por Carlos Monteiro |

Fotos de Carlos Monteiro
Amor, uma
ode à musa inspiradora
Amor, uma ode à musa inspiradora
Dizem
que o amor é uma fraqueza. Nunca acreditei nisso. Se fosse, não existiriam os
poetas, os pintores, os músicos e, muito menos, os fotógrafos. O amor enxerga
longe. Descobre detalhes onde os distraídos veem apenas rotina. É uma lente de
aumento para a alma.
Conheci
gente que atravessou oceanos por causa de um grande amor. Outros escreveram
livros, compuseram canções e pintaram quadros. Eu, que sempre caminhei com uma
câmera pendurada no pescoço, aprendi que uma musa inspiradora não muda apenas o
coração de um homem; muda também o jeito como ele olha o mundo.
Dizem
que o amor muda as pessoas. Talvez mude apenas o olhar. E isso já basta. Quem
ama enxerga o que passa despercebido. A luz sobre uma janela. O vento brincando
com os cabelos. O silêncio entre duas palavras. A beleza mora nesses pequenos
instantes.
Sempre
achei que fotografava paisagens. Descobri, com o tempo, que fotografava
sentimentos. O mar era apenas cenário. A montanha, moldura. A verdadeira imagem
estava nos olhos de quem caminhava ao meu lado. Toda musa inspiradora possui
esse dom. Não precisa fazer discursos. Basta existir.
Sua
presença altera a luz da manhã. O fim da tarde ganha novas cores. Até uma rua
comum parece diferente. O coração muda o enquadramento antes mesmo de a câmera
encontrar o foco.
A
cidade continua igual. O sol nasce no mesmo lugar. As ondas repetem seu antigo
caminho. Os pássaros seguem ignorando o relógio. Mas quem ama nunca vê a mesma
paisagem duas vezes.
A
musa ensina sem perceber. Mostra que um café compartilhado pode valer mais que
um banquete. Que uma caminhada sem destino guarda mais histórias do que uma
viagem planejada. Que um sorriso espontâneo ilumina mais do que qualquer
refletor.
O
amor desperta a criatividade. Faz nascer palavras adormecidas. Traz de volta os
cadernos esquecidos. Empurra o fotógrafo para mais um clique. Convence o
cronista a escrever mais uma linha. É curioso. A inspiração não mora nas
grandes emoções. Prefere os detalhes.
Está
no cabelo desalinhado pelo vento. No vestido dançando com a brisa. No olhar
perdido diante do mar. Na mão que procura outra mão sem fazer alarde. São
momentos rápidos. Quase invisíveis. Mas duram para sempre dentro da memória.
Aprendi
que a boa fotografia não depende apenas da técnica. Depende da sensibilidade. A
câmera registra o que está diante da lente. O coração registra o que escapa
dela. Por isso, as melhores imagens raramente são perfeitas. Um sorriso fora de
hora. Um raio de sol atravessando a sombra. Um gesto inesperado. A vida nunca
posa. Apenas acontece.
Talvez
seja esse o maior presente de uma musa inspiradora. Ela não cria apenas belas
lembranças. Ela desperta um novo olhar. Depois dela, o mundo parece maior. As
cores ficam mais vivas. As manhãs chegam mais cedo. Até o silêncio ganha voz. O
amor não transforma apenas quem ama. Transforma tudo o que está ao redor. A
fotografia muda. A crônica muda. A vida muda.
E
o fotógrafo compreende, enfim, que algumas imagens jamais caberão num álbum.
Permanecerão guardadas no único lugar onde o tempo não consegue apagar os
retratos: o coração.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade
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