Adélio Sarro transforma obras em experiências táteis para pessoas com deficiência visual

Memorial de Arte Adélio Sarro

Projeto Arte Acesso, em Vinhedo, reúne trabalhos com relevos e textos em braille e busca ampliar a acessibilidade às artes visuais

Em um espaço em que tocar a obra não apenas é permitido, mas faz parte da experiência artística, o pintor e escultor Adélio Sarro desenvolve uma proposta voltada à inclusão de pessoas com deficiência visual. Instalado no Memorial de Arte Adélio Sarro, em Vinhedo, no interior de São Paulo, o projeto Arte Acesso reúne trabalhos concebidos para serem percebidos por meio do tato.

Conhecido pelo uso de formas geométricas, cores vibrantes e elementos ligados ao expressionismo, Sarro adaptou características de sua linguagem para superfícies em alto-relevo, produzidas com materiais como resina, pó de mármore e tecidos. As obras são acompanhadas por textos em braille, permitindo que visitantes com deficiência visual reconheçam formas e elementos das composições com maior autonomia. A iniciativa chama atenção para uma lacuna ainda presente nas instituições culturais brasileiras. Segundo dados da pesquisa TIC Cultura 2024, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), apenas 20% dos museus do país oferecem algum recurso de acessibilidade. O cenário ganha dimensão diante dos números apresentados pelo IBGE: o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, sendo a dificuldade visual a mais frequente, alcançando 7,9 milhões de pessoas.

O Memorial de Arte Adélio Sarro, inaugurado em 2018, ocupa um complexo de 2 mil metros quadrados e mantém uma coleção permanente de oito obras táteis. A proposta de aproximar fisicamente público e criação, porém, ultrapassa o espaço expositivo. Ao longo de mais de cinco décadas de produção, Sarro também realizou monumentos e esculturas públicas concebidos para permitir o contato direto. Segundo informações divulgadas pelo artista, sua produção ultrapassa 2,2 mil esculturas e inclui mais de 300 monumentos instalados no Brasil e no exterior.

Para Sarro, retirar a barreira física entre visitante e obra está relacionado à própria compreensão da arte como direito.

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A arte é um direito fundamental do ser humano, independente de qualquer condição física ou visual, afirma.

O artista explica que o projeto nasceu da intenção de oferecer uma percepção da obra que não dependa exclusivamente da visão. “O projeto nasceu do desejo de que o visitante consiga reconhecer em cada relevo a mesma emoção que os olhos capturam”, diz.

Com 54 anos dedicados às artes visuais, Adélio Sarro desenvolveu uma produção marcada por pintura, escultura e obras monumentais. Seus trabalhos já participaram de exposições em diferentes países da Europa, além de Rússia, China, Singapura, Austrália, Estados Unidos e países da América Latina.

Sua obra combina referências da tradição clássica com uma linguagem marcada por formas geométricas e cores intensas, além de abordar questões sociais brasileiras.

O Memorial de Arte Adélio Sarro foi criado em Vinhedo como uma iniciativa privada destinada à preservação e apresentação de sua produção. O artista também assina o Museu Subaquático, no Guarujá, experiência que leva esculturas para um ambiente submerso.