por *Maria do Carmo Nino | Curadora da Exposição
Confiar na linha como memória afetiva do lido,ouvido e pensado
“A grande exigência que se impõe a tudo que é artisticamente configurado é que na obra tudo seja formado do mesmo material, que todas as suas partes sejam visivelmente ordenadas de um único ponto”. Leo Popper
“Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas”. Mario Quintana
A exposição “Tessituras do Tempo” da artista Virgínia Baptista que aqui vemos, apresenta-se como um campo de forças onde o desenho, a memória e a matéria convergem. O que une as telas, as peças têxteis e os livros de artista não é apenas uma escolha estética, mas uma atitude existencial. Ao observar a diversidade desses suportes, compreendemos que a artista opera sob a égide de um "desenho único": um fio contínuo que alinhava o tempo e a vivência, sem rupturas. Ela afirma também sentir-se pintando, ao agregar cores, texturas e materiais diversos. Aqui a agulha não é apenas uma ferramenta, mas um instrumento cirúrgico que sutura feridas invisíveis.
O desenho/pintura, para a artista, é onipresente. Este amálgama habita as cerdas do pincel e se materializa na costura. Essa transição do traço pictórico para o fio me evocou o legado de Louise Bourgeois, que nos seus anos finais encontrou no têxtil um meio de reparação emocional. Como Bourgeois, que cortava e remontava suas próprias roupas para processar o passado, Virgínia utiliza o tecido como uma exploração tátil da memória e da esfera doméstica. O ato de costurar é uma metáfora da cura psicológica, onde o rasgo representa a finitude, a perda e as incertezas da vida; o remendo, o gesto de cuidado, a tentativa de reconstruir o que foi fragmentado; e finalmente, a sutura, onde cada ponto de bordado ou emenda aleatória é um esforço de unir fragmentos díspares em uma nova unidade de sentido.
Neste projeto, a artista mergulha em uma coleção de retalhos, rendas e roupas de família—peças impregnadas de história e "amareladas pelo tempo". Esse material, que poderia ser visto como descarte pela indústria têxtil predatória, é aqui elevado ao status de relíquia. Um “cuidar do mundo como se cuida da própria memória”, poder-se-ia dizer.
Porém, ao manipular essas "peças de vida", a artista evoca a “dobra infinita” deleuziana. Influenciada pela cena barroca de Recife e Olinda, ela dobra, torce e redobra a matéria, criando volumes que lembram tanto as talhas das igrejas quanto as complexas dobras da nossa própria psiquê. O barroco, aqui, não é ornamento; é uma função operatória que reflete o "viver como um rasgar-se e remendar-se" proposto por Guimarães Rosa e sempre evocado pela artista.
A biblioteca paterna, com seus 30 mil volumes, é o berço desse universo. Mas o livro, nesta mostra, passa por uma desorganização para se reorganizar como arte. As páginas são (re)costuradas, perdendo sua função de leitura tradicional para se tornarem objetos de contemplação. Ao inserir costuras e emendas no papel, a artista subverte o suporte e convida o espectador a ler não palavras, mas a própria textura da memória.
Visitar, pois, esta mostra, é testemunhar um rito de preservação. Entre botões, correntes e tecidos que trazem a pátina dos anos, a artista recifense nos mostra que a arte é o lugar onde o tempo não se perde, mas se transforma transitando entre a infância (a biblioteca), a tradição (o Barroco) e a psiquê (a cura).
É a prova contundente de que, através da costura e do desenho, é possível reorganizar o caos interno e oferecer ao mundo uma nova e pulsante narrativa.
Museu Murilo Lagreca, maio 2026
*Maria do Carmo Nino - Possui graduação em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco (1980) e doutorado em Arts Plastiques Et Sciences de I’ Art Université Paris 1 Pantheon-Sorbonne (1995). Professora aposentada da Universidade Federal de Pernambuco do Departamento de Artes e da Pós Graduação em Letras. Atua como artista plástica, assim como na curadoria de várias exposições. Foi curadora adjunta do Instituto Itaú Cultural no programa Rumos entre 2001-2003 e Coordenadora de Artes Visuais da Fundação Joaquim Nabuco entre 2009-2010. Tem experiência na área de Artes, atuando principalmente nos seguintes temas: arte contemporânea, fotografia, artes visuais, pintura, cinema e literatura
Inspirada na citação de João Guimarães Rosa de que “viver é um rasgar-se e remendar-se” (Tutameia, terceiras histórias), a exposição propõe um itinerário sobre as transformações da experiência humana, alinhavadas por um fio contínuo entre tempo e memória.
Virginia Baptista é artista visual, pernambucana de Recife onde vive e trabalha. Tem formação acadêmica em Letras com especialização em Teoria da Literatura. Frequentou vários cursos em Olinda, Recife, Rio de Janeiro e Florença na Itália. Com mais de 30 anos de experiência, ela tem como foco o exercício, a produção e a pesquisa em artes visuais, o que lhe permite fundamento e suporte para outras áreas de atuação como Arteterapia e Educação. Além de pintura, desenho e gravura, tem se dedicado à produção de livros de artista e peças têxteis. São esses últimos trabalhos que serão apresentados a partir do próximo dia 06/05/2026 no Museu Murillo La Grecca em Recife.




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