por Taciana Oliveira |
Em seu primeiro livro em prosa, Paula Valéria Andrade reúne contos sobre solidão, violência, morte e desigualdades, em uma escrita híbrida que transita pela poesia, pela dramaturgia e pelo cinema.
Uma ravina é uma fenda aberta no terreno pela ação persistente da água. Em Ravinas! (Toma Aí Um Poema, 2026), de Paula Valéria Andrade, essa imagem assume linguagem literária e conduz o olhar para as fissuras do cotidiano. É nelas que a autora situa personagens confrontados pela solidão, pelo abandono, pela violência, pelas desigualdades e pela morte, revelando existências que seguem adiante mesmo quando aquilo que parecia seguro começa a ceder.
Publicado em 2026, a obra é apresentada como o primeiro livro em prosa da autora, que já possui uma trajetória ligada à poesia e às artes visuais. A própria organização da obra, entretanto, mostra que a passagem para a prosa não significa o abandono das outras linguagens. Maria Valéria Rezende, no texto de abertura, chama atenção justamente para essa característica: identifica no livro prosa, mas também poesia, dramaturgia, concepção de cenário e elementos de roteiro cinematográfico.
O diálogo entre diferentes linguagens é uma das características que singularizam a coletânea. A autora se afasta de uma estrutura rígida do conto e explora diferentes possibilidades narrativas. Diálogos, indicações de espaço e atmosfera, cortes abruptos, repetições e frases curtas imprimem ritmo e visualidade aos textos. Em algumas passagens, a construção das imagens e das cenas cria uma relação direta com a dramaturgia e a linguagem cinematográfica, como se a palavra escrita pudesse, a qualquer momento, alcançar o palco ou a tela.
A estrutura do livro acompanha essa diversidade de formas. Ravinas! divide-se em dois grandes conjuntos, "Elas | Rotas de Passagem" e "Eles | Percursos". O primeiro reúne Noturna passagem, Desamor indigesto, A casa e o tempo, O escangalho, Limiar trágico da existência e Odo-Cangá!; o segundo traz Assalto sobressalto, Assombro, Impacto, Papas & Padre e Dormindo com urubus. Os textos também se vinculam a espaços e situações — casa, elevador, ônibus, deserto, trem, velório, pacto e cárcere — que delimitam diferentes cenários, experiências e ajudam a compor a cartografia sugerida pelo próprio livro.
Logo na abertura, uma epígrafe retirada do Canto V do “Inferno”, de Dante Alighieri, apresenta almas lançadas do alto de uma ravina. A escolha ajuda a compreender a atmosfera que permeia o livro. As personagens de Paula Valéria vivem à beira de diferentes fissuras, quase sempre inscritas em situações reconhecíveis do cotidiano: uma casa em ruínas, um elevador, um trem lotado, a periferia, um velório, a prisão, a doença ou relações familiares atravessadas por conflitos.O extraordinário, aqui, não está distante da realidade. É no cotidiano, em situações aparentemente comuns, que surgem o estranhamento, a tensão e a ameaça.
Em “Noturna passagem”, a morte atravessa a intimidade de um casal durante a pandemia. Uma mulher de 70 anos adormece abraçada ao companheiro e não desperta. Ao redor dessa perda, estão a quarentena, o medo, as notícias sobre o avanço da doença e o negacionismo. Paula Valéria traz para o íntimo a dimensão coletiva da crise sanitária: por trás das estatísticas, há vidas interrompidas; no lugar de uma ideia abstrata de morte, permanece uma cama marcada pela ausência.
“A casa e o tempo” aborda a perda a partir da deterioração de uma residência. Paredes mofadas, retratos, livros estragados, vidros quebrados, ferrugem, entulho e objetos acumulados compõem um inventário no qual a degradação do espaço acompanha a passagem do tempo. No desfecho, o jardim convertido em estacionamento de cimento acrescenta outra camada à narrativa: não são apenas as lembranças que se transformam, mas também os lugares que um dia as abrigaram.
A casa deixa, assim, de cumprir apenas a função de cenário e passa a guardar marcas de vidas, ausências e mudanças. Essa relação entre espaço e memória reaparece em diferentes momentos de Ravinas!, onde os lugares conservam vestígios daqueles que os habitaram ou atravessaram.
O aprisionamento aparece repetidamente na coletânea e assume diferentes formas. Em “O escangalho”, uma executiva fica presa em um elevador carregada de sacolas. A situação cotidiana vai se transformando em crise. Sem sinal no celular e incapaz de cumprir compromissos profissionais, responder mensagens ou controlar a agenda, ela é obrigada a permanecer imóvel em uma vida organizada justamente em torno da velocidade e da produtividade. As sacolas deixam de ser simples objetos. Aos poucos, roupas e mercadorias ocupam o pequeno espaço até sufocá-la. A personagem veste compulsivamente as peças que carregava, aumenta de volume e termina imobilizada pelo próprio excesso. O conto faz do absurdo uma crítica ao consumo, à vida profissional automatizada e à necessidade permanente de conexão.
O prólogo apresenta a solidão e a impermanência como duas tragédias da existência e descreve o corpo enquanto prisão que delimita onde e quando existimos. Essa perspectiva se manifesta em outros contos de Ravinas!, nos quais o aprisionamento assume diferentes formas: físicas, econômicas, sociais, familiares e subjetivas.
