O livro dos espelhos, de Marianna Perna

 por Marianna Perna__




                                                    
Quando escrevo, um cavalo escala meu corpo



Um corpo em devastação, casa em chamas reerguida sobre

ruínas postergadas.


Uma mulher que dança seu fim, move-se como?


Um sol de fim de tarde surge como prenúncio do novo,

que sempre vem.

Reflexos sem reflexo.


Como se dança o fim? 

Como se mover dentro do tempo, que é

tudo e também o nada? Como se reinventa o sentido de pisar

sobre a terra; como se mantém os ossos coesos, firmes para ser

teto e base pro ser?



De tão quebrada, acho que a terra agora dorme.




Narciso


Um sorriso

de onde brota um mundo

até então submergido

no repouso do descaso


A fenda do humilde

onde habito

encontro do real

com o passo

nunca imaginado


Nele, a imagem antevista

lembranças da montanha

meu cavalo subterrâneo


Ele já vive em mim

Um coração enorme

que só restava conhecer



Penetrar o reino do silêncio

e te escutar, como pedra


Feito rachadura.





De-existência


Cavalgar somente

no flamejo da noite

e aprender a ser


Atravessar um mar

onde repousa o que

se esqueceu


Fazer dos passos de outrem

um retorno a si



Falar somente o necessário.






Marianna Perna
(@dasvozespoesia) é poeta, performer, historiadora, mestre em filosofia, produtora cultural e pós graduanda em Psicologia Transpessoal. Fundadora da Casa Urânia, espaço multiartístico & terapêutico em São Paulo. Acaba de lançar seu segundo livro-disco de poesia autoral, O livro dos espelhos (Selo Auroras, Penalux, 2023). Ativa na cena paulistana como escritora & poeta desde 2015, com seu primeiro livro-disco autoral, A Cerimônia de Todas as Vozes (Urutau, 2018), estreou sua verve performática e musical e, desde então, vem se dedicando às intercessões multidisciplinares entre som, corpo e consciência, em um exercício de diálogo entre arte, ciência e o olhar terapêutico, com vias ao reencanto do ser: o resgate da sensibilidade, das ancestralidades e da espiritualidade.