por Taciana Oliveira |
A poesia enquanto rito e pertencimento
Em A intimidade dos espíritos: dançando haicai-cordel, Daniel Glaydson Ribeiro apresenta um encontro entre formas poéticas, tradições culturais e experiências espirituais que, à primeira vista, poderiam parecer inconciliáveis. Publicado pela Editora Patuá, o livro reúne haicais, cordéis, poemas em verso livre, aforismos e textos híbridos, desenhando uma obra que se move entre a contemplação, a oralidade, a crítica social e a celebração das ancestralidades afro-indígenas.
A "intimidade" evocada não diz respeito apenas ao universo individual, mas a uma forma de convivência com os espíritos, a memória, a linguagem e a comunidade. Essa aproximação se manifesta desde os primeiros poemas, quando invocações a orixás, caboclos e entidades da Umbanda convivem com referências a Guimarães Rosa, Rainer Maria Rilke, Bertolt Brecht, Mário de Andrade e à tradição do haicai japonês. A intersecção entre essas matrizes não procura apagar diferenças; ao contrário, ressalta a pluralidade que abraça a cultura brasileira.
Um dos aspectos mais interessantes do livro é sua recusa em estabelecer fronteiras rígidas entre erudito e popular. O autor faz do haicai e do cordel linguagens complementares. Enquanto os poemas breves resumem imagens — como em Madrigal-haicai ("Você é mais cheiroso / que o sertão / depois da chuva") ou Sereno ("Chuva do caju / um serenin pingo d'água — / saltam as castanhas") —, os cordéis ampliam o olhar para questões coletivas, aproximando poesia, educação, memória e compromisso social.
Essa variedade formal não fragmenta a leitura. Ao contrário, os textos se sucedem enquanto movimentos de uma experiência poético-sonora. As três partes que organizam o livro — Ventre, Volta e Aberto — sugerem um itinerário que parte da origem, atravessa a condição existencial e desemboca na abertura para o outro e para o mundo. A espiritualidade e a poesia caminham juntas sem que a primeira se imponha como doutrina. Os poemas de invocação, dedicados a Exus, Erês, Oxum, Iansã, Nanã e outras entidades, operam menos como profissão de fé do que construção estética. A repetição de nomes, aliada à musicalidade e ao ritmo, aproxima muitos poemas da oralidade dos rituais, fazendo com que a leitura evoque a cadência dos cantos e das celebrações religiosas.
Em poemas como “A Thiago de Ọya”, o desejo não se reduz à paixão ou ao encantamento amoroso. Ele se manifesta enquanto criação atravessada pela linguagem, pela ancestralidade e pela espiritualidade, destacando o íntimo em forma de encontro entre corpos, memórias e palavras. Ao lado dessa dimensão íntima, os versos reservam espaço para reflexões sobre educação, desigualdade, violência e meio ambiente. Nos versos de “Educação em Cordel”, o poeta recupera a tradição popular para defender o ensino em um instrumento de transformação social. Já em “O Cordel do Cuidado”, presta homenagem às babás e professoras, denunciando a invisibilidade e a desvalorização do trabalho do cuidado. Em “Escudo de Corais’, volta-se para a crise ambiental e para a necessidade de proteger os ecossistemas brasileiros. A crítica nunca assume um tom panfletário; nasce da observação do cotidiano e da confiança de que a poesia é mecanismo de resistência.
Chama atenção a liberdade com que Daniel Glaydson trabalha a linguagem. Neologismos, jogos sonoros, referências literárias, expressões sertanejas, palavras de origem tupi, iorubá e banto convivem naturalmente na mesma página. Ao invés de buscar uniformidade, o autor incorpora diferentes registros e tradições sem perder sua unidade poética. Essa abertura formal aproxima sua escrita tanto da experimentação modernista quanto da oralidade popular. A diversidade formal do livro impede qualquer leitura homogênea. Haicais, aforismos, poemas em verso livre e cordéis convivem sem hierarquia, compondo uma escrita que faz da variedade um de seus princípios. Daniel Glaydson não procura uniformizar sua voz poética, mas explorar as possibilidades de cada forma para ampliar o alcance de sua reflexão.
Dividido em Ventre, Volta e Aberto, o livro desenvolve uma trajetória em que nascimento, transformação e abertura ao mundo se entrelaçam. Nesse movimento, Daniel reúne religiosidade, homoafetividade e tradição nordestina em uma poesia entrecortada pelo encontro de diferentes heranças culturais. Influências afro-brasileiras, indígenas, árabes e orientais produzem versos em que ritmo e experimentação caminham lado a lado.
