Fernando Cunha questiona as certezas do nosso tempo em O Dilema do Basilisco

 


Em romance filosófico, Fernando Cunha conecta tecnologia, budismo, ciência e espiritualidade para discutir sofrimento, identidade e os valores que orientam a vida

“Por que a humanidade não deve ser extinta?” É a partir dessa pergunta que Fernando Cunha estrutura O Dilema do Basilisco, obra filosófica que coloca a espécie humana diante de uma situação extrema: justificar a própria existência perante uma inteligência artificial capaz de julgá-la. O cenário especulativo serve ao autor como proposição para discutir questões que ultrapassam a tecnologia e alcançam o individualismo, a ansiedade, o apego à identidade e a maneira como as pessoas estabelecem suas prioridades.

No livro, um personagem sem nome é convocado a responder à pergunta diante do Basilisco, uma inteligência artificial soberana e onisciente. A referência vem do Basilisco de Roko, experimento mental que imagina uma inteligência artificial capaz de retaliar aqueles que não colaboraram para sua criação. Fernando Cunha, porém, trabalha o conceito a partir de outra perspectiva.

“O Basilisco é apresentado no prólogo como uma entidade que pergunta e observa, sem interferência, com o potencial de julgar toda a humanidade num piscar de olhos”, explica. A imagem também recupera o monstro mitológico capaz de petrificar pelo olhar, fazendo do encontro entre protagonista e inteligência artificial uma espécie de confronto diante do absoluto.

Embora a premissa converse diretamente com discussões sobre tecnologia, o interesse do autor não está somente em imaginar o desenvolvimento futuro da inteligência artificial, mas em utilizar sua presença em uma provocação filosófica. Diante de uma entidade que pode decidir sobre a permanência da humanidade, o personagem precisa examinar os argumentos que justificariam sua continuidade.

Para Cunha, a pergunta central do romance ganha relevância em uma sociedade demarcada  pela velocidade, pela competição e pela valorização das conquistas individuais. Segundo ele, as pessoas raramente encontram espaço para avaliar as consequências de suas escolhas sobre a vida dos outros.

“Somos pressionados por um mundo rápido e materialista a pensar que somos especiais frente aos outros, e isso nos gera ambição, ansiedade e sofrimento”, afirma. A pergunta apresentada pelo romance procura confrontar justamente essa perspectiva, substituindo gradualmente a ideia de realização individual por uma compreensão mais integrada da existência. Para o escritor, “um ‘eu’ sozinho que se destaca não significa nada”.

Um protagonista sem nome

A ausência de um nome para o personagem principal é parte importante dessa reflexão. Ao retirar do protagonista uma identidade definida, Fernando Cunha deixa um espaço que pode ser ocupado pelo próprio leitor, que alterna sua posição entre aquele que responde e aquele que observa e julga.

“A falta de identidade do protagonista é um dos pilares da obra. O fato de ele não ter identidade faz com que o leitor queira preenchê-la por conta própria. Ora o leitor se sente no papel dele, ora no papel do ouvinte Basilisco”, explica.

A escolha também está relacionada a uma das questões filosóficas presentes no romance: o apego à própria identidade como possível origem de sofrimento. Nesse aspecto, O Dilema do Basilisco revela uma influência importante do budismo, que atravessa tanto a trajetória do escritor quanto a concepção da obra. Segundo Cunha, a sabedoria budista constitui o principal referencial do livro. O encontro do personagem com uma entidade que representa um absoluto incompreensível é associado pelo autor às buscas empreendidas pela filosofia, pela espiritualidade e pelo autoconhecimento.

“O protagonista pode representar cada um na sua jornada de evolução. Cada um tem seu próprio Basilisco para olhar nos olhos e dar a resposta que ele espera”, afirma. Nessa perspectiva, a narrativa assume também os contornos de um processo de transformação interior, relacionado pelo escritor à ideia budista de iluminação ou nirvana.

Entre ciência e espiritualidade

Outro diálogo estabelecido ao longo da obra ocorre entre ciência e espiritualidade. Fernando Cunha as compreende como diferentes maneiras de buscar a verdade. Essa busca, entretanto, exige colocar em dúvida aquilo que cada indivíduo já considera verdadeiro. Os capítulos procuram confrontar certezas formadas pelas experiências, convenções e percepções acumuladas ao longo da vida. O objetivo seria recuperar uma disposição para a curiosidade e para o questionamento. Para o autor, uma mente aberta à descoberta pode reconhecer e ultrapassar preconceitos que condicionam a maneira de interpretar o mundo. Por isso, o romance evita estabelecer uma resposta definitiva até mesmo para a questão que desencadeia toda a narrativa.

Essa recusa das certezas prontas ocupa um lugar fundamental na concepção de O Dilema do Basilisco. Se o protagonista precisa justificar por que a humanidade merece continuar existindo, o livro não pretende entregar ao leitor uma solução acabada para esse dilema. “Respostas prontas não funcionam com o ser humano, apenas funcionam para torná-lo cheio de certezas e preconceitos. A formação da certeza enaltece o ego e depois o engessa”, argumenta Cunha.

A intenção é fazer com que as perguntas permaneçam depois da leitura. Ao colocar em xeque noções de identidade, apego e realização individual, o escritor pretende conduzir o leitor a examinar as próprias certezas e a maneira como se relaciona com aqueles que estão ao seu redor. Nesse sentido, a inteligência artificial que inicialmente parece ocupar o lugar de julgadora torna-se também um recurso para devolver as perguntas à própria humanidade. O Dilema do Basilisco volta sua atenção para aquilo que os seres humanos fazem com o mundo que já possuem — e para os argumentos que teriam, hoje, para defender sua permanência nele.


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Fernando Cunha é bacharel em Química e Engenharia de Produção e mestre em Engenharia Mecânica. Seu primeiro livro foi Metrologia e Incerteza em sua Essência, uma referência técnica na área de metrologia para laboratórios de ensaio e calibração. Porém, após um profundo contato com práticas budistas, despertou interesse na filosofia e nos dilemas humanos, com atenção especial à literatura budista. Em O Dilema do Basilisco, o autor convida o leitor a atravessar uma espiral de autoconhecimento e transformação, em que razão e intuição se encontram para lançar novas luzes sobre o sentido da existência humana.