por Ariel Montes Lima |

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POESIA
E MEMÓRIA: ANÁLISE DE TRÊS POEMAS DE BRUNNA FERNANDES CÔRTES (2024)

RESUMO
O
presente artigo tem como objetivo analisar três poemas da escritora Brunna
Fernandes Côrtes, publicados na obra Pensei que fôssemos plantar flores
(2024), a fim de compreender os procedimentos estéticos mobilizados pela autora
na construção de sua poética, bem como os temas centrais que atravessam sua
escrita, especialmente no que tange à memória, à subjetividade e à linguagem. A
metodologia utilizada baseia-se na análise de corpus aliada à revisão
bibliográfica, com ênfase nos estudos sobre a lírica moderna e suas implicações
culturais, conforme teóricos como Hugo Friedrich (1978), Alfredo Bosi (1977),
Octavio Paz (2013), Silviano Santiago (2002) e Combe (2010). A análise formal e
temática dos poemas revela uma dicção contida e fragmentária, que rompe com a
linearidade narrativa e se aproxima da estética da hesitação e da indagação
existencial. A memória, nesse contexto, não é apenas conteúdo, mas eixo estruturante
da forma poética, operando como gesto de resistência ao esquecimento e à
banalização da experiência. Como resultado, evidencia-se uma lírica que, embora
marcada pela introspecção, se inscreve no espaço social por meio de tensões
entre o vivido e o escrito, entre o silêncio e a nomeação.
Palavras-chave:
poesia contemporânea; memória; lirismo moderno; Brunna Fernandes Côrtes;
subjetividade.
1.INTRODUÇÃO
O
presente artigo busca analisar três poemas da escritora Brunna Fernandes
Côrtes. Para o desenvolvimento da presente pesquisa, foi empregada revisão
bibliográfica associada à análise de corpus.
Meu
objetivo geral é averiguar quais foram os procedimentos estéticos mobilizados
pela autora na construção do texto poético, bem como identificar seus temas
centrais e suas possíveis relações com o contexto sócio-histórico-político em
que foram produzidos. Dessa forma, a análise se centrou em duas dimensões da
obra: formal e temática para, então, buscar suas relações com a tradição da
lírica moderna e as implicações culturais da modernidade como tal.
2.DESENVOLVIMENTO
A
lírica contemporânea, como campo expressivo, assume a problematização da
subjetividade e da/na linguagem. Nas palavras de Jutgla (2006):
O texto analítico não
conseguirá seu intento se for construído sobre uma base de explicação lógica,
cartesiana; ele necessita, pelo contrário, romper com esta moldura, pois o
texto em debate assim o exige. Para se teorizar sobre a lírica moderna, há de se
valer de outras formas e meios, num jogo dialético entre a tensão da obra e a
tensão reflexiva no ensaio (Jutgla, 2006, p. 01-02).
Ademais,
Segundo Combe (2010, p. 115), “concebe-se como a faculdade mestra do lirismo
não tanto a imaginação, mas a memória, pois a poesia oferece a verdade da
vida.” Assim, é inerente ao lírico, contrapondo-se ao épico -por exemplo- a
intersecção entre o eu-lírico que enuncia e o texto poético produzido.
Indo
mais além, Alfredo Bosi (1977, p. 142), reitera que
No mundo moderno a cisão
começa a pesar mais duramente a partir do século XIX, quando o estilo
capitalista e burguês de viver, pensar e dizer se expande a ponto de dominar a
Terra inteira. O Imperialismo tem construído uma série de esquemas ideológicos
de que as correntes nacionalistas ou cosmopolitas, humanistas ou tecnocráticas,
são momentos diversos, mas quase sempre integráveis na lógica do sistema. Nós
vivemos essa "lógica" e nos debatemos no meio das propostas que ela
faz. Furtou-se à vontade mitopoética aquele poder originário de nomear, de
compreender a natureza e os homens, poder de suplência e de união. As almas e
os objetos foram assumidos e guiados, no agir cotidiano, pelos mecanismos do
interesse, da produtividade; e o seu valor foi-se medindo quase automaticamente
pela posição que ocupam na hierarquia de classe ou de status. [...]. Quanto à
poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de
memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para
vender. A propaganda só "libera" o que dá lucro: a imagem do sexo,
por exemplo. Cativante: cativeiro.
