por *Taciana Oliveira |
O frio da existência em Insular Glacial, de Bernardo Almeida
Há livros que podem ser lidos em fragmentos. Insular Glacial (Editora Patuá, 2026), de Bernardo Almeida, exige a experiência oposta: uma travessia contínua, do primeiro ao último poema. As peças que compõem a narrativa convergem em uma arquitetura cuidadosamente erguida, na qual tempo, memória, amor e solidão retornam continuamente sob novas perspectivas.
O título resume a atmosfera. "Insular" remete ao isolamento, enquanto "glacial" ecoa essa sensação ao sugerir uma paisagem marcada pela imobilidade, pelo silêncio e pela permanência do frio. Na poesia de Bernardo Almeida, a ilha e o gelo extrapolam seu sentido literal e passam a traduzir uma experiência existencial cercada pelo isolamento e impermanência. A ilha não é um lugar físico, mas um estado interior; o gelo não representa apenas a ausência de calor, mas a dificuldade de romper distâncias afetivas e existenciais. Essa leitura é apresentada já no texto de abertura do volume, que identifica no título a interpretação de toda a obra.
Logo em “Arca do triunfo”, o poeta desfaz qualquer expectativa de celebração. O triunfo anunciado pelo título cede lugar à visão de "cadáveres" arrastados pelo tempo, consumidos pelo arrependimento e pela perda. Desde os primeiros versos, o livro deixa claro que seu interesse não está na esperança, mas na investigação das ruínas produzidas na passagem dos dias. Essa atmosfera percorre toda a coletânea. O amor surge frequentemente, mas quase nunca uma possibilidade de permanência. A memória tampouco funciona enquanto abrigo. O passado retorna carregado de ausências, de perguntas sem resposta e de experiências interrompidas. Até mesmo o sagrado aparece atravessado pela dúvida, sugerindo que nenhuma instância — humana ou divina — permanece intacta diante da ação corrosiva do tempo.
Se o universo apresentado é duro, a linguagem segue direção oposta ao excesso. O silêncio não está apenas no tema; está incorporado à estrutura da escrita. Cada pausa, cada corte e cada deslocamento gráfico participam da construção do sentido. Outro aspecto é a coerência do projeto literário. As imagens retornam continuamente — o mar, a água, a noite, o vento, a ilha, o gelo — formando uma rede simbólica que sustenta a leitura do início ao fim. Não há poemas isolados: todos pertencem a uma mesma corrente de pensamento.
Insular Glacial exige disponibilidade. Não é um livro que se entrega à primeira leitura nem busca oferecer conforto. Ao contrário, desafia o leitor a permanecer diante de perguntas que talvez nunca encontrem respostas. Essa é, justamente, uma de suas maiores qualidades. O poeta faz da poesia espaço contra a superficialidade, transformando desconforto em matéria estética. Ao final, fica a sensação de que a ilha continua cercada pelo gelo, mas já não é a mesma. A travessia modifica menos a paisagem do que o olhar de quem a atravessa.
POEMAS DO LIVRO
Arca do triunfo
pela areia movediça
eu vi
os nossos cadáveres
consumidos
pelo inexorável
dos tormentos fúteis
e do alheamento
às reminiscências
de vidas imprestáveis
Degenerescências descartáveis
em busca de alento
Eu vi os nossos cadáveres
soberbos e corrompidos
sem esperança ou redenção
no tugúrio do firmamento
desconhecendo a origem
de tal infértil complemento
Espraiava-se a incrédula litania
que ornava os vastos murmúrios
de tão incompreensível lamento
Flutuando pela areia movediça
eu vi os nossos cadáveres
====
XXIV
Muitas cordas dão voltas
Voltas sem nós
A enlaçá-las ao mundo
Grossas cordas
Abraçam, apertam, amoldam
Em novas voltas
Cordas e mais cordas
E sucessivas voltas
Cordas sem nós
Esmagam o mundo
====
I
Para onde vamos
se não sabemos partir?
Passei por muitos portos
sem a nenhum aderir
Há um lugar escondido
entre os anos...
Há um vão desconhecido
entre os ventos
Há um tempo
que não renasce
E para onde vamos?
Os passos ritmados
com a correnteza das marés
Combinei o seu nascimento
com as fases da lua
Retirei as cascas da noite
para comer o fruto amanhã
Soletrei o passado
sem determinação
Conheci a aspereza das pessoas
ao tocá-las no coração
Silenciei para sempre
quando não pude ser reticente
Mas para onde vamos?
Para onde,
meu Deus,
se ficamos
por não sabermos partir?
