Trechos do livro "Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital", de Cesar Garcia Lima




Trechos do livro "Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital", de Cesar Garcia Lima



Trecho do conto “As ilhas de Dédalo”, pág. 33


“Temo que o tempo escasso de que disponho perpetue em esboço os meus projetos de ir além, sem olhar para trás e sem deixar rastros. Subtraio noites em prol de minha descendência, em meus planos de voo pretendo não estar só e levar meu filho, única possibilidade de continuidade para meus projetos de jardins e castelos. Tento passar tudo o que tenho adiante para que Ícaro resgate a transgressão do conhecimento e possa capturar o primitivo e o deus em cada coisa. Nada me garante, muito menos as falas das pitonisas que conheci em meu caminho: meu destino é fugir, sem guarida e sem pouso definitivo. Meu mote é o movimento.”



Trecho do conto “Retirada”, pág. 45


“Tentava escolher algumas peças de roupa para partir depressa, dois vestidos, duas calças compridas, duas camisetas, sete calcinhas (uma para cada dia da semana), só um sutiã no corpo porque fazia frio no avião, o casaco que já estava em cima da cama, quente e leve. Ia deixar todos os livros, já os tinha de memória, eram poucos e sem valor. Passou todos os arquivos para um HD externo, ia deixar também o notebook. A filha e o filho, esses sem dúvida também iriam ficar. O importante era que fosse embora rapidamente, mesmo que já não fosse a moça esguia que chegara à cidade fria em busca do namorado da correspondência. Tudo precisava caber numa mala pequena.”



Trecho do conto “O último palco de Tchékhov”, pág. 57


"Era julho, o dia tinha sido longo e a temperatura estava amena no balneário. O sol estava morno, estimulando a disputa e o jogo entre raposas e cervos, como se os animais estivessem adiando o momento em que teriam de definir quem levaria a melhor. Com sua vegetação imponente, a Floresta Negra inspirava o paciente a pensar no futuro e buscar abrigo sob as copas das árvores. O investigador chegou cedo a Badenweiler e não quis entrar no edifício da clínica, contornando o prédio sem prestar atenção à porta de ingresso. Depois parou diante da fachada e anotou em letras maiúsculas em sua caderneta preta: O DIA DO ÚLTIMO SUSPIRO DE ANTON PÁVLOVITCH TCHÉKHOV. Para não ser incomodado por outras demandas, ele desligou os aparelhos que poderiam facilitar sua localização e se lembrou de Masha dizendo em A gaivota: ‘Ando de luto pela minha vida. Sou infeliz’.”





Cesar Garcia Lima é poeta, jornalista e pesquisador de literatura e cinema, nascido em Rio Branco e radicado no Rio de Janeiro. É autor dos livros de poemas Águas desnecessárias (São Paulo: Nankin, 1997; reeditado em e-book pela e-galáxia em 2019), Este livro não é um objeto (Rio de Janeiro: edição do autor, 2006), Trópico de papel (Rio de Janeiro: 7Letras, 2019) e Bastante aos gritos (Rio de Janeiro: 7Letras, 2021), além de participações em antologias e revistas no Brasil e em outros países. É autor do livro de contos Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital. Dirigiu e roteirizou o documentário Soldados da Borracha (2010), contemplado pelo Edital Etnodoc (2009 e é Doutor em Literatura Comparada (Uerj), mestre em Letras Vernáculas (UFRJ), com pós-doutorados em Teoria da Literatura (Uerj), com bolsa de estudos da Faperj, e em Literatura Brasileira (UFRJ).É fundador e diretor da produtora cultural Voo da Palavra, dedicada à literatura, ao cinema e ao teatro, com promoção de cursos e atividades de curadoria de artes e incentivo à leitura.