Trecho do livro Nada Exemplar, de Angella Saturnino

 


O Meu Amor Ofende 

Já não me dói a solidão. Porque já não sinto mais nada, nem mereço sentir.  O suficiente já ultrapassou o meu corpo, e eu sei que devo agradecer. A água que  correu meu corpo, a terra que corroeu meu pés, o ar que me tirou o perfume, o fogo  que queimou meu peito. Eu vi no vazio a possibilidade, nela me agarrei, depois de  preencher tudo perdi a serventia.  

Me despejaram do espaço que eu preenchi, já não me cabia. A antropofagia  me faz querer comer meu coração, até desbotar do meu corpo toda a cor. E quando  o sangue das minhas mãos secarem, meus lábios perderem as forças, meu  coração alimentará minha fome. 

Eles me disseram coisas, que já estou acostumada a ouvir. Elas me jogaram  flores, que não costumo receber. Um corpo, um coração, sangue. Minha  humanidade depende da morte, meus esforços estão fadados às histórias  contadas pelos outros, nunca poderei eu mesma contá-las. O silêncio me cerca e  me impede de dizer. 

Só ganhei o direito de morrer, e para que seja menos doloroso. Decidi  adiantar o processo, do meu coração serei predadora. Eu busquei amigos iguais,  acreditando estar fazendo diferente. Eu encontrei amores unilaterais, acreditando  estar preenchida. Eu não nasci para o amor, o amor não nasceu para o meu apreço.  

Meu coração só pode ser banquete. Engoli o choro e aguentei o desaforo. Os  vi vociferar insultos, senti-me exposta em vários momentos. A vulnerabilidade me  deixa trêmula, essa semana me trouxe uma apatia inexplicável. Não é exagero dizer  que: até o meu amor ofende.




Angella Saturnino nasceu em Itainópolis, no Piauí, em 2003. Desde a adolescência, concilia a escrita com sua formação acadêmica, transformando vivências e questões do cotidiano em inspiração para sua produção literária. Em 2023, ingressou no curso de Letras – Português da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Campus de Picos, onde aprofundou seus estudos em literatura. Seu livro de estreia, Nada Exemplar, começou a ser escrito entre 2021 e 2022, durante seu processo de transição de gênero, e foi publicado em 2026 pela editora A Arte da Palavra. A obra revela uma escrita orientada pela liberdade formal e pela elaboração literária de experiências pessoais. .