Agridoce Filosofia dos Domingos: se mostrar às cidades, se expor às esquinas

 por Mayk Oliveira |



Agridoce Filosofia dos Domingos: se mostrar às cidades, se expor às esquinas

Viajar nunca foi apenas deslocar-se. Desde Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss, sabemos que a travessia é significa um confronto com os limites do olhar. Em Galáxias, Haroldo de Campos transformou a própria viagem em linguagem, dissolvendo fronteiras entre paisagem, memória e escrita. Outro exemplo parecido, encontramos em A Conquista da América, onde Tzvetan Todorov demonstra que a descoberta fala menos sobre aquilo que é encontrado do que sobre quem pretende encontrar. Em comum, essas obras recusam a viagem como simples acúmulo de lugares visitados; compreendem-na como uma experiência de desorientação, de encontro com a alteridade e de revisão permanente das próprias certezas.

É seguindo essa tradição que vem à tona Imagens da Alegre Melancolia: Perda e Existência na América do Sul e do Futebol (Editora Campo ou Bola, 2026), quarto livro de Vitor Ribeiro Santos, que se apresenta com a singularidade de desenhar cartografia do continente a partir do futebol. Os estádios substituem monumentos, as arquibancadas tornam-se observatórios da vida cotidiana, e as estradas, os bares, as esquinas, os hotéis e os encontros fortuitos passam a constituir uma geografia afetiva da América do Sul. O futebol comumente objeto de análise tornar-se método de conhecimento, uma linguagem capaz de afirmar que viajar é aprender a habitar o desconhecido. O livro trata de uma reflexão sobre a experiência, estética e os limites da linguagem, a partir do futebol. 

O texto se encontra entre o ensaio, o relato de viagem e a reflexão filosófica. Vitor Ribeiro-Santos percorreu diferentes cidades da América do Sul movido por um desejo que ultrapassa o turismo esportivo. As imagens reunidas nele nasceram de viagens realizadas entre 2024 e 2025, além de uma breve passagem em 2015. Contudo, a cronologia desses deslocamentos interessa menos que a intensidade de cada encontro.   Viajar foi uma maneira de conhecer o futebol, mas, sobretudo, de experimentar aquilo que permanece desconhecido em si mesmo, no outro e no próprio mundo. Para autor/viajante estar em deslocamento vale mais do que todos os anos que possam ser recordados no conforto posterior do sofá. 

Essa perspectiva justifica a própria arquitetura da obra. O livro se organiza nos capítulos, Abertura, seguida por Aqui, Agora, A Gente, Epílogo e Coda. Todavia, essa divisão não pretende impor uma ordem definitiva ao vivido. É reconhecida que essas partes existem apenas para organizar uma narrativa que não pode deixar de ser fragmentária, pois o sentido continua sendo construído enquanto é narrado. Os movimentos se agrupam tentando estabelecer relações entre experiências que jamais reproduzirão fielmente aquilo que foi vivido, mas conseguem preservar algo importante: o sentimento. As palavras assumem a tarefa de registrar o efêmero e tornar compartilhável uma experiência que, de outro modo, permaneceria apenas como memória individual. 

Existe uma diferença vultuosa entre estar viajando e ter viajado. Sobre essa sentença, taxamos: a segunda condição pode ser contabilizada em quilômetros percorridos, cidades visitadas ou fotografias arquivadas. A primeira, porém, escapa a qualquer medida, porque pertence ao tempo da experiência. A distinção é decisiva. Como escreve o autor, um instante não tem fundo. Embora Vitor Ribeiro Santos escreva de maneira mais ensaística e narrativa, a viagem não se resume a contar o que aconteceu. O deslocamento organiza o pensamento. As cidades, os estádios, as conversas e o futebol tornam-se modos de refletir sobre espaço, tempo e alteridade. A América Latina se revela estar muito além da empáfia do Brasil. Pois o mundo de um correntino, de um albiverde, de um celeste e de um carbonero tem seus próprios estilos e linguagens.

Essa disposição para o deslocamento implica também aceitar a vulnerabilidade. O narrador tenta extrair algo dessa condição excepcional, calculando o ônus de ocupar lugares para os quais não foi convidado. Condição essa que permite assumir posições inevitavelmente ambíguas, que jamais acontecem simultaneamente, mas que compõem a própria condição do viajante. O conhecimento, portanto, é fruto dessa exposição ao inesperado.

