileiro.



O romance de estreia de Arthur Simon, Lana, como eu odeio esses caras!, percorre outro caminho ao reunir suspense sobrenatural, romance LGBTQIAPN+, memória histórica e crítica ao extremismo. Ambientada em uma cidade fictícia do interior catarinense, a narrativa acompanha a descoberta da bissexualidade da protagonista enquanto investiga o legado do nazismo e do integralismo no Sul do Brasil. Ao alternar referências da cultura pop dos anos 2000, diários históricos e documentos fictícios, o autor aproxima questões presentes nos dias atuais sobre a persistência de discursos extremistas e a busca por pertencimento.

Apesar das diferenças de linguagem e temática, os cinco lançamentos se conectam ao colocar indivíduos diante de processos de transformação. Seja revisitando a infância, enfrentando estruturas de exclusão, questionando a memória política do país ou procurando espaço para existir em sociedades demarcadas pelo preconceito, os protagonistas dessas narrativas convidam o leitor a refletir sobre identidade, escolhas e responsabilidade coletiva.

SERVIÇO

Sandra Godinho

Livro: Inventário de um silêncio

Data: 23 de julho

Horário: 17h

Local: Casa Tyiwaras, Neomarginais e Capitolinas


Luciana Palhares

Livro: Ficção que chamo de eu

Data: 23 de julho

Horário: 11h

Local: Casa Escreva, Garota! (estande da com.tato)

Arthur Simon

Livro: Lana, como eu odeio esses caras!

Roda de conversa: 24 de julho, às 12h, Casa Gueto

Sessão de autógrafos: 24 de julho, às 15h, Casa Gueto


Danilo Heitor

Livro: Projeto Futuro

Sessão de autógrafos: 24 de julho, às 21h, Praça Aberta da Flip

Nova sessão: 25 de julho, às 15h, Casa Escreva, Garota! (estande da com.tato)


Thainá Fernandez

Livro: Beijada pela maré

Data: 25 de julho

Horário: 11h

Local: Casa da Leitura e do Conhecimento SECEC RJ