por Adriane Garcia |
Arqueologias, de Prisca Agustoni
Prisca Agustoni dá ao seu livro o nome Arqueologias. Poderia tê-lo intitulado no singular, mas o fez no plural e essa é uma das primeiras chaves com as quais podemos penetrar no reino de suas palavras. Arqueologias são várias. O que faz uma arqueóloga? Escava, retira camadas, procura cuidadosamente material para reconstruir o passado e narrar uma história. Narrar uma história é um feito da memória, mas a memória, sabemos, é também um exercício imaginativo. Do material pulverizado aqui e ali, por vezes quebrado, gasto, incompleto, a arqueóloga necessita encontrar um elo, colar com o rigor empírico de sua ciência, mas também com imaginação, as fendas entre um achado e outro, as lacunas. É por meio de um exercício parecido que a poeta Prisca Agustoni constrói versos nesse livro.
Seus artefatos, a matéria-prima para erguer a narrativa poética, são aqueles já encontrados por “arqueólogos” anteriores, principalmente o fotógrafo Marcel Gautherot, somado a outros, entre os quais Elizabeth Bishop, Lazar Segall, Blaise Cendrars ou mesmo Villa-Lobos, cuja música a poeta indica como trilha sonora para o seu sítio arqueológico, também feito de erudição e brasilidade. O maravilhamento de suas descobertas é o poético, aquele do olhar da criança olhando pela primeira vez. E não é assim o olhar de uma arqueóloga diante da raridade encontrada? Prisca Agustoni está de chegada em uma nova terra, o Brasil, e é com seu olhar estrangeiro que apreende cada imagem. As palavras da nova pátria compõem os valiosos tesouros encontrados, com elas a poeta realiza o poema, escolhendo com rigor os vocábulos: “e essa língua/ que repete// senzala aipim quintal/ senzala aipim quintal”. Aqui, a etimologia (o quimbundo, o tupi e o latim) revela, no idioma, a presença dos grandes grupos da formação do povo brasileiro. Longe de qualquer ideia de democracia racial, a poeta, no poema “chegada (2)” utiliza a citação dos versos do poeta brasileiro Heleno Afonso Oliveira, também migrante, este em Florença, para se posicionar: “pois eu também estou/ com os que não/ são nem exóticos/ nem mansos”.
As fotografias de Marcel Gautherot sobre o Brasil pertencem ao passado que a poeta descobre na composição do seu próprio presente de radicada (aquela que cria raiz); da mesma forma a poeta toma como objeto arqueológico as vidas de personagens tão migrantes quanto ela. Pátria é principalmente língua, língua-mãe, língua-mátria, frátria, desejou Caetano Veloso. A língua em Arqueologias aparece como recurso metalinguístico explícito e mesmo implícito, já que Prisca Agustoni ao compor o poema em português – sendo ela uma poeta poliglota nascida na Suíça – sabe que sua relação com a língua do país em que escolheu viver desde 2002 é uma relação de conquista: “levo na língua / as pátrias como os peixes// escorregando”. Por viver a língua com toda a consciência do que significa escrever em outro idioma que não o idioma de infância, a poeta registra que, no começo, a palavra de um(a) estrangeiro(a) é enxuta. Aprende-se na concisão. Há uma profunda identidade entre a poeta e a persona-lírica de seus poemas concisos, enxutos, sem qualquer desperdício, mas também sem falta: “Entrou naquele café/ com amigos/ em Saint-Germain-de-Prés// logo fez da palavra enxuta/ exato movimento:// exilou-se/ para além dos escapulários/ em direção à moagem// a reboque dos pescadores/ e de caatinga”.
O elemento tempo é crucial na poesia de Arqueologias. Se Marcel Gautherot capturava o presente, tornando-o fixo na fotografia, Prisca Agustoni captura a fotografia de Gautherot de uma perspectiva do futuro em relação àquele artista. Desse modo, ela pode dar ao poema (e à fotografia que observa) tons de profecia: “mas há sombras que se alongam/ tentáculos terrosos e queimados/ que ainda nos lembram/ quem seremos”. A persona-lírica se reconstrói no contato com a nova cultura, sua identidade anterior é modificada. No senso comum, a identidade é erroneamente pensada como um bloco, um monolito, mas ela é múltipla e fluida, pois uma pessoa apresenta muitas facetas e está sempre se reconstruindo ao longo da vida. A identidade é um resultado de constantes perdas e acréscimos, tendo algo de fixo e algo sempre flutuante. Assim como a poeta fala em arqueologias, podemos também falar de identidades em uma mesma pessoa. Quantos somos? Quantos nos compõem? Quantos ainda hão de nos compor? No caso de uma poeta cosmopolita, o trânsito interno de saberes e afetos é ainda maior.
A arqueóloga-poeta busca encontrar o que, de certa forma, todos nós procuramos. Saber quem somos como indivíduos e como nação. Algumas palavras usadas nos poemas chamam a atenção para o movimento de chegadas e partidas: exilou-se, navios, mar, fronteira, solidão, portrait, terra, país, barco, rios, viagem, embarque. Uma interseção de descoberta, memória e imaginação se presentifica em Arqueologias. A posição privilegiada da poeta se bifurca em duas: ela está de fora, ela está de dentro. O país de Arqueologias causa espanto, encantamento, atração, perplexidade. Na poesia, a pergunta ao artefato está repleta de afeto. Arqueologias, de Prisca Agustoni, reparemos, é uma declaração de amor.
bagagem
O encontro foi
no tempo dos caquis maduros.
Eu também amadurecia
bairros que em mim
já tinham algum nome.
Genealogias estrangeiras,
meu avô que falava
um inglês locarnês.
O encontro foi
na encruzilhada dos navios
zarpando da praça
em direção à fronteira dos javalis.
O porto
essa longa e sempre outra
visão da bruma:
o horizonte some na alma,
difusas as caravelas de outros tempos
renova-se, no rastro do barco
que vai, o espectro da morte
que zarpa, vez por outra,
no porto da nossa eterna noite
***
Arqueologias
Prisca Agustoni
Ed. Peirópolis
2024
Poesia
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Prisca Agustoni nasceu na Suíça italiana e, desde 2002, mora no Brasil. É poeta, tradutora e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora. Escreve e se autotraduz em italiano, francês e português. Entre seus livros destacam-se Animal extremo (Patuá, 2017), O mundo mutilado (Quelônio, 2020), Rastros (Círculo de Poemas, 2022), Pólvora (Macondo, 2022), O gosto amargo dos metais (7Letras, 2022), vencedor dos prêmios Cidade de Belo Horizonte e Oceanos 2023, e Arqueologias (Peirópolis, 2024).
Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você (Editora Peirópolis), A Bandeja de Salomé ( Caos e Letras, 2023) e Atlas de Anatomia (Caos e letras,2026).
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