Do barro a voz, crônica de Carlos Monteiro

por Carlos Monteiro__







Aquele olhar de sabedoria penetrante, rosto engelhado, sorriso largo, escancarado e encantador: Evanilda traz no semblante a força da mulher, nas mãos rápidas, ágeis e calejadas a arte de 'trabalhar' o tanino, como ela descreve: "o sangue do mangue", obtido do mangue-vermelho, colhido dessa árvore ali mesmo naquele manguezal, que de tão perto, na maré-cheia vem 'lamber' seus pés como numa reverência da Mãe D’água.  Fica contíguo ao seu ateliê e às fogueiras que acende diariamente, assim uma deusa das cores e do fogo, para a queima do barro colorindo-o de ébano.

Fiquei encantado com a intensidade de sua delicadeza, com a força de suas mãos, embevecido pelas expressões e enquadramentos que proporcionava, em simbiose perfeita com minhas objetivas, com a tamanha doçura empregada em seus movimentos intensos e certeiros, com a agilidade que impunha à pintura, garantindo efeitos sem igual as imagens; ora junto ao lumaréu, ora junto aos fumos, ora na luminescência, ora como colorista. Sua imagem, refletida no espelho da câmera, dialogava incrivelmente com a estética que eu buscava para aquele ensaio. Ela, com habilidade, descortinava seu ofício, aprendido com suas antepassadas, para lentes maravilhadas ‘mergulhadas’ em imensa belezura. Foi mágico!

Não sou dos que acham que é necessária uma data específica, para ‘lembrarmos das mulheres’; não mesmo! Me impressiona essa necessidade e as tais ‘homenagens’ com flores, brindes e regalos. Não me parece lógico que me pleno século 21 ainda achemos que reverência, igualdade e, principalmente, respeito se resumam a uma data.

Evanilda trabalha de sol a sol junto ao fogo que arde sem piedade, seu estúdio é, quase, ao ar livre lá nas Paneleiras em Goiabeira — Vitória (ES), dali tira o sustento para si e sua família. 

Ela é mais uma dessas mulheres incríveis, brasileira, que luta por dias melhores, que sem impõe para ser vista por uma sociedade que vive persistindo na sua não-existência, que pranteia, que traz a saga de ser mulher em um país misógino, sexista e machista. Ela é colorista, é artista plástica, numa simbiose perfeita, lança mão dos quatro elementais da natureza para compor sua obra.

Evanilda, mulher vívida, é a representatividade deste 8M. Em nome dela parabenizo a todas pelos 365 dias do ano.


Do barro a voz, Carlos Monteiro 









Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve “Fotocrônicas”, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade Maravilhosa.