O
lirismo, dessarte, não emerge somente enquanto “canto da emoção pessoal”, mas
uma forma de tensionar o vivido e o dito, colocando-se na cena social.
Nesse
sentido, a lírica moderna desloca o sujeito da centralidade romântica para um
lugar de fragmentação e questionamento. Hugo Friedrich, (1978), observa que o
lirismo moderno rompe com a harmonia clássica e expõe a ruptura do mundo
interior, apresentando uma linguagem descontínua, hesitante, que busca
expressar o indizível, algo característico do mal-estar experienciado pelos
sujeitos modernos (especialmente a partir do séc. XX). Por essa perspectiva,
Santiago (2002), destaca, em diálogo com Paz (2013), a díade entre a inovação e
a tradição presentes na história literária do Ocidente desde o romantismo. Nas
palavras de Rosana Nunes Alencar:
Santiago apoia se na
concepção geral e, talvez, uma das mais relevantes, que pode ser assim
formulada: para que o poeta, o artista, situe-se no presente, é preciso que
tenha consciência do passado. Dizendo de outro modo: na concepção de Paz,
existe uma convergência entre os tempos de modo tal que passado e futuro se
imbricam no presente. Nesse movimento, encontra-se aquilo que o estudioso
mexicano nomeia de “tradição da analogia”, ou seja, a correspondência entre as
coisas nos sistemas é, ao mesmo tempo, reveladora da unidade e das diferenças
que os constitui (ALENCAR, 2016, p.95)
Ademais,
é preciso destacar que a modernidade legou uma vasta proeminência de formas e
“liberdades” criativas aos poetas, buscando, não raro, uma linguagem despida
dos “excessos poéticos”, buscando frequentemente o contato íntimo entre
eu-lírico e leitor, afinal, como afirma Lima (2022a, s.n.):
[...] o mundo agitado e
desencantado da Pós-Modernidade leva à perda do sentido transcendente das
artes. Mais do que isso, contudo: a frigidez de uma vida baseada na exaustão
pelo trabalho e pelo sem-número de demandas das mais diversas ordens rouba do indivíduo
a possibilidade de interagir satisfatoriamente com a realidade. Por isso,
também sua relação com o artístico-transcendente é esfacelada em prol de um
sentimento de apatia e frieza.
O mundo pós-moderno,
destarte, por sua própria constituição, impõe ao indivíduo a carência de sua
própria vida, pois o subleva em meio à torrente de estímulos que o conduzem ao
esvaziamento de sua humanidade. A apatia diante da arte –desprovida muitas vezes
de significação aos olhos desse observador- não é, portanto, em vão. Mas sim
porque não há carga semântica de sua parte para que possa reagir a tal
significante.
Outrossim,
é mister esclarecer que a escolha pelo trabalho com os três poemas aqui
apresentados se sustenta -reitero- pela sua inventividade formal e pelo
conteúdo temático relevante, bem como pela urgência de se produzir material
teórico capaz de lidar com as produções de nosso próprio tempo.
A
autora dos poemas aqui analisados, Brunna Fernandes Côrtes nasceu no Rio de
Janeiro, em 1º de agosto de 1992, porém cresceu em uma pequena cidade litorânea
de Santa Catarina, onde desenvolveu seu olhar sensível para o cotidiano e a
introspecção, aspectos que atravessam sua escrita. Ao tempo da escrita desse
artigo, a autora reside em Florianópolis e cursa Letras na Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC), conciliando a vida acadêmica e literária com a
maternidade.
Em
2024, lançou sua primeira coletânea de poemas, Pensei que fôssemos plantar
flores, pela Editora Patuá. Sua poesia transita entre a autoficção e a
metalinguagem, explorando os limites entre a experiência vivida e a sua
reinvenção no texto. Com uma dicção contida, fragmentária e reflexiva, seus
poemas abordam temas como identidade, memória, deslocamento e a própria
condição da escrita, estabelecendo diálogos intertextuais com autores da
tradição literária e do pensamento filosófico.
