por Taciana Oliveira |
Jeanine Geraldo
utiliza o insólito e o drama psicológico para examinar violências cotidianas,
silenciamentos e as múltiplas faces da experiência feminina
Em “Retratos
de Mulher” (Urutau,2025), Jeanine Geraldo apresenta uma coletânea de contos que se insere com
naturalidade no atual movimento da literatura escrita por mulheres que tem
explorado as zonas de contato entre o horror, o insólito e a experiência
cotidiana. Entretanto, o que distingue a obra não é apenas a presença de
elementos sombrios ou perturbadores, mas a maneira pela qual eles surgem de
situações profundamente reconhecíveis. O horror, aqui, raramente vem do
sobrenatural. Ele nasce daquilo que a sociedade normalizou.
Logo na
abertura, com o conto “A Enforcada”, a autora evidencia sua proposta estética.
Narrada sob o olhar de uma criança, a história conduz o leitor em uma atmosfera
típica do terror clássico para, aos poucos, revelar uma violência muito mais
concreta e devastadora. O deslocamento do medo sobrenatural para o abuso real
sintetiza uma das principais estratégias da coletânea: destacar que os monstros mais perigosos
costumam habitar espaços familiares.
Ao longo dos dezenove contos, Jeanine investiga diferentes aspectos da condição feminina. Maternidade, sexualidade, envelhecimento, violência simbólica, abuso, culpa e silenciamento aparecem sob múltiplas perspectivas, sem que a autora transforme suas personagens em meros símbolos. São mulheres contraditórias, ora vulneráveis, ora cruéis, sempre complexas. Essa recusa em idealizar o feminino talvez seja uma das maiores qualidades do livro. Um dos textos mais expressivos da coletânea é “Lençóis Manchados de Vinho”. Nele, a autora desmonta as imagens romantizadas da maternidade e do casamento através de uma narradora que vê sua identidade dissolver-se entre as exigências do cuidado e as expectativas impostas à mulher. O conto se destaca pela construção de uma voz narrativa marcada pelo ressentimento, pela lucidez e por uma dolorosa consciência de si. A maternidade surge não como realização inevitável, mas em uma experiência ambígua, atravessada por amor, exaustão e perda.
Do ponto de
vista formal, Jeanine demonstra domínio da narrativa curta. Seus contos
apresentam ritmo, economia de recursos e uma linguagem que oscila entre a
delicadeza poética e a contundência emocional. Há imagens que permanecem na
memória muito depois da leitura, resultado de uma escrita que compreende o
poder da sugestão e da atmosfera.
Embora seja
possível identificar ecos de Mariana Enriquez e Samanta Schweblin, Jeanine
Geraldo desenvolve uma voz própria, ancorada na realidade brasileira e em suas
especificidades culturais. O terror em “Retratos de Mulher” não depende de
fantasmas, monstros ou assombrações; manifesta-se na estrutura das relações
sociais, familiares e afetivas. Mas reduzir o livro à categoria do horror seria
insuficiente. Há também reflexões sobre memória, infância, luto e
pertencimento. Alguns contos flertam com a metalinguagem, enquanto outros
assumem tons mais líricos ou psicológicos.
O conto
final, “Retratos de Mulher”, funciona enquanto síntese das inquietações
presentes em toda a obra. Ao apresentar uma personagem simultaneamente vítima e
agente da violência, Jeanine rejeita leituras simplistas e propõe uma reflexão
mais complexa sobre os mecanismos de opressão e reprodução do poder. A pergunta
que atravessa o livro — o que significa ser mulher? — permanece sem resposta
definitiva, mas ganha novas camadas a partir das experiências e contradições
apresentadas ao longo da obra.
"Retratos de
Mulher" é, portanto, uma obra sobre as estruturas invisíveis que moldam
vidas, afetos e traumas. Que provoca desconforto, reflexão e
reconhecimento, que lembra ao leitor que, muitas vezes, o mais assustador não
está no escuro, mas naquilo que aprendemos a considerar normal.
Para conhecer
mais sobre o processo de criação do livro, as influências da autora e os temas
que atravessam seus contos, convidamos você a acompanhar a entrevista com
Jeanine Geraldo.
1.
Em "Retratos de Mulher", o terror não
surge de elementos sobrenaturais, mas de experiências como o abuso, a violência
e o silenciamento. O que te levou a utilizar recursos do horror e do insólito
para abordar questões tão presentes na vida cotidiana das mulheres?