====
II
A tua alma
espelha o cosmo
em que me sonho
Mundo em que me afundo
em gozo lasso
Peles que me abrigam
Olhos que me tragam
Árias sobre as horas
que me invadem
ressoando ecos da eternidade
Sonho em que me sonho
Pelo teu céu absoluto
A tua alma
espelha o cosmo
em que me sonho
Sonho em que te sonho
Tu: deusa; eu: semidivino
====
III
O nada
não é como um cesto de abacates
pendendo
das nuvens
entre gaviões, urubus e abutres
Nem é o que se confunde
pela falta de sentido
e obscena
abstração
Vazio é vão
mas ao nada
não convém explicação
Seara etérea inviolada
na noite ingente e caliginosa
ionizando o ar
das tempestades
Réplica abrasada
em que cada palavra
perfaz o som inútil
de uma febril
contradição
====
Canção número 5, em Mi sustenido
Riso melífluo
jorro melodioso
que inebria
O universo para
quando você
silencia
Profundo escuro
a buscar o dia
no centro do seu olhar
Êxtase
Cântico profano
que ressoa e dá vida
liberta e anistia
na profusão
de tal estima
Um estampido estelar
na sua récita
encontra par:
O som eterno
do seu verso celestial
====
IV
O sol se põe
e se esconde
em nosso peito
abrasado
A noite mergulha
e desbrava
o nosso olhar
enluarado
Entre espasmos furtivos,
escuto a litania
do teu canto
Duas portas se abrem
Não há estrondo
que conspurque
a sua calma
Corpos de luz
a dardejar
chispas de fogo
na foz do infinito
Miríade de fados
Ciranda
de acalantos
A tua boca
sorri pelos santos
os sonhos
profanos
que os teus olhos
ecoam
====
V
Arroubos
de sinos
tonitruantes
Com o ímpeto
de movimentos
inconstantes
cheguei
emaranhado
em ventos e ondas
e nas ranhuras
dos recifes
fiquei incrustado
como um sonho
enevoado
bruma de vendaval
barcaça sem rumo
sob o impacto
das odes
da lua
a devanear
outros delírios
interestelares
escancarando
sentimentos íntimos
lacerando
verdades romanescas
na fantasia ideal
preconizando o início
e vaticinando o final
como um deus cosmonauta
a pontuar
o começo
e o término
das galáxias
com menos presunção
do que conhecimento
encerrando a dicotomia
entre o bem
e o mal
incinerando
o normal
e suas aspirações
à transcendência
====
VI
Duas vidas se encontram
como agulhas
perdidas
em um palheiro
e se dissolvem tão facilmente?
(há quem desista
ou se assuste
com um tiro de morteiro)
Por que desperdiçamos
o que é raro
com a partida indolente?
Por que a solidez
não substitui
o que se torna insolvente?
Quantos mundos
precisariam ser inventados
para contemplar
todos os séculos
da nossa espera?
Quantas vezes
a história
da humanidade
deveria se repetir?
Eu, que não menti…
Quem és tu?
Como é sorrir
com tão poucos dentes?
De fracasso em fracasso,
dos erros às inverdades,
a esperança se sobrepõe
ao peso
retumbante
da invenção
Dos primórdios
à atualíssima
modernidade
O esquecimento
vai um dia engolir
as enseadas
de tantas veleidades?
As recordações
afáveis,
talvez, também
desçam ao fosso
A saudade
- quem sabe -
não sentirá falta de mim
e o tempo
haverá de saber
existir sem você
====
Absorto
Estamos
sempre prontos
para morrermos
antes de vermos
a luz
do abismo
na saída
do labirinto
====
VII
Eu te dei a vida
não como quem confere
uma forma ao barro
e um nome com o qual se individualiza
além de pensamentos para se ocupar
nos anos em que você
humanamente se cristaliza
Não! Eu te dei a vida
e uma forma peculiar
de ver, sentir, ser e estar
internalizei em ti
paradoxal e dialeticamente
o mapa das estrelas
deste universo de planetas
e te fiz assimilar a sinuosidade
das ideias dos profetas e estetas
Energizei a sua anedonia
como quem injeta audácia na covardia
expurgando as avarias
desse controvertido devir
no extenuante vagar
Eu te revelei a vida
não segurei o seu braço
ao te ver margear
a borda do despenhadeiro infinito
nem te impedi de saltar
do precipício
pensando que iria voar
mas te detive
antes de você se esborrachar
evitando o trágico “gran finale”
do qual não iria se orgulhar
Eu prolonguei a sua vida
não como quem diz palavras
belas, suaves e macias
eu não te poupei da amargura
no desespero
As lições necessárias
podem ser duras
mas a omissão é uma cândida
expressão da vilania
Eu te ensinei a não se esquecer também
da transitoriedade da dor e da agonia
Eu te dei a vida
e você me devolve o olhar
com ingratidão, desconfiança e insatisfação
procurando um pai na Terra
e um Deus no céu
para emular a sua indignação
Eu te dei a vida
despertando a matéria
de um ser inanimado
em estado estagnado de evolução
e você me culpa por todo o resto que não deu certo
procurando um lugar na consciência
Compre o livro: clica aqui
Bernardo Almeida nasceu em Salvador (Bahia), em 1981. É poeta, jornalista, artista digital, roteirista e compositor. Participou de dezenas de coletâneas literárias. Publicou Achados e Perdidos (poesia/2005), Crimes Noturnos (poesia/2006 e 2018), Enquanto espero o amanhã passar (poesia/2009), Sem um país para chamar de pátria, sem um lugar para chamar de lar (poesia/2009), LONA (poesia/2011), O vencedor está morto (contos/2013), Arresto (poesia/2016), que também foi editado em Paris (2018), A utopia do carnaval sem fim (poesia/2020) e Insular glacial (poesia/2026). O autor tem textos traduzidos e publicados na Europa, sobretudo na França e na Croácia.
*Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.


Redes Sociais