por Adriane Garcia |
"As putas escrevem", de Marcela Fassy
Um dos conceitos mais interessantes da obra do psicanalista Jacques Lacan é o de alienação. Para ele, o sujeito (não o ser) só passa a existir quando se aliena, ou seja, quando se submete ao Outro. Isso é feito por meio da linguagem. É o campo do Outro – tudo que já está pronto antes de nascermos – que nos recebe e que nos forma. São as expectativas, o nome que nos dão, o idioma, o lugar, a classe social, as regras, as performances, o discurso, a moralidade, os conceitos... que nos fazem existir como sujeitos. A alienação, para Lacan, não é uma escolha, mas algo estrutural e inevitável. De ser biológico, passa-se a sujeito significante, que também é efeito dos outros significantes que o rodeiam. Não há no ser humano uma essência, por isso, essa falta só pode ser suprida pelos símbolos. Esses símbolos são adquiridos do Outro. Daí, sua famosa máxima: “O desejo do homem é o desejo do Outro”.
No livro As putas escrevem, de Marcela Fassy, encontramos um conjunto orgânico de contos que traz forte conexão com o conceito lacaniano de alienação. A puta é um significante dado pelo Outro. Antes mesmo de a menina saber-se mulher, soube-se puta. Soube-se puta sem ao menos conhecer o significado dessa palavra. A partir do rótulo, a autora trabalha contos em que mulheres apresentam suas vidas, nas quais o jogo de subjugação do homem sobre elas não quer cessar. Em contraponto, entra em cena também o conceito lacaniano de separação, quando o sujeito percebe que esse Outro não é essa deidade toda (nem a última bolacha do pacote) e resolve reavaliar os significantes que recebeu. Detectado que o desejo do Outro também é faltoso, o sujeito parte para produzir seus próprios significantes e, é por isso, que as putas escrevem. A puta se apropria do significante e usa a literatura como veículo para essa apropriação.
As mulheres da obra de Marcela Fassy não são passivas e as circunstâncias trabalhadas nas narrativas se inserem no momento ou no após da separação. Recusam a alienação imposta pelo discurso dominante, em última instância, do patriarcado, e passam a alienar-se nos símbolos umas das outras, revendo seus desejos no outro e em si mesmas. A mulher toma posse do seu corpo. Há uma vontade e uma prática da liberdade, seja nos relacionamentos amorosos, seja na fundação de um novo mito de origem. Há uma disposição natural colocada em prática: a da defesa da própria vida. Um e-mail de ex-namorado com a palavra puta em caixa alta por dezenas de linhas vai ser afixado no quadro de cortiça da parede, pregado com tachinha, para não se esquecer de que se é puta, mas agora, puta para si mesma.
Em A criação do patriarcado, de Gerda Lerner, a historiadora nos ensina que a divisão entre mulheres respeitáveis e prostitutas remonta à Antiguidade e foi uma construção social e jurídica de controle masculino, incluindo obrigar ao uso do véu em público para mulheres de família (respeitáveis), enquanto mulheres prostitutas e escravizadas (não respeitáveis) ficavam proibidas de usá-los, marcando assim uma diferença visual entre uma mulher que deveria estar subjugada sexualmente ao marido e uma que deveria estar subjugada sexualmente a todos os homens. A falta de qualquer direito ou segurança à última, garantia que as primeiras buscassem um casamento (com um homem) e a monogamia. Eco de tempos passados, o epíteto de puta, ainda traz a mesma carga semântica de violência e coerção vinda de um homem: uma mulher que merece ser desprezada, uma mulher que é obrigada a estar com ele, uma mulher que não deveria dizer não ao homem, uma mulher que não deveria dirigir um automóvel, uma mulher no trânsito. Caso ela não se comporte (ou não performe) conforme o significante do Outro, mulher, ela passa automaticamente a puta e deve ser tratada como tal.
Ao escrever, a puta se vinga; transmuta o epíteto, eleva-se a outra figura até pouco tempo quase equivalente: a escritora. Escritora e puta, uma das personagens de Marcela Fassy se confunde com a autora, ao utilizar seu próprio nome no conto que intitula o livro. Puta, então, assume nova semântica: é aquela que, livre da relação obrigatória com um homem para defini-la, define a si mesma indo ao encontro de desejos mais genuínos. O resultado é uma contística de temas variados e pontos em comum, de estilo fluido, marcado por figuras estilísticas que deixam o texto rico: as repetições, que usa em quase todos os contos, seja para marcar o ritmo narrativo, seja para enfatizar as ações. As metáforas e analogias feitas com lirismo; outras vezes ironia e humor não faltam na escrita de Marcela Fassy. Em Luze-luzes, uma linguagem roseana. Algumas personagens já reconhecidas em um conto passam a outro, como na sequência O muro, O e-mail, O livro, que também poderia equivaler à sequência: alienação, percepção, separação. Aqui, um adendo interessante: ao ler no primeiro conto as frases “Maíra Assaf, Quarta Série C, é puta”, impossível não lembrar (uma lembrança sonora) do título de livro Eu, Christiane F, 13 anos, drogada e prostituída ... de Kai Hermann e Horst Rieck.
Amor, infância, solidão, melancolia, resistência, ditadura militar no Brasil, desigualdade social, separações, amadurecimento, a impossibilidade de amar plenamente fora da fantasia, tudo isso é matéria em As putas escrevem. Alguns contos possuem metáforas que os tornam de realismo mágico, como Teus olhos tinham gosto de anis ou Govinda (este, inclusive, de uma maturidade exemplar, tanto formal quanto temática).
As putas escrevem faz pensar que se “o desejo do homem é o desejo do outro”, uma nova alienação, uma alienação mais voluntária, desfaz meios de controle masculinos e integra-se no desejo da Outra: puta, putíssima.
“AS PUTAS ESCREVEM"
Estava escrito na capa do livro.
Embaixo o nome da autora, o meu.
Hesitei muito para publicá-lo, mas eu tinha aquela urgência de reconhecimento. O muro da escola, o e-mail impresso e pendurado no quadrinho de cortiça me pareciam tímidos, insuficientes. Quando você é uma puta é preciso ter garantias, alardear o fato, inscrevê-lo em letras de imprensa na capa de um livro e associado ao seu nome, se não as pessoas podem usar isso contra você. Podem querer te trancar dentro de um grande armário, aqueles onde eles colocam as putas e os viados e onde eu até gostava de me esconder quando criança pra minha mãe não me achar. Ficava lá entre os ternos de linho do meu pai, e feliz por caber toda lá dentro, era escuro, era quente, era gostoso, mas uma hora me dava vontade de sair.” (excerto do conto III. O livro ou: A solidão das putas, p.69)
SOBRE A AUTORA
Marcela Fassy nasceu em Belo Horizonte (mg), em 1984, e atualmente vive em Diamantina (MG). É formada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais, especialista em artes visuais (Senac-MG) e mestre em ciências humanas (UFVJM) pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Trabalha como educadora no Instituto Brasileiro de Museus. É autora das coletâneas de contos Oniros (Urutau, 2022) e Animais cinzentos (Viseu, 2021). Foi finalista do 4º Prêmio Internacional Pena de Ouro na categoria Conto. Possui textos publicados em revistas e antologias diversas e realiza oficinas literárias.
RESENHA
Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você (Editora Peirópolis) e A Bandeja de Salomé ( Caos e Letras, 2023)
DADOS
As putas escrevemMarcela Fassy
Contos
Ed. Urutau
2024



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