Encontramos o verde da grama e também igualmente os bairros, os vendedores ambulantes, os bares, as caminhadas e as pequenas liturgias que antecedem o apito inicial. A viajem não está condicionada a começar quando a bola rola nem termina quando o árbitro encerra o jogo. O futebol é, no percurso, uma forma de existência; um modo de habitar o mundo. Vitor compreende o jogo como uma das formas originárias da cultura, um espaço em que a vida cotidiana é momentaneamente suspensa para dar lugar a outra ordem de experiências, regida por seus próprios ritos, tempos e pertencimentos. Entrar em um estádio, caminhar até uma arquibancada, compartilhar o silêncio ou o grito  significa muito além de assistir a uma partida; participar de uma comunidade provisória que reinventa a cidade, que reorganiza o tempo e atribui novos sentidos ao espaço, é o sentimento experimentado e descrito.

O livro Imagens da Alegre Melancolia: Perda e Existência na América do Sul e do Futebol (editora Campo ou Bola, 2026), e seu título poético, percorre de verdade um continente seguindo os rastros de uma cultura que se manifesta nas ruas, nos bairros, nas esquinas, nos hotéis, nas conversas e nos encontros inesperados. Revela que viajar não consiste em mudar de lugar. Faz aceitar que o mundo excede qualquer tentativa de organizá-lo e que toda narrativa será inevitavelmente incompleta. E que, embora as palavras jamais reproduzam integralmente a vida, elas conseguem (devem? conseguem?) transformar o vivido em experiência compartilhável. 

Seu olhar compreende que o futebol não termina nas quatro linhas, continuando nas pessoas, na memória dos lugares. O jogo não é um fim em si mesmo, senão uma outra linguagem por meio da qual a América do Sul revela suas formas de existir. Vitor Ribeiro Santos nos entrega um livro que faz do futebol uma filosofia dos domingos e das viagens uma maneira de existir. Nos deixa afirmar que a descoberta fala menos sobre aquilo que é encontrado do que sobre quem pretende encontrar. Que a viagem é uma autobiografia. Aquilo que encontramos importa, mas a forma como olhamos, interpretamos e somos transformados por esse encontro revela quem somos ou quem estamos nos tornando. Que não existe um olhar neutro sobre o mundo. Quando alguém viaja, observa ou "descobre" um lugar, essa descoberta é sempre filtrada por sua história, seus valores, seus desejos, seus medos e suas expectativas. Em outras palavras, o que enxergamos diz tanto sobre nós quanto sobre aquilo que estamos olhando.

Em Imagens da Alegre Melancolia: Perda e Existência na América do Sul e do Futebol (editora Campo ou Bola, 2026) a verdadeira "alegre melancolia" anunciada pelo título é a combinação da previsível contradição com a presença da consciência de que toda alegria carrega consigo a possibilidade da perda e de que toda perda preserva alguma forma de permanência. O futebol se torna uma linguagem capaz de falar do tempo, dos afetos, das derrotas, das amizades e daquilo que permanece quando o jogo acaba.


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Vítor Ribeiro-Santos é natural de Candeias, Bahia. Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, ganhou o prêmio Alceu Amoroso Lima pela Academia Brasileira de Letras. Além disso, publicou Pronunciar o Chão (2023-25), Thales, ou O Desconhecimento (2024) e /um mapa das ruínas/ (2024). É primeiro volante.




Mayk Oliveira é sertanejo de Delmiro Gouveia, Alagoas. Poeta, escritor, colunista da Revista Navalhista, músico, fiscal sanitário e professor de Língua Portuguesa e História. Seus textos estão publicados em antologia Novos Poetas Alagoanos Cena #1 (Parresia,2020), Antologia Palavras São Navalhas (Editora Sertão Pasárgada, 2025) na plaquete Tempo Lembrado (Forja,2023). Publicou os livros de poemas O Livro dos Delírios (Parresia, 2020) e, de forma independente, o livro Pétrino Astéri (2021). Seu livro de poesias mais recente é Revoluteia (Urutau, 2025). Ambientalista por essência, cultiva uma roça orgânica com flores e plantas nativas.