O conto, como
gênero literário, trabalha com a concisão e o subtexto, a sugestão. A questão
que eu tinha em mente era justamente como fazer com que o texto tenha o máximo
impacto, como fazer o leitor sentir esse choque de realidade? Foi a partir
disso que optei por trabalhar com o contraste entre o horror do real e do
sobrenatural. No conto “A enforcada”, por exemplo, acho que consegui atingir
esse objetivo, porque a princípio o leitor é levado a crer que se trata de uma
história de horror tradicional, de fantasmas, quando na verdade é algo bem pior
que isso. Acredito que o susto aqui seja bem maior do que simplesmente usar um
ou outro.
2.
Você afirma que suas histórias nascem das suas
experiências e observações da sociedade. De que forma a vivência pessoal e o
olhar de pesquisadora da literatura dialogam durante o seu processo de criação?
Por se tratar de narrativas centradas em personagens femininas, um pouco da minha própria experiência como mulher foi projetada diretamente nos contos, como a relação com o corpo, por exemplo. Outras situações em que as personagens trazem vivências que eu ainda não experienciei na pele, como a maternidade, vieram de leituras e das histórias de pessoas próximas, o que também não deixa de ser uma forma de experiência. É possível se apropriar dessas vivências alheias através da narrativa, e aí está também o poder da literatura. Acredito que meu olhar de pesquisadora atua exatamente nesse ponto: de captar essas histórias, coletá-las, para então transformá-las em narrativas e de usar a literatura como forma de investigação das experiências. Escrever é, também, uma forma de experimentar o mundo.
3.
Contos como “Lençóis Manchados de Vinho” abordam
temas pouco explorados na literatura, como a sexualidade e a perda de
identidade após a maternidade. Qual a importância de trazer essas
experiências femininas para o centro da narrativa?
Acho que meu contato com outras mulheres que vivenciam a maternidade e a leitura de autoras que retratam essa vivência em suas obras foram os principais motivadores. Na época em que escrevi esse conto, estava aficionada pela literatura da Elena Ferrante e uma das questões que ela aborda é justamente esta: a relação entre mulher e mãe num mesmo corpo. Ela foi uma inspiração para a escrita do texto que também é uma maneira de me colocar nesse lugar, de investigar essa vivência através da experiência discursiva.
4.
Os contos de "Retratos de Mulher" apresentam
narradoras e personagens marcadas por diferentes formas de violência, desejo,
perda e resistência. Como foi o processo de reunir histórias tão distintas em
uma coletânea que, ao mesmo tempo, mantém uma unidade temática tão forte?
“Retratos de Mulher” já nasceu com a intenção de parecer um álbum de fotos. Eu queria que cada conto retratasse uma mulher e o conjunto funcionasse com uma inquietação, como se a composição propusesse ao leitor a pergunta que me motivou a escrever o livro: o que é ser mulher? Porque, de fato, o livro não responde, e nem essa era a minha intenção. Os temas que aparecem no livro não foram necessariamente pensados, no sentido de eu ter me colocado o trabalho de contar histórias sobre alguma coisa. O que eu queria era falar sobre a experiência de ser mulher e aí esses temas inevitavelmente surgiram.
5.
O conto que dá título ao livro apresenta uma mulher
que ocupa simultaneamente os lugares de vítima e algoz, rompendo com visões
simplificadas sobre o feminino. Você acredita que a literatura tem o papel de
desafiar essas categorias e mostrar personagens femininas em toda a sua
complexidade e contradição?
Com certeza. A
mulher não pode ser vista apenas como vítima de uma sociedade patriarcal,
porque isso seria colocá-la como imune a essas estruturas de poder, quando na
verdade essas estruturas fazem parte daquilo que nos forma. O patriarcado,
assim como o racismo, é estrutural e, caso essas estruturas não sejam trazidas
à consciência, dificilmente deixaremos de reproduzi-las. Para tanto, é
necessário que, enquanto mulheres, nós reconheçamos esses discursos presentes em nós
mesmas. Retratar também essas mulheres foi uma forma que encontrei de apontar
esse aspecto.
Jeanine Geraldo é escritora e professora no Instituto Federal do Paraná. Pós-doutoranda em Letras pela UFPR, é pesquisadora na área de Literatura com ênfase em crítica literária, e vive tentando conciliar a vida acadêmica, os treinos de jiu-jitsu e a urgência da escrita. É autora de O animal que me tornei (2018), As folhas vermelhas do outono (2020), premiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná (Edital 003/2020 - Licenciamento de Obras Digitais), Alcateia (2022) e Retratos de Mulher (2025), 2º lugar no I Prêmio Escritoras Brasileiras na categoria narrativas curtas.
Serviço:
Livro: Retratos de Mulher
Autora: Jeanine Geraldo (@jeanine.geraldo)
Editora: Urutau
Páginas: 164
Preço: R$ 58,00
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*Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.
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