Reflexões sobre a morte | Luís de Barreiros Tavares

por Luís de Barreiros Tavares |



Da série “Escalas filosóficas” – I 

La muerte es vida vivida / la vida es muerte que viene.

Jorge Luis Borges – do poema “La Chacarita” 

A cidade antiga fundava-se […] nessa relação essencial, constitutiva entre os vivos e os mortos. […] uma grande diferença entre o nosso mundo e o mundo antigo. Estamos obcecados com o problema da morte, mas não temos mais qualquer relação com os mortos.

Giorgio Agamben – vídeo – Cattedra Uffizi 

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Abertura – Ancestralmente guardamos, enquanto espécie humana, a experiência da morte. Os exemplos que seguem talvez sejam alguns dos que o atestam sobretudo no plano da experiência individual.

1.

Num determinado lugar, projectamos no futuro – hipotetizando – a nossa ausência nesse lugar quando já não existimos. Cruzando, assim, a nossa presença no momento em que estamos – no presente, aqui e agora, nesse lugar – com a nossa irreversível ausência nesse mesmo lugar, quando já não existimos.

2.

Quando alguém próximo morre, principalmente um ente querido (amigo ou familiar), temos na memória a imagem, dir-se-ia viva, dessa pessoa quando viva. Agora, que ela está morta, algo em comum há entre a nossa experiência de memória (lembrarmo-nos dela) e a experiência da morte que esse alguém também teve com a morte de um outro. Isto confere-nos, enquanto estamos vivos, a partilha de uma condição análoga à daquela pessoa agora morta. É, de algum modo, o estar na situação daqueles que já partiram. Para mais, quando há outros que virão e partilharão a nossa experiência.

De facto, alguém virá experienciar o mesmo tipo de lembrança em relação à nossa morte. O cruzamento da morte e da vida é evidente nestes casos. Os vivos encontram-se em certa medida na condição daqueles que já partiram e dos que virão, enquanto partilham algo daqueles que viveram e daqueles que viverão depois deles.

3

Quando alguém morre é como se nos puséssemos nos olhos do outro, daquele que morre. E como se supuséssemos não apenas o não ver a realidade imediata que nos circunda — qual buraco negro —, mas, mais do que isso: a ausência de mundo, supondo ainda, de um certo modo — nessa transposição —, a ausência de mundo ante a consciência daquele que morreu, que, afinal, já não é, pois já não há consciência. Mas, paradoxalmente, ainda supomos, a consciência enquanto tal. Supomo-la, ou melhor, pressupomo-la na privação do mundo.

Consciência ante a ausência de mundo? Mundo ante a ausência de consciência?

A linguagem revela, ou desvela, mas também trai. A linguagem traduz e trai? Traduttore, traditore (traduzir, trair)?

4

Será o trauma da morte do outro, num sentido originário, uma espécie de flash (“clarão súbito”, “instante de luz”, etc.)? Um flash originário de espanto ante o morto? O nosso olhar é fotográfico, ou, pelo menos, guarda um índice fotográfico (a palavra reenvia para a etimologia grega de “luz” (phos) e “escrita” (graphein). Nesse trauma, ou no espanto (e o espanto filosófico — thaumazein — admiração ante o espectáculo do mundo e das coisas), talvez haja um arregalar de olhos, um abrir de olhos como um sinal de surpresa e, ao mesmo tempo, de salvaguarda (um olhar e cegar repentino, um encandear originário). Repare-se que os humanos dispõem da esclera, de parte do branco da retina permanentemente à vista. Algo se inscreveu no tempo, com esse abrir e fechar de olhos. Há algo, portanto, de fotograficamente fundamental. 

Com os sucessivos flashes que nos assolam no âmbito da vertigem publicitária e noticiosa (repare-se como somos comandados na sucessão repentina de planos nos ecrãs), perdemos o desfrute da pausa fotográfica, da própria imagem no tempo.

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Ligação

A farsa da morte (revista Mirada)







Luís de Barreiros Tavares nasceu em Lisboa em 1962. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa (2007), tendo antes frequentado e concluído cadeiras de Filosofia nas Universidades Católica e Clássica. Autor de alguns livros, entre outros: O Acto de Escrita de Fernando Pessoa; Em Roda Livre, com Eduardo Lourenço; Sulcos, com Jean-Luc Nancy; 5 de Orpheu (Almada — Amadeo — Pessoa — Santa Rita Pintor — Sá-Carneiro). Colaborador regular nas revistas “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (Br)”. Publicações nas revistas “Comunicação e Sociedade” (CECS – UMinho), Configurações (UMinho) “Comunicação e Linguagens” (CECL – UNLisboa), “Pessoa Plural” (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes), “A Ideia”, “Philosophy@Lisbon” (CFUL – UL), ”Zunái (Br)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (It.), “Ameopoema” (Br)”, “Grou Cultura & Arte (Br)”, “Athena”, etc. Vice-director da revista “Nova Águia”. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono (MIL). Editor das edições-vídeo “Passante”. De um modo cifrado, mantém-se artista plástico. Já deu umas aulas. Responsável pelo espólio do poeta Manoel Tavares Rodrigues-Leal.