Está Y no Está: Análise de um poema em prosa de Geoyelis Suset Sanches Mendoza

 


ESTÁ Y NO ESTÁ: ANÁLISE DE UM POEMA EM PROSA DE GEOYELIS SUSET SANCHES MENDOZA


RESUMO: Este artigo propõe uma análise do poema em prosa Está y no está, da escritora venezuelana Geoyelis Suset Sánchez Mendoza, publicado na plataforma Poeticous. A investigação fundamenta-se na díade forma–conteúdo, conforme formulada por Antonio Candido (2023), compreendendo o texto literário como um artefato estético que articula procedimentos formais e circunstâncias históricas, sociais e existenciais. A análise detém-se sobre três eixos principais: os aspectos formais do poema em prosa, a temática central desenvolvida pela voz lírica e a tonalidade e atmosfera resultantes da interação entre linguagem, imagens e ritmo. Observa-se que o texto constrói uma forte carga imagética a partir de um léxico marcado por ruína, frieza, dor e fragmentação, recorrendo a metáforas corporais, antíteses e imagens de queda para traduzir uma experiência afetiva de desamor e abandono. Contudo, tal experiência não se restringe ao plano íntimo, projetando-se também como expressão simbólica de uma condição mais ampla de vulnerabilidade feminina. Nesse sentido, o poema estabelece um diálogo implícito com o contexto de instabilidade social e política da Venezuela contemporânea, no qual a precariedade e o desamparo atravessam tanto o corpo quanto a subjetividade. Defende-se, assim, que a forma poética potencializa a fusão entre sofrimento individual e experiência coletiva, convertendo a dor amorosa em linguagem estética e crítica. O poema evidencia como a escrita feminina pode transformar a ruína em matéria poética, afirmando-se não pela estabilidade, mas pela capacidade de nomear o colapso e produzir sentido a partir dele.

Palavras-chave: poema em prosa; ruína; desamor; vulnerabilidade.

1.INTRODUÇÃO

Este artigo se propõe a analisar o poema em prosa Está y no está, da escritora venezuelana Geoyelis Suset Sánchez Mendoza, publicado no site Poeticus. A autora em questão nasceu em 23 de junho de 2000, em Valência, Venezuela, atualmente estuda História na Universidade Nacional Experimental Rafael María Baralt. Ao longo de seus 24 anos, cultivou uma profunda paixão pela leitura e pela escrita. Desde 2015, tem se dedicado à poesia sombria, ao existencialismo e ao niilismo. Inspira-se nas obras de filósofos como Immanuel Kant e Friedrich Nietzsche, bem como na influência da renomada poeta contemporânea Alejandra Pizarnik. (Cf. MENDOZA, 2024, s.p.).

Para tanto, emprego análise literária levando em conta, sobretudo, a díade forma-conteúdo. Minha abordagem parte da reflexão estabelecida em Candido (2023), segundo o qual a forma do texto literário encontra-se vinculada não apenas aos seus propósitos estéticos stricto sensu como emulam as questões inerentes ao tempo, espaço e cultura nos quais o sujeito que escreve se vê inserido. 

2.DESENVOLVIMENTO

Abaixo reproduzo o texto alvo de minha análise. 

Está y no está

La frialdad de su desamor

En las penumbras me derrumbé, suplicando por su regreso. Torturé mis pensamientos, imaginando nuestros recuerdos; aquellos que yacían quebrantados sobre el pavimento.

Deseé que me abrazara, pero no existían tales sentimientos, como para desnudar mi alma y embriagarme con sus besos. Caminé descalza sobre clavos de hierro; donde finalmente comprendí, que nunca formó parte de mi universo (MENDOZA, s.d., s.n.).

Nas seções seguintes, me detenho sobre os elementos centrais do conto em questão. Estão estas divididas em três partes: a) aspectos formais, na qual analiso os procedimentos estéticos empregados no texto; b) temática central, na qual exploro o conteúdo abordado no texto e c) tonalidade e atmosfera, na qual busco analisar os efeitos estéticos resultantes dos procedimentos técnicos e suas (possíveis) implicações e intencionalidades. 

