![]() |
| Documentário Vozes e Vãos |
No mês em que se celebra o Documentário Brasileiro, associação reúne filmes de diferentes gerações que abordam ancestralidade, representação, cultura, religiosidade e resistência da população negra
O documentário brasileiro tem desempenhado papel fundamental no registro de histórias e sujeitos muitas vezes colocados à margem das narrativas oficiais do país. Ao transformar arquivos, testemunhos, memórias familiares, manifestações culturais e experiências coletivas em escrita cinematográfica, o gênero também oferece instrumentos para compreender a permanência das desigualdades raciais e as diferentes formas de resistência construídas pela população negra.
Em agosto, mês em que é celebrado o Dia Nacional do Documentário Brasileiro, a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) reuniu dez produções que propõem diferentes perspectivas sobre racismo, ancestralidade, identidade, pertencimento, cultura e memória. A seleção aproxima filmes realizados entre o final dos anos 1980 e 2025, permitindo observar tanto a continuidade de determinados debates quanto as transformações na maneira de representá-los no cinema.
Entre os títulos mais antigos está Abolição (1988), de Zózimo Bulbul, obra que investiga as consequências da abolição da escravidão no Brasil a partir de depoimentos de intelectuais, artistas e ativistas. Ao questionar o significado de uma liberdade jurídica que não foi acompanhada pela superação das desigualdades sociais e raciais, o filme permanece como referência do cinema negro brasileiro.
Do ano seguinte, Ôrí (1989), de Raquel Gerber, acompanha a historiadora e militante Beatriz Nascimento e os movimentos negros brasileiros entre 1977 e 1988. Quilombo, ancestralidade e as relações entre Brasil e África estão no centro de uma obra em que história individual e experiência coletiva se encontram.
A representação da população negra nos meios de comunicação aparece em A Negação do Brasil (2000), dirigido e roteirizado por Joel Zito Araújo. O documentário examina personagens negros das telenovelas produzidas entre 1963 e 1997 e evidencia a recorrência de estereótipos, ausências e lugares sociais reservados a esses personagens ao longo de décadas da televisão brasileira.
Corpo e ancestralidade orientam Cavalo (2000), de Rafhael Barbosa e Werner Salles. A produção acompanha sete jovens dançarinos em um processo de aproximação com suas origens, relacionando movimento, memória, identidade e espiritualidade.
As conexões afro-atlânticas reaparecem em Memórias Afro-Atlânticas (2020), de Gabriela Barreto. O documentário recupera as pesquisas realizadas pelo linguista Lorenzo Turner em terreiros de candomblé da Bahia, investigando permanências culturais e históricas que aproximam Brasil e África.
A seleção também reserva espaço para obras que recorrem a estratégias narrativas menos convencionais. É o caso de Escasso (2022), de Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles. Construído como um falso documentário, o filme utiliza humor e crítica social para discutir moradia, desigualdade e ocupação do espaço urbano a partir da trajetória de Rose, uma passeadora de animais em busca da casa própria.
Música, religiosidade e patrimônio
A música aparece enquanto elemento de memória e identidade em Ginga Reggae: na Jamaica Brasileira (2023), dirigido por Naýra Albuquerque. A partir da trajetória de Célia Sampaio, o filme percorre a história do reggae no Maranhão e observa música e dança como expressões da cultura e da resistência negra.
Em João de Una Tem um Boi (2024), Pablo Monteiro se volta para o Bumba Meu Boi na zona rural de São Luís. Acompanhando a celebração do Boi Estrela, o documentário registra rituais, religiosidade e conhecimentos transmitidos entre gerações, situando a cultura popular como espaço de preservação de saberes ancestrais.
Dois títulos de 2025 completam a seleção. Em Aqui Não Entra Luz, Karoline Maia parte da própria memória familiar para investigar as relações entre arquitetura, escravidão e segregação social. A organização dos espaços domésticos torna-se, assim, um caminho para observar como estruturas históricas de desigualdade permanecem inscritas no cotidiano brasileiro.
Já Vozes e Vãos, de Edileuza Penha de Souza e Edymara Diniz, acompanha jovens quilombolas de Goiás e as formas pelas quais novas gerações preservam e reelaboram tradições, fortalecendo vínculos comunitários e identidades culturais.
Vista em conjunto, a seleção proposta pela APAN estabelece conexões entre diferentes momentos do documentário brasileiro. Dos questionamentos de Zózimo Bulbul e Raquel Gerber no final da década de 1980 às produções mais recentes, os filmes demonstram como memória, representação e território permanecem centrais para compreender as relações raciais no país.
As obras também destacam mudanças de perspectiva: a população negra não aparece somente enquanto objeto de investigação, mas produtora de imagens, discursos e interpretações sobre a própria história. Nesse movimento, o documentário assume também a função de preservação de patrimônios, saberes e memórias que ajudam a construir outras possibilidades de leitura do Brasil.
Criada em 2016, a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) atua nas cinco regiões brasileiras e trabalha pelo fortalecimento das ações afirmativas e pela presença da população negra no setor audiovisual. A organização reúne profissionais, participa do debate sobre políticas públicas e desenvolve iniciativas voltadas à construção de um mercado audiovisual mais diverso e ao enfrentamento do racismo.
.png)
Redes Sociais