A cidade assume papel relevante em Ravinas!. Paula Valéria Andrade observa seus espaços de circulação e direciona a atenção para personagens e realidades que convivem no mesmo território, mas nem sempre são percebidos com a mesma visibilidade. Em “Limiar trágico da existência”, a narradora chega à Cidade de Deus e entra na casa de Madalena da Cruz, costureira que sustenta uma família numerosa em um único cômodo. A cena provoca um contraste com a realidade de um quarto na Gávea, onde uma adolescente reclamava da falta de espaço para guardar suas coisas. Entre os dois endereços, a autora destaca distâncias que não são apenas geográficas: o Rio de Janeiro emerge como uma cidade de contrastes, em que a proximidade geográfica convive com profundas distâncias sociais.
Já "Assalto sobressalto" leva o leitor para um trem lotado e para as proximidades da Cracolândia. O diálogo entre um homem e um policial começa após a morte de outro homem na estação e rapidamente se transforma em interrogatório. A suspeita, o medo, os preconceitos e a violência urbana aparecem sem que a narrativa ofereça uma zona confortável.
A autora dedica atenção especial às margens, que em Ravinas! ultrapassam os limites geográficos e alcançam também as relações sociais.
A escrita de Paula Valéria Andrade encontra nos diálogos um de seus principais recursos narrativos. Ela observa no texto de abertura que eles não dizem tudo: o leitor precisa imaginar os corpos, rostos e gestos que completariam aquilo que as palavras deixam em suspenso. As próprias frestas tipográficas e os parênteses são relacionados por ela às “ravinas” sugeridas pelo título.
Essa característica se torna especialmente perceptível em “Papas & Padre”, cuja estrutura se aproxima da dramaturgia. Personagens identificados antes das falas, indicações de cenário, pausas, movimentos e mudanças de luz conduzem uma narrativa construída a partir de sucessivos confrontos. Marco tenta reconstruir, tardiamente, a relação com o filho Beto, ao mesmo tempo em que carrega as marcas de uma convivência conflituosa e violenta com o próprio pai. O desejo de exercer a paternidade de outra maneira, porém, esbarra na dificuldade de compreender o filho e acaba por repetir comportamentos que pretendia deixar para trás. A relação entre pai, filho e neto revela, assim, um ciclo de conflitos entre gerações, no qual amor, ressentimento, abandono e violência se repetem sob diferentes formas.
Em “Assombro”, a morte se encontra com o humor agridoce e a crítica à exposição da intimidade. O velório de um cineasta famoso transforma-se em acontecimento midiático, tomado por fotografias, redes sociais e homenagens nem sempre desinteressadas. Nesse cenário, o próprio morto parece reclamar para si o direito de narrar a própria história, colocando em dúvida as versões construídas sobre sua vida e sua memória.
Um dos contos que melhor sintetiza a relação entre queda, confinamento e busca por liberdade presente em Ravinas! é “Dormindo com urubus”. Após passar trinta anos confinado em uma solitária, Nenê encontra Zuza, que vive nas ruas, e descobre uma forma inesperada de liberdade em um terreno tomado por lixo e sucata. Aquilo que poderia representar abandono e degradação adquire outro sentido para quem passou décadas entre paredes: há céu, estrelas, luz e, sobretudo, a possibilidade de caminhar. No desfecho, Nenê se proclama um “Ícaro do asfalto”, abre os braços, imitando asas sobre o entulho, ensaia um voo e cai na lama. A liberdade não se apresenta enquanto redenção; está na recuperação de algo que o cárcere lhe negara por tantos anos: o horizonte, o movimento e a possibilidade de voltar a olhar para o céu.
É nesse terreno instável que os diferentes contos de Ravinas! encontram um elo. Paula Valéria Andrade coloca seus personagens diante de situações-limite, entre presença e ausência, liberdade e confinamento, excesso e falta, memória e esquecimento, pertencimento e abandono. A diversidade também se manifesta na forma: a prosa se abre à poesia, à dramaturgia, ao roteiro e às artes visuais, acompanhando as diferentes maneiras pelas quais essas histórias são narradas. No texto de abertura, ela observa que o livro convida o leitor a completar aquilo que permanece oculto e situa suas histórias na “permeável fronteira entre memória e invenção”. A ravina deixa, então, de representar apenas a possibilidade da queda. Torna-se também uma abertura pela qual se revelam as camadas de vidas expostas ao tempo, às perdas, às desigualdades e às escolhas. Paula Valéria Andrade dirige o olhar e faz dessas brechas um lugar de reflexão sobre as fragilidades e contradições da existência.
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Paula Valéria Andrade é poeta, escritora, designer, curadora, artista visual e audiovisual, professora de pós-graduação em cinema e responsável pela produção de 22 filmes. Formada em Filosofia, Comunicação, Design e Marketing, com MBA pela FGV-SP, atuou no Brasil e no exterior, tendo assinado a direção de arte, cenografia e figurino de 70 peças de teatro entre São Paulo e São Francisco (Califórnia). Autora de mais de 30 livros — transitando entre poesia contemporânea, visual e transmídia, literatura infantil, didáticos educacionais e contos —, é premiada no Brasil (Jabuti e APCA) e no exterior (Portugal, Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos), com obras presentes em festivais e feiras como a Feira do Livro de Frankfurt e o Festival de Poesia de Lisboa. Desde 2017, é idealizadora e curadora do Coletivo Feminino Infinito, dedicado à valorização de escritoras e artistas brasileiras.
*Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas

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