2.1 ASPECTOS FORMAIS

O texto analisado insere-se no gênero da prosa poética, caracterizada por um forte lirismo, ritmo particular e imagens intensas. Sua estrutura organiza-se em três blocos de imagens: a primeira parte apresenta a queda e a súplica, revelando a dimensão de fragilidade do sujeito lírico; a segunda concentra-se na evocação de lembranças, que se apresentam como fragmentos de uma memória dolorosa; e, por fim, a terceira conduz à compreensão da perda, encerrando-se em um tom de resignação amarga.

A linguagem utilizada é densa e subjetiva, marcada pelo uso recorrente de metáforas e hipérboles que ampliam a dimensão emotiva do relato. O ritmo, por sua vez, é cadenciado pela pontuação — sobretudo vírgulas e ponto e vírgula —, que instauram pausas meditativas e reforçam o caráter confessional da voz narrativa.

No âmbito das figuras de linguagem, destacam-se, sobretudo:

a. Metáfora, como em “Caminé descalza sobre clavos de hierro”, que traduz em imagem física a dor da experiência afetiva;

b. Hipérbole, na intensificação do sofrimento, representado como tortura mental e emocional;

c. Metonímia imagética, presente em “recuerdos quebrantados sobre el pavimento”, que concretiza de modo visual e palpável a ruptura interior;

d. Antítese, marcada pelo contraste entre o desejo de afeto e o frio distanciamento do outro.

Assim, o texto constrói uma atmosfera de introspecção e dor, em que a voz narrativa se debate entre a memória e o vazio, deixando que a experiência afetiva se converta em imagem estética. Ademais, é mister assinalar que, seguindo a perspectiva de Onofrio (1995), as eleições lexicais são essenciais na construção do sentido poético. Por essa razão, abaixo apresento o levantamento numérico das palavras e suas respectivas classes empregadas no texto.

Quadro 1-levantamento de classes de palavras empregadas

Categoria

Ocorrências (exemplos)

Quantidade

Verbos

derrumbé, suplicando, torturé, imaginando, yacían, quebrantados (particípio verbal), deseé, abrazara, existían, desnudar, embriagarme, caminé, comprendí, formó

14

Nomes (substantivos)

frialdad, desamor, penumbras, regreso, pensamientos, recuerdos, pavimento, alma, besos, clavos, hierro, universo

12

Adjetivos

quebrantados, tales, descalza, mi (possessivo, valor adjetival), su (idem)

5

Advérbios

finalmente, nunca

2

Fonte: elaboração da autora

Ainda em conformidade com Onofrio (1995), vale pontuar que a predominância de verbos (14 ocorrências) e substantivos (12 ocorrências) revela o caráter narrativo do poema em prosa. O texto, embora liricamente marcado, estrutura-se como uma sequência de ações e percepções em movimento, o que o aproxima da lógica do microconto. Os verbos não apenas descrevem acontecimentos (derrumbé, caminé, comprendí), mas traduzem a progressão de estados afetivos — da queda e do desespero até a compreensão final.

Os substantivos consolidam a dimensão imagética do poema. Termos como penumbras, pavimento, clavos e hierro constroem um campo semântico de frieza, dureza e desolação, reforçando a atmosfera sombria. Já palavras como alma e besos introduzem um léxico intimista, de ordem afetiva, em contraste com a materialidade fria do cenário, o que potencializa o efeito da antítese.

Os adjetivos e advérbios, em número reduzido, cumprem papel de intensificação. Os adjetivos qualificam os substantivos de modo a ampliar sua carga emotiva (quebrantados, descalza), enquanto os advérbios (finalmente, nunca) marcam a temporalidade subjetiva, ligando dor e revelação ao eixo da memória e da ausência definitiva.

Assim, a distribuição das classes gramaticais não é aleatória: a abundância de verbos e substantivos imprime dinamismo e concretude à experiência narrada, enquanto a parcimônia de adjetivos e advérbios garante concisão e foco, evitando excessos descritivos. Esse equilíbrio entre ação, imagem e intensificação contribui para a densidade estética do poema e reforça a fusão entre lirismo e narratividade.

2.2 TEMÁTICA CENTRAL

O texto pode ser compreendido a partir de quatro eixos temáticos fundamentais. Em primeiro lugar, emerge o desamor e a ausência, já que a narrativa parte da constatação da frieza do outro e do vazio afetivo instaurado pela indiferença. Essa constatação conduz ao segundo eixo: a dor interior, pois o eu lírico vivencia o amor não correspondido como uma experiência de tortura existencial, que ultrapassa o plano emocional e adquire intensidade quase física.