O
conjunto de sua obra reflete uma voz poética em constante (des)construção,
marcada por um lirismo introspectivo que não se atém à linearidade e se
aproxima da estética da hesitação e da indagação existencial. Mais adiante reproduzirei
os textos escolhidos junto aos comentários analíticos. Nesse processo, optei
por não inserir contagem de versos ou outras alterações quaisquer, pois alguns
dos trabalhos possuem uma formatação específica na qual uma intervenção poderia
acarretar em diferenças indesejadas na obra.
Esses
poemas foram originalmente publicados no livro Pensei que fôssemos plantar
flores (Patuá, 2024) e republicados na Revista Cassandra no ano de 2025.
Tal revista
[...] surgiu [com] a ideia
de reunir mulheres artistas de diversos lugares e com diversas vozes para
promover as artes e a literatura feitas por, de e para mulheres. A sacerdotisa
grega assombrada por suas premonições foi o mote para esse projeto, porque toda
mulher vive de antecipações. Precisamos estar três passos à frente para
conseguirmos chegar ao mesmo lugar. Precisamos antecipar todos os riscos
inerentes à nossa condição de mulheres. Precisamos antecipar todos os erros
para evitá-los, porque para nós todo erro é uma última chance. [...] Desejamos
ser resistência a tempos obscuros, em que tantos esforços para a igualdade e a
promoção da diversidade estão sendo contestados, tantos direitos estão sendo
retirados. Em tempos como esses, em que a arte é vista como inimiga e nós,
mulheres, vemos nossos direitos ameaçados, toda voz é uma resistência. Toda
mulher é um grito. Cassandra é um grito
(Revista Cassandra, 2021, [s.n.]).
Nos
textos em questão, a escritora apresenta um projeto estético que se
insere na tradição da autoficção poética, explorando as intersecções entre
autobiografia e fabulação. Seus poemas evidenciam um esforço metapoético
de problematização da escrita e da subjetividade, mobilizando elementos do
cotidiano e do discurso confessional para construir uma poética da inquietação.
O
primeiro texto analisado é intitulado Transtorno. Abaixo sua reprodução:
Transtorno
Bebo uma taça de vinho, fumo um cigarro, uso meu cachimbo,
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀[como bolo de chocolate.
Carrego os brinquedos do menino, entrego-lhos, para preencher essa
⠀ [ausência de mim que crio, e prendo o choro.
Nada disso é bonito.
Quase chove lá fora, e eu queria que chovesse e a terra encharcasse
e destilasse-se no ar um cheiro peculiar demais pra qualquer momento que ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀ [fosse e fosse infinito.
Chorar nessa medida não é bonito.
Eu ando pela casa com meu passo torto, decoro mais os degraus da escada, ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀ [de cima a baixo,
e a paisagem da janela já me esquece. Não tenho flores na varanda.
Subverto um sonho, maquiagem pra ficar em casa, palhaça, com o olhar ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀ [esvazio a sala.
Nada disso é bonito.
(Côrtes, 2025, s.n.).
Fica claro desde esse primeiro texto que a escrita de Côrtes caracteriza-se por um minimalismo expressivo, uma dicção prosaica e uma disposição espacial que sugere pausas e deslocamentos do fluxo sintático. Há uma sintaxe quebradiça, com forte uso de enjambements, que provoca um efeito de descontinuidade e hesitação, proeminentes no poema como em:
Eu ando pela casa com meu passo torto, decoro mais os degraus da escada, ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀ [de cima a baixo,
e a paisagem da janela já me esquece. Não tenho flores na varanda.
Subverto um sonho, maquiagem pra ficar em casa, palhaça, com o olhar ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀ [esvazio a sala.
Nada disso é bonito.
Os
versos, portanto, não raramente se fragmentam em sintagmas desajustados,
sugerindo um pensamento errático e introspectivo.
O
uso da enumeratio e da justaposição de elementos cotidianos sem
conectivos explícitos – como em Transtorno (“Bebo uma taça de vinho,
fumo um cigarro, uso meu cachimbo, como bolo de chocolate”) – cria um efeito de
simultaneidade e dispersão, reforçando a sensação de esfacelamento do eu
lírico. Tais marcações sugerem ainda uma percepção fragmentada da realidade,
como se o eu-lírico estivesse permanentemente em busca de algo preencha
sua realidade de sentido, algo característico da vida no Séc. XXI. A esse
respeito, comenta Lima (2023b, p. 46) que “a ascensão do individualismo e o
esvaziamento da afetividade das relações humanas, bem com o a emergência do
paradigma burguês-capitalista representa o empobrecimento das subjetividades
humanas.”
