Rio de Clarice revisita a obra de Clarice Lispector pelo olhar de cinco diretoras


Longa reúne Maria Luiza Aboim, Eunice Gutman, Nicole Allgranti, Taciana Oliveira e Barbara Kahane na direção de cinco histórias de Clarice Lispector; filme tem pré-estreia no Rio em 12 de agosto e estreia nacional no dia 13

A literatura de Clarice Lispector sempre representou um desafio particular para o cinema. Em uma obra na qual os conflitos se desenvolvem, muitas vezes, no interior das personagens, adaptar significa encontrar uma forma visual para aquilo que a palavra revela através do pensamento, da percepção e das rupturas provocadas por acontecimentos cotidianos. Não por acaso, as adaptações de seus textos realizadas ao longo das últimas décadas seguiram caminhos bastante distintos, destacando tanto a riqueza desse universo literário quanto a dificuldade de transpor para a tela uma escrita sustentada menos pela ação do que pela experiência subjetiva.

Um dos marcos dessa relação é A Hora da Estrela, adaptação dirigida por Suzana Amaral em 1985, com Marcélia Cartaxo no papel de Macabéa. O filme tornou-se uma das mais reconhecidas transposições da escritora para as telas e rendeu à atriz o Urso de Prata no Festival de Berlim. Mais recentemente, obras como O Livro dos Prazeres, de Marcela Lordy, e A Paixão Segundo G.H., de Luiz Fernando Carvalho, retomaram esse diálogo, cada uma procurando caminhos próprios para transformar a experiência literária clariceana em imagem, corpo, espaço e som.

É nessa trajetória de aproximações entre literatura e cinema que chega às salas brasileiras Rio de Clarice, longa-metragem que reúne cinco histórias da escritora dirigidas por cinco cineastas: Maria Luiza Aboim, Eunice Gutman, Nicole Allgranti, Taciana Oliveira e Barbara Kahane. O filme terá uma pré-estreia no Estação Claro Rio, no dia 12 de agosto, e estreia nacionalmente no dia 13, com distribuição da Bretz Filmes.

Com 81 minutos de duração e cerca de 20 atores e atrizes no elenco, o longa reúne histórias independentes que retomam questões recorrentes na literatura de Clarice: relações familiares, desejo, solidão e violência. Em comum, os episódios apresentam personagens confrontadas por acontecimentos capazes de romper a aparente normalidade do cotidiano e modificar a percepção de si mesmas e do mundo ao redor. O roteiro é assinado por Nicole Allgranti, sobrinha-neta da escritora e responsável também pela direção geral, e Teresa Montero, biógrafa e pesquisadora. A produção é da Taboca Produções Artísticas e da Aboim Produções e Artes, com produção executiva de Lilly Clark.

Sob a direção de Maria Luiza Aboim, Feliz Aniversário acompanha a comemoração dos 89 anos de Dona Anita. O encontro familiar, aparentemente festivo, expõe ressentimentos e hipocrisias entre filhos, noras, genros e netos, revelando a solidão da personagem e a fragilidade das relações que a cercam. O elenco principal reúne Louise Cardoso, Lucélia Santos, Madhia, Luiz Octavio Moraes, Ana Chagas, Luiz Ramalho e Ilana Pogrebinschi.

Em Mal-estar de um Anjo, dirigido por Eunice Gutman, a personagem Anjo deixa uma sessão com seu psicanalista e, sob forte chuva, entra em um táxi. A viagem muda quando uma mulher pede carona e passa a interferir no itinerário, dando início a um conflito psicológico. Letícia Spiller, Gabrielle Farias, Dora Pellegrino e Bruno Barbosa estão no elenco principal.

Nicole Allgranti dirige A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais, história protagonizada por Carla de Souza Campos, uma mulher rica e infeliz no casamento. Após um imprevisto com o motorista, ela acaba em uma rodoviária e, ao perder o celular, fica momentaneamente apartada do universo de privilégios ao qual pertence. O encontro com uma mulher em situação de pobreza coloca frente a frente realidades sociais distintas. O segmento tem Guida Vianna, Letícia Isnard e Freddy Assis Ribeiro no elenco.

Amor, dirigido por Taciana Oliveira, acompanha Hanna, uma mulher dedicada à família e presa à rotina. Durante uma viagem de bonde, a visão de um homem cego provoca uma ruptura em seu cotidiano. Depois de perder o ponto, ela chega a um parque, onde o contato com a natureza desencadeia uma experiência de autodescoberta. Nesta adaptação, a narrativa é transposta para o contexto de uma família judaica ortodoxa. Bia Sion e Julio Levy protagonizam o segmento.

Fechando o conjunto, Barbara Kahane dirige Preciosidade. A história acompanha uma jovem criada pela empregada diante da ausência constante do pai. Durante o caminho para a escola, ela sofre um assédio e é confrontada com uma experiência de violência que interfere em seu processo de amadurecimento. Karolyna Mendes, Duaia Assumpção, Hugo Bonèmer e Flávio Bauraqui integram o elenco principal.

Ao reunir cinco realizadoras em torno de diferentes textos, Rio de Clarice não procura estabelecer uma única tradução cinematográfica para o universo da escritora. A estrutura fragmentada permite que cada segmento encontre sua própria relação com a palavra, o corpo e a interioridade das personagens. A estrutura também revela um dos principais desafios de levar Clarice Lispector ao audiovisual: não basta transpor enredos ou reproduzir situações presentes nos textos. O cinema precisa encontrar seus próprios recursos para preservar a densidade psicológica, as ambiguidades e as inquietações que definem a escrita da autora.

SERVIÇO

Rio de Clarice
Pré-estreia: 12 de agosto de 2026, no Estação Claro Rio
Estreia nacional: 13 de agosto de 2026
Direção: Maria Luiza Aboim, Eunice Gutman, Nicole Allgranti, Taciana Oliveira e Barbara Kahane
Roteiro: Nicole Allgranti e Teresa Montero
Produção: Aboim Produções e Artes e Taboca Produções Artísticas
Distribuição: Bretz Filmes
Duração: 81 minutos