O terceiro eixo é o da memória e do desencanto, simbolizado pelos “recuerdos quebrantados”, que não apenas representam a perda, mas também a percepção de que o vínculo jamais se sustentou em bases autênticas, sendo, portanto, uma ilusão desfeita. Por fim, a narrativa culmina na descoberta e libertação, quando ocorre uma reviravolta: a compreensão de que o outro “nunca formó parte de mi universo”. Esse desfecho desloca o texto da dor para o campo do autoconhecimento, transformando a experiência amorosa frustrada em oportunidade de reconstrução subjetiva.

Quadro 2-levantamento de temas

Tema

Trechos/Exemplos do poema

Interpretação

Amor e desamor

“La frialdad de su desamor”

O amor aparece como ausência, marcado pela frieza e pela negação do afeto.

Dor e sofrimento

“En las penumbras me derrumbé”, “Caminé descalza sobre clavos de hierro”

O eu lírico expressa a dor emocional através de imagens corporais e físicas.

Memória e lembrança

“Imaginando nuestros recuerdos; aquellos que yacían quebrantados sobre el pavimento”

O passado amoroso é recordado como fragmentado, quebrado, impossível de restaurar.

Solidão e abandono

“suplicando por su regreso”, “que nunca formó parte de mi universo”

O sujeito lírico se vê só diante da ausência definitiva da pessoa amada.

Busca de sentido

“finalmente comprendí”

O poema culmina em uma revelação: compreender a não-pertença do outro ao seu universo.

Dualidade presença/ausência

(Título) “Está y no está”

Resume a tensão central: o ser amado existe como lembrança, mas não mais como presença real.


O poema Está y no está, de Geoyelis Suset Sánchez Mendoza, é atravessado pelo motivo da ruína, perceptível tanto no nível temático quanto na seleção lexical, algo característico em face à crise vigente no país nas últimas décadas (Cf. LACOUR, 2019) Os verbos escolhidos pela autora remetem a processos de queda, fratura e aniquilação: derrumbé, torturé, yacían, quebrantados, comprendí. Eles não apenas descrevem ações, mas sugerem um movimento contínuo de destruição e desgaste, como se a experiência narrada fosse marcada pela impossibilidade de sustentação.

Do mesmo modo, os substantivos reforçam esse campo semântico da ruína. Palavras como penumbras, pavimento, clavos, hierro, universo evocam dureza, escuridão e materialidade fria, aproximando o sentimento de dor amorosa a uma paisagem desolada, quase pós-catástrofe. O amor perdido não se apresenta como ausência simples, mas como algo que deixa escombros, resíduos quebrados sobre o chão: “recuerdos; aquellos que yacían quebrantados sobre el pavimento”. A memória se converte em fragmento, em resto.

Essa insistência em imagens de queda e fragmentação projeta uma voz lírica situada num espaço de vulnerabilidade radical. O corpo feminino, “descalzo sobre clavos de hierro”, é imagem da exposição a um ambiente hostil, sem proteção. Assim, a ruína se torna duplamente significativa: de um lado, representa o colapso da relação amorosa; de outro, sugere uma experiência existencial e social em que a precariedade é inevitável.

Ao estruturar o poema em torno desse léxico da ruína, a autora reforça a condição de vulnerabilidade feminina em meio ao desamparo. A ruína não é apenas cenário, mas também linguagem e matéria: o poema inteiro se constrói sobre restos, quedas e fragmentos. Isso cria uma estética de escombros, em que a voz lírica se afirma não pela estabilidade, mas pela capacidade de nomear o colapso.

2.3 TONALIDADE E ATMOSFERA: RELAÇÕES ENTRE FORMA E CONTEÚDO

O texto apresenta uma atmosfera sombria e melancólica, construída pelo ambiente de penumbras, imagens de queda e dor, que reforçam o peso emocional da experiência narrada. A escrita assume um tom confessional, funcionando como desabafo íntimo e catártico, em que o eu lírico expõe de forma direta e intensa suas feridas interiores. Nesse movimento, revela-se ainda uma profunda ambivalência emocional, marcada pela tensão entre o desejo de proximidade – expresso em imagens de abraço e beijos – e a frieza ou ausência do outro, que anula a expectativa de reciprocidade. Essa contradição sustenta a densidade lírica do texto, ao mesmo tempo em que projeta a oscilação entre esperança e desencanto, característica das experiências afetivas dilaceradas.