À
continuação, reproduzo o segundo poema escolhido:
Travessia
Os caminhos que me levam
são demasiado longos ou tortos.
Ondulo em sentido contrário,
encontro recônditos do tempo.
Escondo-me
em conchas amorfas
e desafio o mar
tremendo.
(Côrtes, 2025, s.n.)
O
uso de imagens e metáforas é contido, privilegiando uma poética da sugestão em
vez de uma visualidade exuberante, algo característico dos textos de memória.
Em Travessia, os versos curtos e a fragmentação das imagens criam um
movimento hesitante, como se a própria linguagem estivesse à deriva. Sobre
isso, Lima (2024, s.n.) agrega que:
[a] desestruturação pode
ser vista como uma tentativa de capturar a complexidade e a intensidade das
emoções envolvidas, transmitindo não apenas o conteúdo dos traumas, mas também
as formas como eles afetam a percepção e a expressão do eu lírico
Tal
processo pode ser observado, por exemplo em:
“Os caminhos que me levam
são demasiado longos ou tortos.
Ondulo em sentido contrário,
encontro recônditos do tempo.”
Aqui,
pois, a metáfora da “ondulação em sentido contrário” sugere um embate interno,
um movimento regressivo que remete à instabilidade emocional e à
impossibilidade de uma travessia linear.
Por
fim, reproduzo o último poema escolhido:
Adendo para o poema que não se escreve
Foram muitas noites insones até que o
poema brotasse.
Aqui estou parafraseando um poema meu.
Alguma chance para que vocês adivinhem.
É como se fizesse aquilo com Gullar, eu disse:
“O adendo existe porque o poema não basta”.
No meu caso era calma e não insônia.
Ai, Deus, livrai-me de ser assim,
tão prosaica.
*
A primeira sessão depois da morte do
Godard
depois de eu ter falado com Thiago sobre e
depois de eu ter falado com Juliana sobre
e isso me veio no meio de outro poema
que eu escrevia no chão
reminiscências
lembrei-me de ter começado a sessão com Godard
porque eu mesma estava bem naquela semana
e eu disse “é preciso imaginar Sísifo feliz”
rolando a sua pedra, porque Camus disse
que o esforço de rolar a pedra
às vezes vale toda a vida
e ela terminou a sessão com a pergunta
“qual o sentido da vida pra você?”
tenho para mim que é essa a pergunta que me espreita
enquanto penso sobre não escrever.
*
Enquanto penso sobre não escrever, não
durmo.
Se eu dormisse, talvez pudesse pensar melhor nisso.
*
Seus olhos são tão grandes,
sua boca é tão grande,
seus poemas são curtos
e os cabelos também.
Ave Maria,
por acaso você nunca se depila?
O tórax volta a doer,
entre as costelas,
o sentido pra mim
é a negação do não.
*
Leio o horóscopo.
A quiropraxia anos atrás
leu o futuro nos meus ossos.
De que adianta?
Planetas e astros se movem
enquanto sigo paralisada.
Nas dobras e nas entranhas,
esculturas de gesso
tão frágeis.
*
Sigo.
*
E se eu escrever o poema?
(Côrtes, 2025, s.n.)
Outro
aspecto técnico relevante é a intertextualidade explícita, que se manifesta na
citação explícita a Gullar e Camus, além da referência metapoética no poema Adendo
para o poema que não se escreve. Essa postura dialogal não apenas situa o
eu lírico em uma tradição literária, mas também enfatiza o caráter reflexivo da
escrita, onde a hesitação e a consciência do ato poético se tornam temas
centrais. De uma certa maneira, ademais, ratifica a percepção de Santiago
quando este afirma a necessidade do artista contemporâneo colocar-se como tal a
partir do passado que o precede.
