Cinco autoras desmontam na literatura o mito da maternidade idealizada


Cinco autoras desmontam na literatura o mito da maternidade idealizada


Entre afetos, silêncios, frustrações e desejos, a maternidade ainda é um dos temas mais complexos da literatura contemporânea escrita por mulheres. Distante das narrativas idealizadas que associam a experiência materna a uma realização plena e sem contradições, cinco autoras brasileiras têm explorado em seus livros as ambiguidades que atravessam o tema, revelando experiências marcadas por exaustão, infertilidade, ausência, ancestralidade, pressão social e reinvenção.


No livro De Amor e Outros Ódios (Editora Patuá), semifinalista do Prêmio Jabuti 2024 na categoria Crônicas, a escritora e psicanalista Camila Anllelini transforma experiências pessoais em uma série de cartas e crônicas sobre os conflitos presentes na relação entre mães e filhas. A autora desenvolve uma narrativa moldada pela franqueza emocional e pela tentativa de reconciliar contradições afetivas. Natural de Pelotas (RS) e radicada no Rio de Janeiro desde a adolescência, Camila percorreu áreas como moda, dança e administração antes de se dedicar à psicanálise e à escrita.




Já a escritora Sabrina Alvernaz aborda a infertilidade e o silêncio em torno das tentativas frustradas de engravidar em Assistida. Em formato de diário íntimo, o livro acompanha dois anos de expectativas, angústias e procedimentos ligados à maternidade desejada, mas incerta. Doutora em Literatura pela UFSC, Sabrina escreveu o livro enquanto vivia o processo de tentar engravidar. O texto quebra com a lógica tradicional da maternidade enquanto promessa de felicidade absoluta e expõe vulnerabilidades frequentemente invisibilizadas.




Outra iniciativa que amplia as vozes femininas sobre o tema é a coletânea Escrevivências Maternas, organizada por Jo Melo a partir do projeto “Mães que Escrevem”. A publicação reúne textos de 37 autoras e utiliza o conceito de “escrevivência”, formulado por Conceição Evaristo, para explorar experiências ligadas ao cuidado, ao luto, à maternidade atípica, à solidão e à rede de apoio. Dividida em capítulos temáticos, a obra busca construir um espaço de pertencimento para mulheres que escrevem sobre maternidade fora dos modelos tradicionais.



Na poesia, a escritora piauiense Laís Romero investiga corpo, feminismo, ancestralidade e maternidade no livro Mátria (Editora Paraquedas). Dividida em três partes — “Desejo”, “Mátria” e “Pathos” —, a obra propõe uma reflexão sobre o lugar de expressão da mulher nordestina e mãe, conectando identidade, origem e exaustão em poemas de linguagem livre e imagética. A autora elabora uma narrativa voltada para o reconhecimento da experiência feminina em suas múltiplas dimensões.




A dramaturga Bruna Pinhati, por sua vez, discute maternidade e cultura digital na peça Querida Manu, publicada pela Editora Minimalismos. A trama acompanha uma influenciadora digital que finge estar grávida para ampliar sua visibilidade nas redes sociais. A partir da personagem Elisa, a autora apresenta temas como exposição virtual, autenticidade, consumo e espetacularização da vida íntima. Formanda em Artes Cênicas pela Unesp, Bruna conversa com referências que vão da literatura de Clarice Lispector à cultura pop e aos reality shows contemporâneos.