O poema Está y no está, de Geoyelis Suset Sánchez Mendoza, pode ser lido como expressão de uma experiência íntima, mas também como reflexo de um sentimento de vulnerabilidade que ultrapassa o âmbito pessoal e dialoga com o contexto social da Venezuela contemporânea. A escolha lexical é marcada por termos que evocam frio, escuridão e ruína — frialdad, penumbras, quebrantados, pavimento, clavos de hierro. Essas imagens constroem uma atmosfera de precariedade e dor, que não se restringe ao amor perdido, mas ressoa com a sensação de viver em um país em crise, onde a proteção e a estabilidade parecem ausentes.

O tema central do desamor, apresentado como frieza e abandono, ganha força simbólica quando relacionado à condição da mulher em meio ao caos político-social. A figura feminina que fala no poema se vê exposta, descalça, ferida por “clavos de hierro”, o que metaforicamente sugere uma travessia dolorosa e sem defesa diante das adversidades. Essa imagem intensifica a ideia de vulnerabilidade feminina: tanto no espaço íntimo das relações afetivas quanto no espaço público, em que o corpo e a existência ficam sujeitos às pressões da escassez, da instabilidade e da violência.

Além disso, a estrutura do poema, que alterna entre a memória de um amor quebrado e a constatação amarga da ausência definitiva, reflete a oscilação entre esperança e desengano. Essa oscilação não é apenas sentimental, mas representa também a experiência de mulheres em contextos de crise social, em que a expectativa de cuidado, pertencimento e segurança se desfaz diante da realidade. O título, Está y no está, sintetiza essa condição paradoxal: a promessa de amparo existe apenas como fantasma, mas não como presença efetiva.

Dessa forma, a forma poética — com suas metáforas de dor, a insistência em imagens de fragmentação e a escolha de um léxico marcado por dureza e frieza — projeta o sentimento de vulnerabilidade de uma mulher que, embora fale de desamor, traz em sua voz um eco coletivo. O poema articula, assim, a dimensão íntima e a dimensão social, tornando o corpo feminino metáfora da experiência de desproteção que atravessa a realidade venezuelana.


3.CONCLUSÃO

O poema em prosa apresenta uma estética existencial e dolorosa, na qual o desamor se manifesta por meio de imagens de tortura e destruição. A força do texto reside no contraste entre a intensidade do desejo e a negação da reciprocidade, que atravessa todo o discurso lírico. Essa tensão conduz a uma epifania: a constatação de que a ausência de sentimentos do outro significa que nunca houve pertencimento real. Tal desfecho não apenas encerra a narrativa da dor, mas também confere ao texto uma dimensão de despertar e autoconhecimento, em que a perda se transforma em libertação.


REFERÊNCIAS

CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. Todavia, 2023.

D'ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto: teoria da lírica e do drama. Editora Ática, 1995.

LACOUR, Carmen Victoria Vivas. Escribir en un país en ruinas: un panorama de la literatura venezolana actual. 2019.

MENDOZA, Geoyelis Suset Sánchez. Está y no está. Poeticous, [s.d.]. Disponível em: https://www.poeticous.com/geoyelis-suset-sanchez-mendoza/esta-y-no-esta?locale=es. Acesso em: 7 set. 2025.

MENDOZA, Geoyelis Suset Sánchez. Poesía internacional: Geoyelis Suset Sánchez Mendoza (Venezuela). Revista Kametsa. Disponível em: https://revistakametsa.wordpress.com/2024/10/08/poesia-internacional-geoyelis-suset-sanchez-mendoza-venezuela/. Acesso em: 10 nov. 2024. 




Ariel Montes Lima é mestre e doutoranda em Estudos de Linguagem (PPGEL-UFMt). Autora dos livros Poemas de Ariel (TAUP, 2022), Sínteses: Entre o Poético e o Filosófico (Worges Ed., 2022), Ensaios Sobre o Relativismo Linguístico (Arche, 2022), Poemas da Arcádia (Caravana, 2023), Silêncios: Duros Silêncios (Worges, 2024), O Inominado ou A Descoberta do Mundo (TAUP, 2024), Liberdades (2025), Contos Femininos (Worges, 2025) e Histórias do Casarão (Worges, 2025) e Os Odinokiov (sob pseudônimo de Cássia Frankl)