O
aspecto autoficcional da obra se revela na tensão entre a confissão e a
construção de uma persona literária. Há uma busca por autenticidade emocional
que se apoia na experiência pessoal, mas essa experiência é constantemente
mediada pela escrita, pela memória e pela reflexão sobre a própria
possibilidade de narrar-se.
O
texto Adendo para um poema que nãos e escreve sintetiza essa postura ao
entrelaçar o fluxo de consciência, a rememoração e a problematização do sentido
da vida em um registro que simula um diário poético. A fragmentação estrutural
do poema reforça a ideia de uma mente em processo de elaboração e oscilação:
“tenho para
mim que é essa a pergunta que me espreita
enquanto penso sobre não escrever.”
A
escrita parece, assim, estar sempre à beira do silêncio, da desistência,
tornando-se um ato paradoxalmente necessário e doloroso. Além disso, a lírica
de Côrtes emerge, como propõe Adorno (2003), enquanto um gesto de resistência
estética que desvela as fragilidades subjetivas sem, por isso, deixar de
explorar o sentimento de angústia que permeia o sujeito moderno. Por essa
perspectiva, recupero as palavras de Sarteschi (2015, p. 285) quando a autora
afirma que:
[...] é adequado afirmar
que compreender e apreender o texto literário significa a possibilidade de
entendimento de todo o processo social do qual ele faz parte/está inserido.
Evidentemente, a arte, em geral, e a literatura, em particular, não transformam
sozinhas a história, mas certamente constituem-se em elemento ativo para a
transformação social almejada
Essa
concepção se aproxima da noção de "lírica crítica", desenvolvida por
Nos poemas de Côrtes, a consciência do fazer poético está constantemente em
cena, e o lirismo emerge não como catarse ou revelação, mas como hesitação,
ironia, metalinguagem e dúvida. O poema não é o lugar da verdade do sujeito,
mas da sua fabulação vacilante, levando-nos a conjecturar que, talvez, a arte
emerja aqui enquanto um recurso para manutenção da própria vida.
3.CONCLUSÃO
A
análise dos três poemas de Brunna Fernandes Côrtes permitiu observar como sua
escrita se ancora na experiência pessoal sem se reduzir a ela, articulando
lirismo, memória e linguagem em uma tessitura que desafia os limites do
autobiográfico e do poético. Com uma dicção contida, fragmentária e
introspectiva, os textos estudados evidenciam uma poética marcada pela
consciência do tempo histórico, pelo atravessamento da experiência feminina e
pela recusa de qualquer idealização do sujeito ou da linguagem.
A
escrita de Côrtes inscreve-se na tradição da lírica moderna e contemporânea ao
tensionar o vivido e o imaginado, o silêncio e a palavra, o íntimo e o
político. Tal como apontado por autores como Combe, Friedrich e Bosi, o gesto
poético contemporâneo carrega em si os ecos de um mundo em fratura e, por isso
mesmo, reafirma a potência da poesia como lugar de resistência, escuta e
elaboração do sofrimento — seja individual ou coletivo.
Em
um tempo em que a memória é constantemente diluída pelo fluxo incessante de
informações e imagens, a poesia de Brunna Fernandes Côrtes resgata aquilo que
ainda escapa à lógica da produtividade e da mercantilização: a delicadeza, a
hesitação, o inacabado e o gesto de perguntar-se. Ao fazê-lo, não apenas
reinscreve a subjetividade feminina no campo da produção estética, mas também
convida o leitor a participar de uma escuta atenta do mundo e de si. Assim, sua
poesia se apresenta como um exercício de presença — e resistência — no agora.
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Ariel Montes Lima é mestre e doutoranda em Estudos de Linguagem (PPGEL-UFMt). Autora dos livros Poemas de Ariel (TAUP, 2022), Sínteses: Entre o Poético e o Filosófico (Worges Ed., 2022), Ensaios Sobre o Relativismo Linguístico (Arche, 2022), Poemas da Arcádia (Caravana, 2023), Silêncios: Duros Silêncios (Worges, 2024), O Inominado ou A Descoberta do Mundo (TAUP, 2024), Liberdades (2025), Contos Femininos (Worges, 2025) e Histórias do Casarão (Worges, 2025) e Os Odinokiov (sob pseudônimo de Cássia Frankl)

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