Livro investiga origens, transformações e permanências da música armorial



Em novo ensaio, Carlos Eduardo Amaral percorre a produção da Orquestra Armorial e do Quinteto Armorial e examina os caminhos assumidos por essa vertente musical ao longo das décadas

A música ocupa um lugar fundamental na história do Movimento Armorial, mas sua produção ainda dispõe de uma bibliografia restrita quando comparada às discussões dedicadas às artes visuais e à literatura. É sobre essa lacuna que se debruça o jornalista, pesquisador e crítico musical Carlos Eduardo Amaral em À guisa de arcadas de rabeca e ponteados de viola: ensaio sobre a música armorial, livro que será lançado no próximo sábado, 15 de agosto, às 15h, na Academia Pernambucana de Letras (APL), no Recife.

Produzida com incentivo do Funcultura, a publicação realiza uma análise estética e crítica da música armorial, tomando como referências importantes o repertório da Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco e do Quinteto Armorial, grupos que tiveram atuação decisiva na década de 1970. O estudo, no entanto, recua aos antecedentes conceituais do movimento e acompanha seus desdobramentos até a produção de músicos contemporâneos. Nesse percurso, Amaral examina referências como o Manifesto Regionalista de 1926, de Gilberto Freyre, e o Ensaio sobre a música brasileira, publicado por Mário de Andrade em 1928. O livro também destaca a contribuição do compositor César Guerra-Peixe, cuja passagem pelo Recife, entre 1949 e 1952, provocou mudanças significativas em suas concepções musicais.

A investigação procura observar a música armorial para além da associação imediata com a figura de Ariano Suassuna. Para Amaral, embora o escritor tenha exercido papel determinante na criação do imaginário ligado ao movimento, diferentes artistas participaram dessa história ou foram influenciados por ela, muitos ainda em atividade. 

“Embora muito associado à construção de imaginário despertada pelas idealizações de Ariano Suassuna, o Movimento Armorial agregou ou influenciou não poucos artistas, boa parte deles ainda em atividade”, afirma.

Na música, parte desse legado permanece presente em concertos. O pesquisador observa que obras difundidas pela Orquestra Armorial e pelo Quinteto Armorial continuam sendo executadas, sobretudo em Pernambuco. Em contrapartida, ainda são poucos os livros dedicados especificamente ao assunto. A escassez levou Amaral, após concluir a primeira versão do ensaio, a produzir também um e-book introdutório, posteriormente traduzido para o inglês e o espanhol.

Duas vertentes da música armorial

À guisa de arcadas de rabeca e ponteados de viola analisa figuras de estilo, procedimentos de composição, formas e gêneros presentes no repertório, além de recuperar as circunstâncias que determinaram a instrumentação adotada pelos primeiros grupos ligados ao Movimento Armorial.

Um dos pontos examinados é a divergência surgida em torno da Orquestra Armorial. A exclusão de instrumentos populares, uma sonoridade ainda fortemente ligada ao barroco e o caráter menos intimista da formação provocaram uma discordância pública entre Ariano Suassuna e integrantes de destaque do conjunto.

A partir dessas diferenças, Suassuna reuniu músicos mais jovens e participou da formação do Quinteto Armorial, cuja configuração se aproximava de suas expectativas estéticas e incorporava referências sonoras renascentistas. Orquestra e Quinteto estabeleceriam, assim, duas vertentes importantes para o desenvolvimento da música vinculada ao movimento.

O livro mostra, entretanto, que essas experiências não foram as únicas tentativas de produzir uma sonoridade identificada como armorial. A discografia criada em torno dos dois grupos contribuiu para transformá-los em paradigmas, diante dos quais compositores e formações instrumentais posteriores passaram a estabelecer diferentes relações — aproximando-se, afastando-se ou procurando conciliar elementos dessas referências. Segundo o estudo, uma mudança conceitual mais significativa ocorre na virada do século. A partir daí, surge uma questão que permanece aberta: os parâmetros da música armorial estariam efetivamente se expandindo ou seus elementos passaram a ser incorporados a outras matrizes musicais? Em vez de encerrar essa discussão, Amaral convida o leitor a participar dela. Para isso, o ensaio apresenta uma extensa relação de obras, buscando estabelecer um inventário catalográfico de uma produção que atravessou diferentes períodos, formações e propostas estéticas.



Jornalista formado pela UFPE, Carlos Eduardo Amaral atua como pesquisador, crítico musical, escritor, compositor e arranjador. Colabora com a revista Continente desde 2006 e coordena atualmente o projeto Música na APL, na Academia Pernambucana de Letras. Em 2022, recebeu a Medalha Biblioteca Nacional – Ordem do Mérito do Livro, por suas contribuições à cultura brasileira. Como pesquisador, teve trabalhos premiados pela Funarte, pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Joaquim Nabuco. Sua produção como compositor reúne mais de 30 obras para orquestra sinfônica e formações de câmara. Na literatura, publicou pela Cepe Editora biografias dedicadas aos compositores Clóvis Pereira, Maestro Formiga, Maestro Duda, Getúlio Cavalcanti e Jota Michiles. Recentemente, lançou também SaGrama: um álbum por escrito, publicação comemorativa dos 30 anos de trajetória do grupo.

SERVIÇO

Lançamento de À guisa de arcadas de rabeca e ponteados de viola: ensaio sobre a música armorial
Autor: Carlos Eduardo Amaral
Data: 15 de agosto de 2026 (sábado)
Horário: 15h
Local: Academia Pernambucana de Letras – Av. Rui Barbosa, 1596, Graças, Recife
(acesso pela Av. Dr. Malaquias)

Entrada: gratuita, sujeita à lotação do auditório

Livro: distribuição gratuita de tiragem limitada, mediante reserva prévia pelo formulário disponibilizado pelo projeto. Clica aqui
Incentivo: Funcultura / Fundarpe / Secretaria de Cultura / Governo de Pernambuco