Espetáculo inspirado em conto de Caio Fernando Abreu retorna aos palcos para nova temporada no Recife


 por Taciana Oliveira |


Montagem "Pela Noite" celebra os 30 anos da morte do escritor e leva ao Teatro Hermilo Borba Filho uma adaptação destacada pela solidão, desejo e memória

Trinta anos após a morte de Caio Fernando Abreu (1948-1996), sua literatura volta a ocupar o centro da cena teatral pernambucana. Depois da estreia durante o 32º Janeiro de Grandes Espetáculos, no início de 2026, Pela Noite retorna aos palcos para uma nova temporada nos dias 8, 9, 15 e 16 de agosto, no Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife.

Inspirada no conto homônimo publicado em Triângulo das Águas, obra vencedora do Prêmio Jabuti de 1984, a montagem adapta para o palco uma das narrativas mais conhecidas do escritor gaúcho. Sob direção e adaptação de Edjalma Freitas, o espetáculo acompanha o reencontro de dois homens que se conheceram ainda na infância, mas seguiram caminhos distintos até voltarem a se encontrar quase vinte anos depois. Durante uma única noite, os personagens revisitam afetos, lembranças, desejos e silêncios, em uma narrativa que aborda a intimidade masculina e a dificuldade de estabelecer vínculos em meio à vida urbana. No palco, Rogério Wanderley e Paulo César Freire interpretam Pérsio e Santiago, enquanto as atrizes Amanda Clélia e Wydi Silva dão voz ao coro que acompanha a narrativa. Essas personagens exteriorizam pensamentos, medos e sentimentos que permanecem ocultos aos protagonistas, aproximando a montagem das estratégias do teatro narrativo contemporâneo.

A cenografia, assinada por Peu Carneiro, transforma andaimes em uma paisagem urbana marcada pela verticalidade e pela sensação de isolamento. Entre estruturas metálicas, a cidade aparece enquanto espaço de encontros breves e relações atravessadas pela solidão, criando um contraste entre a dureza do ambiente e a delicadeza da aproximação entre os personagens. Ao acompanhar esse percurso, o público assume a posição de observador da construção de uma intimidade que se revela aos poucos.

Embora tenha sido escrito há quase cinco décadas, o conto permanece atual ao abordar questões relacionadas ao desejo, às sexualidades dissidentes, à memória e às formas de afeto. A adaptação preserva a dimensão poética da escrita de Caio Fernando Abreu e evidencia como seus personagens continuam dialogando com inquietações atuais, especialmente aquelas ligadas às dificuldades de pertencimento e ao reconhecimento da vulnerabilidade humana.



A montagem é uma realização da NOZ Produz, produtora recifense formada por Rogério Wanderley, Álcio Lins e Rebecca Lima.

Na entrevista concedida à Mirada Janela Cultural, os integrantes da NOZ Produz comentam o processo de adaptação do conto de Caio Fernando Abreu para o teatro, a construção dos personagens, as escolhas estéticas da montagem e os desafios de levar aos palcos uma obra marcada por temas como solidão, desejo, memória e afeto. O grupo também reflete sobre a atualidade da escrita de Caio Fernando de Abreu e a importância de sua literatura para o teatro. Confira abaixo.

1- Pela Noite foi publicado há mais de quatro décadas, mas continua dialogando com questões  atuais sobre desejo, identidade e solidão. O que mais mobilizou o coletivo na decisão de adaptar justamente esse conto de Caio Fernando Abreu? 

O projeto partiu, inicialmente, de Rogério Wanderley, produtor da Noz Produz e que também  integra o elenco do espetáculo como o personagem Pérsio. A partir da leitura do conto, Rogério  sentiu-se tocado e instigado pela densidade da obra e pela maneira crua, visceral e ao mesmo  tempo delicada como Caio tece a história desses dois homens, Pérsio e Santiago, interpretado  por Paulo César Freire. Essa empolgação tomou conta de toda a equipe, que hoje entende  "Pela Noite" como um presente de Caio Fernando Abreu para o mundo. Um lembrete da beleza  dos amores plurais, que sempre haverá possibilidades dentro de cada um e que não  precisamos atravessar a noite sozinhos.  

