Lá nos idos de 1975, eu estava no pré-escolar. Frequentava uma escolinha de bairro, no Cordeiro, em Recife, que se chamava “Mundo do Mickey”. Por aí você já tira, né? E lembro que, nessa escola, participei de algumas festinhas que tinham apresentações de dança, algumas delas temáticas. Em uma dessas fui o mar. Não recordo como isso se definiu, mas sei de mim, toda vaidosinha, carregando aquela imensidão nas saias de organza verde claro, com peixes de papel prateado pendurados. Uma linda memória.
Chegou o encerramento do ano, e outro tema se anunciava: “a dança das bonecas”, e, com o tema, os modelos das roupas, mimeografados com tinta roxa-carbono, em papel ofício cheirando a álcool. Íamos usar vestidos curtos, monocromáticos, com babado e um chapéu. No entanto, havia um condicionante de cores para os trajes: verde, amarelo, azul e rosa (tem gente, hoje em dia, que estaria no auge da satisfação).
Sim, senhoras e senhores, não tinha vermelho na cartela de cores possíveis para os modelitos. Aí, o bicho pegou. Minha mãe, que matava e morria para que eu participasse desses eventos, bradou em casa: "minha filha vai de vermelho, porque o vermelho é a cor que a deixa mais bonita”.
Um dado que não dei antes é que a Mundo do Mickey funcionava na própria casa da diretora e de sua família: Tia Edna, cujo marido, pasmem, era Major da Polícia Militar de Pernambuco. Deu para entender o jogo de cores?
Do alto dos meus 3 ou 4 anos, quando soube da opção doméstica por infringir a regra, senti muito medo de não ser incluída na apresentação por causa daquilo que, anos depois, entendi como uma “subversão comunista”. Afinal, havia normas e a minha própria mãe as descumpria.
Enfim, chegou o dia da festa e lá estava a pequena Luciana, lindinha de vermelho, mas transitando entre confiar na autoridade materna e temer certo patrulhamento da obediência, que apresentava suas armas naquela festinha inofensiva.
Ao chegar à escola, a surpresa foi encontrar a Ana, outra garota de mãe insurgente que também estava de vermelho. “Éramos duas, não poderiam conosco”. Se eu tivesse repertório para elaborar tudo aquilo, acho que seria essa a minha síntese. As mães sorriram entre si, em misto de cumplicidade e indignação.
Afinal, a ausência de duas crianças à apresentação iria desfalcar o grupo, diminuir a graciosidade proposta e colocar Tia Edna na saia justa de ter que explicar o porquê de ficarmos de fora. Se assim fosse, o medo ia mudar de lado. Afinal, do que são capazes as mães que desobedecem? Ali, de alguma forma, entendi que regras, às vezes, existem para serem descumpridas, que juntas somos mais fortes e que ninguém prende a mãe de ninguém!
O vermelho? Ah, o vermelho seguiu ao longo da vida variando os tons, as texturas e os significados, mas sempre, sempre sendo a cor mais bonita!
Gracias, Mama.
Luciana Pinto é pernambucana do Recife, assistente social, especialista em estudos afrolatinos e caribenhos e mestra em Gestão Social e Desenvolvimento Territorial pela UFBA. Em 2023, fundou a Reinvento – Criatividade em Gestão Social, consultoria voltada ao desenvolvimento de organizações e movimentos sociais. No campo literário, tece escutas, memórias e afetos pelas veredas da crônica e da poesia. É autora do livro Corpo-Ilha: Poemas de Travessia (Mirada,2025) e integra as coletâneas Sementes de Histórias e Olhares em Pernambuco.

.png)
Redes Sociais