![]() |
| Fotografias de Carlos Monteiro |
A solidão das coisas
Há coisas
que parecem nascer para a solidão. Uma cadeira vazia diante da janela. Um copo
esquecido sobre a mesa. Um barco afastando-se devagar da areia. Mas talvez a
solidão seja apenas uma maneira diferente de estar acompanhado. No Rio, até o
silêncio encontra companhia.
Basta um
homem velejando sozinho pela Baía de Guanabara. Pequeno diante da imensidão
azul. A vela branca recortando o horizonte. O vento conduzindo o barco como
quem conhece o caminho. Ele vai só. Mas não está sozinho. Tem o mar. Tem o céu
e tem o Rio. A cidade observa.
Do alto
do Corcovado, o Cristo parece guardar aquele pequeno velejador. O Pão de Açúcar
acompanha a travessia. As montanhas fazem moldura. E a solidão ganha outra
dimensão. É quase uma conversa sem palavras. No Leblon, outro solitário entra
no mar. As ondas estão agitadas. Brutas. Bonitas. Ele nada contra elas. Braçada
após braçada. A cidade permanece na areia, olhando. Os edifícios parecem
espectadores silenciosos. O Dois Irmãos, ao fundo, é testemunha. O nadador está
sozinho dentro daquela água inquieta. Mas o Rio nada com ele. Há uma beleza
particular nos gestos solitários. O kitesurfista que corre pela areia, segura a
pipa e deixa o vento levá-lo. Por alguns segundos, parece voar. O praticante de
asa-delta que se lança da Pedra Bonita. Primeiro, o salto. Depois, o silêncio.
Lá
embaixo, o Rio se abre inteiro. Praias. Montanhas. Lagoas. Florestas. A cidade
que, vista de cima, parece menos apressada. Menos barulhenta. Quase uma maquete
construída pela natureza para lembrar ao homem que ele é pequeno. O paraglider
também conhece essa sensação. Planando. Flutuando. Suspenso entre o céu e o
mar. Sozinho. Completamente sozinho. E, ao mesmo tempo, acompanhado por uma
cidade inteira. Talvez seja esse o segredo do Rio. Aqui, ninguém está realmente
sozinho. Há sempre uma paisagem por perto. Uma montanha. Uma árvore. Uma nuvem.
Uma gaivota atravessando o enquadramento. Um raio de sol pousando sobre o mar. Até
os objetos têm sua própria solidão. Uma prancha encostada na areia depois do
último mergulho. Uma bicicleta esquecida junto ao calçadão. Um banco vazio
diante do oceano.
Um barco
amarrado no cais, balançando lentamente, como se ainda sonhasse com o próximo
destino. O fotógrafo entende essas coisas. Porque fotografa justamente aquilo
que parece não pedir fotografia. Um instante. Uma ausência. Uma espera. A
beleza escondida no que permanece quieto enquanto o mundo passa. Talvez a
solidão não seja ausência. Talvez seja presença em estado puro. Quando estamos
sós, percebemos melhor o vento. O som das ondas. A mudança da luz. O cheiro da
maresia. O desenho das montanhas. E percebemos a cidade. O Rio torna-se
companheiro. Não fala. Não pergunta. Não exige. Apenas está. Está quando o sol
nasce atrás das montanhas. Está quando a tarde dourada toca os prédios. Está
quando o mar escurece e as primeiras luzes se acendem na orla. Por isso, quem
veleja sozinho, nada sozinho ou voa sozinho talvez esteja apenas experimentando
outra forma de companhia.
A melhor delas. Aquela que não precisa de palavras. Porque há momentos em que basta olhar ao redor. E descobrir que a cidade maravilhosa está ali. Sempre ali. Tal qual uma velha amiga, uma fotografia que nunca se repete, uma companheira silenciosa para todas as nossas pequenas e belas solidões.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.






.png=w352-h352-p-k-no-nu)
Redes Sociais