Poemário transforma o mal-estar contemporâneo em crítica social



Poeta transforma ansiedade digital, desalento pós-pandêmico e crítica social em livro de estreia


A ansiedade provocada pelo excesso de informação, a precarização do trabalho e o esgotamento emocional de uma geração são alguns dos temas que estão em “Na espera áspera”, livro de estreia do poeta e músico Neira Galvêz. Publicada pela Kotter Editorial, a obra reúne poemas que observam o presente com ironia, cinismo e uma forte dose de crítica social, compondo um retrato inquieto da vida sob o capitalismo.


Ao longo do livro, o autor aborda questões que marcaram a experiência coletiva dos últimos anos: a uberização das relações de trabalho, a mercantilização da fé, o desalento político e os impactos da hiperconectividade sobre a saúde mental. Em poemas como “brain rot” e “diário noturno para os sociólogos do futuro”, a alienação digital nasce sintoma de uma sociedade marcada pela insônia, pela sobrecarga informacional e pela incerteza em relação ao futuro. A obra adota um tom ao mesmo tempo debochado e melancólico. Embora o diagnóstico apresentado por Neira seja pessimista, seus versos não se limitam ao desalento. Em meio ao colapso das utopias e à sensação de esgotamento coletivo, o autor procura  identificar pequenos gestos de afeto e resistência capazes de apontar para novos caminhos.


Filho e neto de exilados políticos da ditadura de Augusto Pinochet, o escritor nasceu em São Bernardo do Campo, região que durante décadas simbolizou a industrialização brasileira. Essa vivência atravessa sua escrita, permeada pela observação crítica das transformações sociais, econômicas e culturais do país. Entre a rotina corporativa e a criação artística, Neira entrega uma poesia que  se equilibra entre a linguagem burocrática do presente e as inquietações existenciais de uma geração que cresceu sob a promessa de um futuro cada vez mais distante.


Influenciado por nomes como Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Alberto Pucheu e Claudia Roquette-Pinto, além de letristas e músicos como Arnaldo Antunes, Renato Russo, Mano Brown e Marcelo Yuka, o autor desenvolve uma linguagem que mescla rigor formal, oralidade e inquietação política.


Em tom de confissão, manifesto e registro de época, “Na espera áspera” apresenta uma leitura mordaz do presente, convertendo o desalento pós-pandêmico, a ansiedade digital e as frustrações coletivas em uma poesia que interroga os rumos da sociedade contemporânea


Poemas do livro



na espera áspera do que está adiante”


antigamente o futuro era brilhante

agora tudo é nostalgia serial

como um velório da esperança diletante

ou quarta-feira ao final de carnaval


eu sinto um cansaço que paira no ar

uma apatia geral da plateia humana

quase torcendo para o mundo se acabar,

ou talvez seja eu perdendo a pouca gana…


talvez seja eu sem uma fé praticante

talvez seja eu sem convicções políticas

talvez seja eu, homem deste tempo e instante,


sob sintomas que a ciência não explica.

o que sei é deste amargo que ainda fica

na espera áspera do que está adiante



diagnóstico contra a beatificação da

mediocridade


sobejos não há.

há migalhas institucionais

pelas quais gabaram-se como santos

estes sociais democratas do pau oco

por décadas afora.

agora, o que sobra,

além de temermos pelo pior,

é que a esperança irrompa

como um verme

nos corações e mentes

da humanidade (remanescente).



diário noturno para os sociólogos do futuro


vídeo de humor meme dou risadas de uma pessoa com

demência mando para os colegas fico indignado com uma

celebridade escrota sinto inveja dos ricos dou mais risadas

de uma montagem meme fato histórico revelador que agora

já não fará diferença mando para os colegas dou risada de

algo nostálgico propaganda de imóveis fico indignado

com comentários sobre o noticiário dou risadas nostalgia

nostalgia propaganda sobre transplante capilar sinto mais

inveja dos ricos propaganda de curso para ficar rico meme

fato científico curioso não tenho com quem compartilhar

propaganda de curso que jamais farei meme dou risadas

de pessoas caindo sinto sono não consigo dormir desligo o

celular relutante penso na morte e no corinthians jamais irei

me aposentar amanhã vai ser difícil acordar meme.




Nascido em 1994, Neira Galvêz é um poeta e compositor de São Bernardo do Campo que publica suas experiências poéticas em sua página do Instagram desde 2017. Além do projeto de poemas, é também compositor e músico, com mais de 3 álbuns lançados com sua banda, LAVOLTA, além de ter obras gravadas com proeminentes nomes da música underground brasileira como 1LUM3 e Vivian Kuczynski. Testemunha da decadência de uma região que já foi símbolo da industrialização do país, filho e neto de exilados políticos da ditadura de Pinochet, Neira transita entre o mundo corporativo e a criação artística, tensionando os limites entre a linguagem burocrática e a poesia. “Na espera áspera” é seu poemário de estreia.



FICHA TÉCNICA

Livro: Na espera áspera

Autora:  Neira Gâlvez

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Número de páginas: 88

ISBN: 978-65-5361-570-0

Gênero: Poesia

Editora: Editora Kotter

Ano: 2026

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