O autor faz da poesia território de diálogo entre diferentes tradições culturais, linguísticas e espirituais. Ao aproximar o sertão e a cosmologia afro-indígena, o haicai e o cordel, a oralidade e a experimentação poética, ele desenvolve uma obra cuja unidade nasce da convivência entre essas diferentes matrizes. A obra revela uma poética atenta às possibilidades da língua e comprometida com a memória, a ancestralidade e a coletividade, incorporando também referências LGBTQIA+ de maneira orgânica, sem transformá-las em exceção ou manifesto. O resultado é uma poesia em que identidade, espiritualidade e desejo coexistem com naturalidade, oferecendo ao leitor uma experiência que ultrapassa a página e permanece enquanto escuta, reflexão e presença.
POEMAS DO LIVRO
Vocação
Entre Santos e Almas
Fés Demandas e Matas
Justiça Ventos e Águas
Falange das Sereias Ondinas Caboclas
do Mar dos Rios das Calungas
dos Eguns das Icamiabas
dos Pretos-Velhos Quenguelê
Legião das Caboclas Juremas
Sete Encruzilhadas Tamoios Guaranis
Rompe-Mato Rompe-Água
Rompe-Chão Rompe-Céu
Iara Megê Naruê Malê Nagô
Regência de Exu João Caveira
Exu Brasa Veludo Tranca-Ruas Pagão
Omulu-Rei Gererê Gira-Mundo Exu dos Rios
Legião dos Cangaceiros e das Pombagiras
Laroyê Mojubá! Saravá!
Madrigal-haicai
Você é mais cheiroso Que o sertão Depois da chuva.
A Thiago de Ọya
I
Sempre tive queda pela loucura
Mas só agora caí como quem voa
No céu verde escuro de teus olhos
Quase cacimba, quase leoa.
Tu me deixas leve como um circo
E eu salto feito um trapezista
Querendo cair naquela rede
Bem pertinho da tua vista.
És dono e és vassalo de minha alma,
Meus segredos conheceste até o fim:
Nas noites em que me tens, amas com a calma
Que um dia eu sonhei haver em mim.
Tua boca é um livro de Guimarães Rosa
No exato instante em que Diadorim.
Tu, montado em teu cavalo,
És mais belo que o príncipe de Exupéry.
Meu caboco fogo e chuva,
Oxum, Oxóssi e Iansã
Te protejam no Ontem, no Hoje
E no Amanhã.
II
Teu prisioneiro é o fogo
Danças com ele no altíssimo
Morro do querosene
Enquanto o incêndio sou eu
Tuas mãos negras: teus pelos vastos
Teus malabares naquele quarto indivisível
Aos saltos de finos dedos
Roubaste-me algo: preto de Jacques Roubaud
Minhas costas teu caminho eterna manhã
Ao encontrar o teto e as paredes
Corações
Eu te abraçava com a loucura dos narcóticos
Você veio sem agruras
E entrou em mim
Como um caracol
Em sua casa
III
De onde você tira essas ideias?
Perguntou-me deitado naquela cama antiga
De madeira de lei
Paideuma
Enquanto lia outra página do impublicável livro
As cidades teriam muralhas para além que as de Shih
Huang Ti, porque aéreas
Página em que caçávamos borboletas
E oferecíamos olhos em holocausto
À ausência dos pais
Tu me entendias como eu nunca
A nadie
E eu te adorava como só a poesia o sabe
Naquelas telhas baixas o tempo passava
A olhos nus
E eu te lia, te lia
Telia
Dentro e fora
Sereno
Chuva do caju,
Um serenin pingo d’água
— Saltam as castanhas.
Maria Rilke
Dele nada me resta
além das rasuras nas Cartas
a um jovem poeta
“Com efeito, a experiência artística
está tão incrivelmente perto
da experiência sexual
no sofrimento e no gozo,
que os dois fenômenos não são senão formas
diversas
da mesma saudade e
bem-aventurança.”
Basta-me um traço, um rabisco teu
para arrepiar as carnes
e os cabelos.
Sem título
Curimãs, cura mansa
Brilho do mar
Quando menos é mais.
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Daniel Glaydson Ribeiro é poeta, tradutor, músico, performer e professor de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Federal do Piauí (IFPI). Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), desenvolveu pesquisas sobre a obra de Jorge de Lima e transita entre a poesia, a crítica literária e a tradução. É autor de Marcescível (2020), Pulsão de língua (Selo Mirada, 2021), Emergência climática (2022), Eu sou duas (Selo Mirada, 2025) e A intimidade dos espíritos: dançando haicai-cordel (Editora Patuá, 2026). Sua produção dialoga com a tradição modernista, a cultura popular brasileira e as matrizes afro-indígenas, explorando diferentes formas poéticas e experiências de linguagem.

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