2 - A encenação combina teatro narrativo, coro, cenografia vertical e um espaço que transforma  o público em uma espécie de observador da intimidade dos personagens. Como essas  escolhas foram construídas para traduzir a atmosfera da escrita de Caio sem perder a  autonomia da linguagem teatral? 

Dentre muitas coisas, há dois aspectos marcantes na atmosfera do conto de Caio Fernando  Abreu que buscamos preservar: o caráter urbano da história e o narrador como uma figura  essencial para a poeticidade da narrativa. Assim, a direção de arte de Álcio Lins e a cenografia  de Peu Carneiro trouxeram os andaimes como símbolos característicos de ambientes urbanos,  ajudando também a simbolizar um relacionamento que se encontra em construção. Por outro  lado, no conto, Caio Fernando Abreu utiliza um narrador onisciente para nos fazer adentrar  nos pensamentos mais íntimos dos personagens. Percebemos de cara que esse narrador não  poderia ser suprimido da adaptação e também precisávamos que ele fosse uma figura externa,  nesse caso, o Coro, interpretado pelas atrizes Amanda Clélia e Wydi Silva. O Coro observa os  personagens de cima ao mesmo tempo em que representa as consciências de Pérsio e  Santiago. Essas ideias brotaram naturalmente. Como se o próprio texto as propusesse. 

3 - O espetáculo estreou no ano em que se completam trinta anos da morte de Caio Fernando  Abreu. De que maneira vocês pretendem dialogar com leitores que já conhecem sua obra e, ao  mesmo tempo, apresentar o autor a uma geração que talvez esteja entrando em contato com  seus textos pela primeira vez? 

Buscamos manter características que são muito marcantes na obra de Caio. Tais como: a  escrita de fluxo de pensamento com frases longas e uso ostensivo de vírgula no lugar de ponto  final, o sarcasmo acentuado e humor ácido e a incansável curiosidade sobre as fragilidades do  ser humano. Todos esses elementos conversam com o leitor de ontem e de hoje. 

4 - A NOZ Produz destaca a criação coletiva como princípio de trabalho. Como esse processo  influenciou a construção de Pela Noite?

Enquanto produtora, a Noz Produz tem uma visão muito específica do produto que queremos  apresentar com "Pela Noite". Essa visão foi compartilhada abertamente com toda a equipe,  abraçando o projeto e recebendo liberdade criativa. No próprio processo de adaptação do texto  o diretor Edjalma Freitas fez absoluta questão de que o elenco participasse dos cortes,  opinando sobre os trechos que seriam mantidos ou retirados da dramaturgia. Os figurinos  foram pensados levando em consideração a descrição das vestimentas dos personagens pelo  autor e também a maneira como a equipe entendia a personalidade desses personagens. Essa  dinâmica também aconteceu com todos os departamentos. A pluralidade de pontos de vista é  imprescindível para nós. "Pela Noite" é fruto dessa convergência e sintonia de ideias.  

5 - Em um contexto em que produções independentes enfrentam desafios cada vez maiores  para circular, o retorno de Pela Noite aos palcos também representa um gesto de resistência  cultural. Quais são os próximos passos da montagem e quais caminhos vocês imaginam para  ampliar o alcance desse espetáculo? 

Estamos muito empolgados para a temporada de agosto em Recife e também muito felizes por  integrar a programação do 33º Porto Alegre em Cena (RS). Aspiramos poder integrar ainda  mais festivais, tanto nacionais quanto internacionais. Nos orgulhamos da qualidade do nosso  trabalho e esperamos poder tocar cada vez mais públicos com as palavras de Caio, de mãos  dadas com a paixão de toda a nossa equipe.  


SERVIÇO

Pela Noite
Quando: 8, 9, 15 e 16 de agosto de 2026
Horários: sábados, às 18h; domingos, às 17h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho – Cais do Apolo, 142, Recife Antigo
Ingressos: R$ 70 (inteira), R$ 35 (meia) e R$ 35 (meia social), à venda no Sympla


Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.