por Davison da Silva Souza |
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Foto de José Duarte na Unsplash |
João era apaixonado por sua viola, um instrumento de madeira — parecido com um violão — com seis cordas. Ele a usava como ninguém: rápido como um cassaco, seus dedos deslizavam pela meia dúzia de cordas, compondo sons de uma buniteza comparável ao açude do Cedro ou à serra da Ibiapaba.
Em sua juventude, João seguiu seu sonho e decidiu atravessar o imenso Estado do Ceará em busca de cantarolar. Dominava a arte do repente e, de repentemente, improvisava um verso ou até uma canção, fosse sobre a cidade por onde passava, sobre as especificidades do sertão ou até comentando sobre a falta de beleza de algum morador. João puxava sua viola, que estava pendurada nas costas, presa por uma tira de couro de bode; com a mão esquerda formava uma nota e com a mão direita dedilhava, agradando os ouvidos mais críticos da região.
Certo dia, descendo o Vale do Jaguaribe, João foi convidado a ir até uma pequena cidade localizada depois de Limoeiro do Norte. O nome da cidade lhe fugiu à memória, mas permanecia fervendo em sua lembrança o quanto ela era quente: lá, no dia mais frio, fazia 35 graus Celsius. Mas era uma cidade de uma lindeza inenarrável, com uma lagoa de água transparente, chão de terra batida e uma arquitetura aconchegante.
Quando a lua se mostrou no céu estrelado, João Filício se arrumou, penteou os cabelos grisalhos e, com o mesmo pente, ajustou seu enorme bigode em riba de sua face. Logo em seguida, vestiu o terno de linho branco, tecido e costurado por seu amor, dona Maria. Abotoou as mangas da camisa, vestiu o paletó, deu nó na gravata lisa e passou Toque de Amor, seu perfume preferido.
Quando caminhava pela estrada de terra, contemplando a brilhante estrela que parecia o enamorar, João avistou uma casa de taipa. Nela, escorada na tramela da porta, estava uma senhora com apenas o pé esquerdo fincado no chão, o direito apoiado na coxa esquerda, descascava uma laranja enquanto não desgrudava os olhos da rua. Quando João passou, ela gritou: “Armaria, por que todo cantador é feio?”
João Filício, sorriu e de repente falou: “Não sabia que a senhora também cantava.”
Glossário Cearencês
Carcará: Pássaro típico do sertão nordestino, semelhante a um gavião. É conhecido por seu canto penetrante e por voar sobre áreas abertas, simbolizando liberdade e resistência na cultura sertaneja.
Cassaco: Nome popular dado a um gambá de orelha branca. No texto, a expressão é usada como comparação para indicar agilidade e rapidez.
Açude do Cedro: Açude histórico localizado no município de Quixadá, Ceará, famoso por sua grandiosidade e importância para a irrigação e abastecimento local.
Serra da Ibiapaba: Serra com clima ameno, situada entre os estados do Ceará e Piauí.
Repente: Forma de improvisação poética típica do Nordeste, em que versos rimados são cantados ao som da viola ou de pandeiros. Arte de expressão oral e criatividade popular.
Vale do Jaguaribe: Região cearense composta por vários municípios atravessados pelo rio Jaguaribe.
Toque de Amor: Perfume popular nos anos 1970 no Ceará, geralmente usado por pessoas mais velhas.
Tramela: Pedaço de madeira usado para proteger a porta durante a noite, funcionando como tranca interna. Representa segurança e tradição de casas sertanejas.
Buniteza: Termo coloquial nordestino para algo bonito, belo ou encantador; usado para descrever sons, paisagens ou gestos.
Enamorar: Verbo popular usado no texto como “encantar” ou “cativar”; na narrativa, indica que a estrela parecia seduzir João.
Em riba: Expressão típica do Ceará que significa “sobre” ou “acima de”; usada no texto para descrever o bigode de João.
Cantador: Pessoa que pratica a arte do repente ou canta versos improvisados; no Nordeste, o cantador é também narrador da tradição oral e da cultura popular.
Armaria: Expressão coloquial, equivalente a “oh, meu Deus!” ou “que coisa!”, usada para chamar atenção ou expressar surpresa.
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