por Taciana Oliveira |
Sob o céu do Cerrado: romance, drama e identidade regional
Sob o céu do Cerrado: romance, drama e identidade regional
Longe das histórias de amor centradas na juventude, “Sob o céu do Cerrado" (2026), de Kamylla Pereira Borges, volta o olhar para uma protagonista que atravessou perdas, construiu família e aprendeu a recomeçar. Publicado pela Editora Urutau, o romance investiga o que acontece quando o passado retorna para desafiar certezas aparentemente estáveis. O ponto de partida é o reencontro dos personagens Natasha e Rodrigo, separados há duas décadas por um rompimento nunca explicado. O que poderia ser apenas uma história sobre um relacionamento interrompido revela-se, aos poucos, um acerto de contas com o passado. Entre os dois permanecem perguntas sem resposta, ressentimentos acumulados e vidas que seguiram caminhos distintos. O desaparecimento de Rodrigo, apresentado logo no prólogo, continua determinando as escolhas e as inseguranças da protagonista muitos anos depois.
Um dos méritos da obra está na construção do perfil de Natasha. Aos quarenta anos, divorciada, mãe de dois filhos e profissional independente, ela foge dos estereótipos frequentemente associados às protagonistas femininas. É uma mulher que ama, deseja, sente ciúmes, dança, ri, sofre e, sobretudo, recusa abrir mão de si para viver uma relação amorosa. Sua trajetória tira o foco da pergunta "com quem ela ficará?" para outra, muito mais pertinente: "que tipo de mulher ela decidiu se tornar?" Rodrigo está longe do protagonista idealizado dos romances tradicionais. Kamylla Pereira Borges apresenta um homem dividido entre as responsabilidades familiares, as limitações impostas por sua condição social e a dificuldade de transformar sentimentos em palavras. Sua maior falha não é a falta de amor, mas a incapacidade de enfrentar o conflito no momento em que ele se impõe. É desse silêncio prolongado que nasce a distância entre os dois.
Jaraguá está presente em cada página do romance. As festas tradicionais, a religiosidade, a música, os costumes e a paisagem do cerrado goiano atravessam a narrativa e dão textura ao universo concebido pela autora, que faz da cidade um espaço onde memória individual e identidade coletiva caminham lado a lado. Sua escrita privilegia o diálogo e a fluidez narrativa. Os capítulos são curtos, o ritmo é ágil e alterna momentos de introspecção com cenas de humor e episódios que exploram a fragilidade emocional dos personagens.
O livro discute relações afetivas entre pessoas maduras sem recorrer à ideia de que o amor representa uma solução para todos os conflitos. O reencontro dos protagonistas exige revisões pessoais, reconhecimento dos próprios erros e disposição para enfrentar as consequências das escolhas feitas décadas antes. No decorrer da leitura, percebe-se que a figura central talvez seja o tempo. Vinte anos transformaram os personagens principais em pessoas diferentes, mas não eliminaram as perguntas deixadas pelo passado.
O romance investiga justamente esse espaço entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos ser. Ao narrar o reencontro de Natasha e Rodrigo, “Sob o céu do Cerrado”, Kamylla Pereira Borges desenvolve uma personagem feminina vulnerável, bem-humorada e com nuances. Ela não procura completar-se através de um relacionamento, mas compreender quem se tornou após décadas de perdas, responsabilidades e recomeços. No decorrer da narrativa, a autora também presta um tributo ao interior goiano, fazendo da cultura e da paisagem do cerrado elementos inseparáveis da identidade de suas personagens, demonstrando maturidade na condução de uma narrativa que equilibra romance, drama e identidade regional sem abrir mão da complexidade dos temas abordados.
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1. Natasha foge do estereótipo da protagonista romântica tradicional. Em que momento você decidiu que queria contar a história de uma mulher madura que prioriza sua autonomia antes do amor?
Desde o momento em que comecei a escrever, já pensei na protagonista feminina com esse olhar. Eu não queria reproduzir o clichê da mocinha inocente, que sonha com um homem forte e provedor para salvá-la de algum perigo. Queria uma protagonista que representasse mulheres maduras, que já passaram por relacionamentos difíceis, muitas vezes criam os filhos sozinhas, enfrentam dupla ou tripla jornada e, ainda assim, continuam desejando um amor, um companheiro que as valorize e apoie.
