por Carlos Monteiro |
| Foto de Carlos Monteiro |
Herdamos
Duzentos
anos depois da Independência, o Rio de Janeiro continua falando português não
apenas na língua, mas nos gestos invisíveis que sustentam a cidade. Há heranças
que permanecem tão incorporadas ao cotidiano que já não percebemos de onde
vieram. Estão no cheiro do café forte servido em balcões antigos, no azulejo
azul escondido em uma fachada da Saúde, no sino que toca ao fim da tarde em
alguma igreja barroca esquecida entre prédios modernos. O Rio pode ter
aprendido a sambar sozinho, mas ainda guarda, no fundo da alma, o sotaque
melancólico de Lisboa.
Basta
caminhar pelo Centro para perceber isso. As ruas estreitas da região portuária,
os sobrados coloniais sobrevivendo entre arranha-céus cansados, as sacadas de
ferro trabalhado, os conventos silenciosos — tudo parece carregado de uma
memória portuguesa que resiste ao tempo e às demolições. Em certos trechos da
cidade, especialmente quando a luz do fim da tarde bate amarelada sobre as
pedras antigas, o Rio se parece menos com uma metrópole tropical e mais com uma
velha cidade atlântica transplantada para o outro lado do oceano.
Os
portugueses deixaram mais do que prédios; deixaram hábitos.
O carioca
talvez não perceba que herdou deles o gosto pela conversa longa em mesas de
bar, esse costume de transformar cafés em extensão da sala de casa. Herdou
também uma certa saudade sem nome, uma melancolia discreta que aparece até nos
momentos felizes. O português trouxe na bagagem essa estranha capacidade de rir
enquanto lamenta e lamentar enquanto celebra — e o Rio aprendeu rápido.
Na
culinária, então, a presença portuguesa é quase diária. O arroz com bacalhau
nas sextas-feiras, os bolinhos dourados nas vitrines das padarias, os pastéis
de nata servidos agora como moda gourmet, o caldo verde em noites frias que o
carioca insiste em considerar inverno. Até a obsessão pelo pão fresco da manhã
parece uma continuação direta das antigas padarias lusitanas onde fregueses
discutiam política, futebol e tragédias marítimas.
O curioso
é que o Rio abrasileirou Portugal ao mesmo tempo em que foi moldado por ele. A
feijoada ganhou temperos locais, os doces ficaram mais exagerados, a linguagem
mais musical. O encontro entre o rigor português e a improvisação tropical
produziu uma cidade contraditória: disciplinada nos traços coloniais, caótica
na alma.
Na
religiosidade, talvez esteja uma das marcas mais profundas dessa herança. As
igrejas espalhadas pela cidade — da Candelária ao Mosteiro de São Bento — não
são apenas monumentos; são testemunhos de um Rio moldado sob procissões,
promessas e sinos. O catolicismo português construiu não apenas templos, mas
maneiras de viver o sagrado. Até hoje, festas populares misturam fé e
celebração como faziam os antigos colonizadores. O carioca acende vela e vai à
praia no mesmo dia, reza e samba com naturalidade absoluta.
Mas há
também heranças menos nobres.
Os
portugueses trouxeram desigualdades urbanas que a cidade jamais conseguiu
resolver completamente. O Rio nasceu dividido entre morro e asfalto antes mesmo
desses nomes existirem. Vieram com eles as hierarquias rígidas, os privilégios
de poucos, a ocupação desordenada feita sem imaginar o futuro. A cidade bela
também foi construída sobre exclusões persistentes.
Ainda
assim, seria impossível compreender o Rio sem Portugal. O Rio fala alto,
improvisa, cria, mistura — mas guarda em sua arquitetura, nos hábitos
cotidianos e até na forma de olhar o mar uma nostalgia tipicamente portuguesa.
Talvez por isso os cariocas tenham essa relação tão íntima com o horizonte:
foram descendentes de navegadores, afinal, mesmo sem perceber.
Duzentos
anos depois da Independência, o Brasil tornou-se outra coisa, reinventou-se
inúmeras vezes. Mas o Rio continua carregando marcas daquele velho país
espremido entre o Atlântico e a saudade. E talvez a maior herança portuguesa
seja justamente essa: a capacidade de transformar memória em paisagem e
melancolia em beleza.
Porque
poucas cidades no mundo conseguem ser tão festivas e tão nostálgicas ao mesmo
tempo quanto o Rio de Janeiro. E isso, no fundo, talvez seja a mais portuguesa
de todas as características cariocas.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade





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