De vermelho é mais bonito - crônica de Luciana Pinto



Fui criança na ditadura militar e só vim entender o significado disso aos quase 30 anos, quando Luiz Felipe Botelho roteirizou e dirigiu o documentário “Crianças no  Furacão” para a Fundaj. Nele se colhiam depoimentos de pessoas que viveram a ditadura naquela fase da vida; suas reações, percepções, medos e ludicidade, que ora moldavam, ora salvavam o modo de ser de toda uma geração. Ali percebi que certos traços são meus, outros são da cultura política instaurada enquanto eu literalmente engatinhava nessa vida. 

Lá nos idos de 1975, eu estava no pré-escolar. Frequentava uma escolinha de bairro, no  Cordeiro, em Recife, que se chamava “Mundo do Mickey”. Por aí você já tira, né? E lembro  que, nessa escola, participei de algumas festinhas que tinham apresentações de dança,  algumas delas temáticas. Em uma dessas fui o mar. Não recordo como isso se definiu, mas  sei de mim, toda vaidosinha, carregando aquela imensidão nas saias de organza verde claro, com peixes de papel prateado pendurados. Uma linda memória. 

Chegou o encerramento do ano, e outro tema se anunciava: “a dança das bonecas”, e, com  o tema, os modelos das roupas, mimeografados com tinta roxa-carbono, em papel ofício  cheirando a álcool. Íamos usar vestidos curtos, monocromáticos, com babado e um  chapéu. No entanto, havia um condicionante de cores para os trajes: verde, amarelo, azul  e rosa (tem gente, hoje em dia, que estaria no auge da satisfação). 

Sim, senhoras e senhores, não tinha vermelho na cartela de cores possíveis para os  modelitos. Aí, o bicho pegou. Minha mãe, que matava e morria para  que eu participasse desses eventos, bradou em casa: "minha filha vai de vermelho, porque o vermelho é a cor que a deixa mais bonita”.  

Um dado que não dei antes é que a Mundo do Mickey funcionava na própria casa da  diretora e de sua família: Tia Edna, cujo marido, pasmem, era Major da Polícia Militar de Pernambuco. Deu para entender o jogo de cores? 

Do alto dos meus 3 ou 4 anos, quando soube da opção doméstica por infringir a regra, senti muito medo de não ser incluída na apresentação por causa daquilo que, anos depois, entendi como uma “subversão comunista”. Afinal, havia normas e a minha própria mãe as descumpria.  

Enfim, chegou o dia da festa e lá estava a pequena Luciana, lindinha de vermelho, mas  transitando entre confiar na autoridade materna e temer certo patrulhamento da  obediência, que apresentava suas armas naquela festinha inofensiva. 

Ao chegar à escola, a surpresa foi encontrar a Ana, outra garota de mãe insurgente que  também estava de vermelho. “Éramos duas, não poderiam conosco”. Se eu tivesse  repertório para elaborar tudo aquilo, acho que seria essa a minha síntese. As mães sorriram entre si, em misto de cumplicidade e indignação.  

Afinal, a ausência de duas crianças à apresentação iria desfalcar o grupo, diminuir a  graciosidade proposta e colocar Tia Edna na saia justa de ter que explicar o porquê de  ficarmos de fora. Se assim fosse, o medo ia mudar de lado. Afinal, do que são capazes as  mães que desobedecem? Ali, de alguma forma, entendi que regras, às vezes, existem para  serem descumpridas, que juntas somos mais fortes e que ninguém prende a mãe de ninguém!  

O vermelho? Ah, o vermelho seguiu ao longo da vida variando os tons, as texturas e os significados, mas sempre, sempre sendo a cor mais bonita!  

Gracias, Mama.





Luciana Pinto é pernambucana do Recife, assistente social, especialista em estudos afrolatinos e caribenhos e mestra em Gestão Social e Desenvolvimento Territorial pela UFBA. Em 2023, fundou a Reinvento – Criatividade em Gestão Social, consultoria voltada ao desenvolvimento de organizações e movimentos sociais. No campo literário, tece escutas, memórias e afetos pelas veredas da crônica e da poesia. É autora do livro Corpo-Ilha: Poemas de Travessia (Mirada,2025) e integra as coletâneas Sementes de Histórias e Olhares em Pernambuco.