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Trechos do livro “Palco dos que Sofrem”, de Letícia Ávila
Trecho 01
Cama desfeita, lençóis amarelados, peças do uniforme jogadas por toda parte, embalagens de pipoca de micro-ondas, garrafas de refrigerante, latinhas de cerveja vazias, copos sujos, guardanapos amassados, fotografias minhas de quando era pequena na cômoda. Olho sorrindo, sentindo uma migalha de amor. É duro imaginar meu pai dormindo acompanhado da tristeza. O cheiro do quarto — uma mistura de mofo, suor e café frio — me invadia. Tento entender o caos amontoado entre essas quatro paredes.
Nunca o vi sorrir. Pensar que dormia dessa forma, todas as noites, era a prova de que ele não vivia, apenas aguardava a hora de ser engolido pela própria sujeira e enterrado em uma vala solitária, onde finalmente não precisaria fingir que existia. Decido limpar tudo e, quem sabe, diminuir o fardo que ele carrega nos ombros todos os dias. Alimento a ideia boba de que o cheiro de limpeza possa mudar o ar desta casa. Que ele chegue, que a distância entre nós deixe de ser um muro, que ele venha acompanhado de um agradecimento em voz mansa.
Trecho 02
— Chegamos em Conceição, mulheres.
A motorista me acorda de um cochilo, desses que só acontecem quando a gente se sente segura. Andar de transporte público rumo a Conceição sempre foi bem melhor do que ir a outros lugares. Me dá uma agonia braba fazer isso pelo mundo afora. Os olhares dos homens sugam cada pedaço do corpo da gente, fazem de tudo pra encostar numa mulher e depois ainda dão desculpas esfarrapadas. Elas tentam se esconder atrás de um livro, do celular, ou se protegem com a mochila colada no corpo como escudo.
Quando eu tô na minha cidade, nada disso acontece. Aqui é sempre mulher respeitando o tempo da outra, cada uma esperando sua vez de passar e descer do ônibus, tudo com calma.
Bela se levanta da poltrona, passa por Bea e dá um sorriso, que Bea devolve pra mim. Quando desço do ônibus, encontro Ana e entrego de bandeja mais um sorriso. As três ficam paradas ao lado do ônibus, absorvendo a imensidão de Conceição e eu fico admirando a reação delas, saboreando o espanto bom que lhes toma conta.
— Bonitas, temos três malas no bagageiro. Quem é a dona de cada uma? — A motorista pergunta, já desejando boas-vindas. — Vocês vão se acostumar rapidinho com a cidade.
Eu não carrego mala, não. É só minha bolsa nas costas e pronto — do jeitinho que sempre foi. Fico só de rabo de olho vendo o fascínio de Bea saltando por todo canto, curiosa que só. É bonito demais encarar Conceição e lembrar de tudo que brotou aqui, das histórias que as paredes não deixam a gente esquecer.
— Tá vendo ali, Bea? Essas casas contam o passado da gente todinho. Tudo começou com os azulejos de Portugal, cheios de santo e de mar, mas depois vieram os caquinhos. É o que eu sempre digo: é o nosso jeito de mostrar que nada que quebra precisa ser jogado fora; a gente se refaz é na teimosia mesmo.
Trecho 03
Uma mescla de boldo, alfazema e alecrim repousa num potinho de barro bem no meio da mesinha baixa, espalhando um cheiro tão bom que até fecho os olhos para puxar o ar aos poucos. As velas espalhadas pelos cantos lançam uma luz suave pelo lugar. O gazebo tá todo arrumado com cortinas brancas balançando com o vento, parecendo até um casulo no meio da natureza. As duas banheiras brancas estão lá: uma vazia e, na outra, Labela, sendo cuidada por duas mulheres que cantam baixinho, como uma oração: “Que venha em paz. Abre os caminhos dessa nova família. Vai dar tudo certo. Deixa pra trás o que já não serve mais.”
Antes de chegar perto da banheira, Sara me leva para um chuveiro de pedra, desses ao ar livre, com a água fria caindo forte e tirando o cansaço do corpo em preparação para o que viria. Depois do banho, de biquíni e ainda com a pele úmida, volto para o gazebo. Labela está na água com uma toalha branca nos olhos, ainda sentindo a energia rodando em volta dela.
As mulheres se aproximam, pedem para eu permanecer em pé e, com um sorriso tranquilo, despejam água com sal grosso e arruda em mim, do pescoço para baixo. Em seguida, vem a mistura de ervas. Falam baixinho: “Que você encontre o caminho. Deixe pra trás o que lhe machucou. Que a força pra sorrir volte a morar no seu interior. Que encontre sentido na vida.”
Antes de me guiarem ao mergulho, Sara me entrega um lençol de algodão. Entendo o gesto. Desfaço os nós do biquíni por baixo do tecido, deixando que a peça caia no chão de madeira e me envolvo na saia improvisada. A nudez de Labela e os cuidados das mulheres me mantêm confortável com meu corpo nu. Elas trazem um pequeno banco de madeira com uma abertura no centro e um pote de barro fumegante embaixo. Me pedem para sentar, ajustando o tecido ao meu redor para criar uma cabana de calor. O vapor da alfazema, do louro e da arruda sobe suave, trazendo um acalento para o meu centro mais íntimo. É um calor que desata nós que eu ainda não tinha alcançado. Sinto a umidade morna me abraçar por dentro.
Parece até que elas conhecem minha dor. Quando me levanto, o corpo parece mais leve, talvez o vapor tenha aberto os poros da alma. Elas me direcionam até a banheira cheia d’água perfumada, com flores brancas boiando. Tento segurar o choro, mas ele vem com força. As mulheres não recuam, continuam como se já soubessem que isso iria acontecer, me abraçando nas palavras. “Deixe o pranto vir. Ele vai limpar tudo. Deixe limpar.”
Letícia Ávila é nordestina, de Aracaju/SE, cresceu em São Paulo e atualmente é moradora de Ilhabela, no litoral paulista. Seu interesse e ativismo no feminismo tornaram a subjetividade feminina um dos eixos centrais de seu projeto literário. A literatura para ela é um espaço de acolhimento e a escrita um caminho potente de cura e ressignificação. Após finalizar o Curso de Formação de Escritores da Casa das Rosas (CLIPE), estreia no mundo dos livros com o romance “Palco dos que Sofrem”, obra contemplada pelo ProAC/SP.
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