Segundo dados do Censo de 2022, quase metade das unidades domésticas brasileiras tinha uma mulher como chefe e provedora do lar. A Natasha representa essas mulheres que sustentam tantas coisas na vida e que também têm o direito de desejar uma relação em que não precisem se diminuir para serem amadas.
2. O Cerrado e as tradições de Jaraguá ocupam um lugar central na narrativa. Até que ponto a paisagem e a cultura goiana podem ser consideradas personagens do romance?
Penso que a paisagem se mistura aos personagens, molda a forma como eles vivem e dá estrutura à narrativa. A Natasha é quem é porque cresceu naquele território, porque foi formada pela cultura, pelas relações e pelas experiências do interior de Goiás. O mesmo vale para o Rodrigo e para os outros personagens.
Jaraguá, o Cerrado, as festas, as memórias da infância e a maneira como as pessoas se relacionam ali fazem parte da história. Não estão apenas no cenário: aparecem no modo como os personagens amam, se lembram, silenciam, têm medo e fazem escolhas.
3. Rodrigo é um personagem que desperta sentimentos contraditórios no leitor. Qual foi o desafio de construir alguém que precisasse enfrentar a própria culpa sem ser transformado em herói ou vilão?
Eu não queria construir um personagem masculino romantizado. Da mesma forma que Natasha cresceu no interior de Goiás, Rodrigo também cresceu ali e carrega marcas da forma como a masculinidade foi construída naquele território e naquele tempo histórico. Ele é um homem nascido na década de 1980, com quarenta e poucos anos, que aprendeu determinadas maneiras de lidar com os sentimentos e com os relacionamentos.
Meu desafio era mostrar um homem real, desses que vemos todos os dias e com quem muitas mulheres já se relacionaram: alguém que tem dificuldade de conversar sobre o que sente, de encerrar uma relação com clareza, que às vezes desaparece em vez de assumir uma conversa difícil. Um homem que aprendeu a esconder as dores porque ouviu a vida inteira que não podia chorar, ser sensível ou demonstrar fragilidade.
Rodrigo é produto dessas condições sociais e culturais. Para alguns leitores, ele foi apaixonante; para outros, tóxico e sufocante. Acho que essa divisão mostra que ele funciona como uma pessoa real, com contradições, limites e possibilidades de mudança.
4. O livro trata de temas como responsabilidade afetiva, masculinidade, maternidade e segundas chances. Você partiu dessas questões para construir a história ou elas surgiram naturalmente durante a escrita?
Essas questões foram surgindo durante a escrita. Sob o Céu do Cerrado foi um livro muito intuitivo. Eu não planejei muito porque, quando comecei, ainda não tinha clareza sobre tudo o que faria com aquela história.
Eu estava me recuperando de uma histerectomia e, nesse período, resolvi escrever um livro. A história começou como um devaneio, sem uma estrutura muito definida. Depois, fui revisando, editando, corrigindo e aprofundando os personagens, e esses temas foram aparecendo de forma mais clara, também a partir de experiências vividas por mim e por pessoas que conheço.
5. Após concluir Sob o Céu do Cerrado, qual é a principal reflexão que você espera que permaneça com o leitor sobre o amor, o tempo e as escolhas que fazemos ao longo da vida?
Espero que o leitor perceba que o amor exige coragem. Coragem para enfrentar os próprios medos, rever escolhas, reconhecer erros e se abrir para uma relação mais honesta.
Também espero que fique a ideia de que ninguém pode resolver a vida do outro. Um relacionamento só faz sentido quando as duas pessoas conseguem caminhar juntas, se apoiar e se responsabilizar pelo que constroem, sem que uma precise se apagar ou carregar tudo sozinha.
6. Em Sob o Céu do Cerrado, a narrativa alterna momentos sensíveis com descrições muito vivas da cultura e da paisagem goiana. Como foi o processo de construção do romance e quais foram os maiores desafios para equilibrar a profundidade psicológica dos personagens com a ambientação regional?
Eu tive um pouco de dificuldade com isso porque esse é meu primeiro livro. Encontrar a medida entre mergulhar no interior dos personagens e mostrar os ambientes foi um desafio durante a escrita e, principalmente, nas revisões.
Com o tempo, fui entendendo que essas duas dimensões não estavam separadas. A paisagem, o Cerrado, Jaraguá, as festas, as memórias e a cultura do interior fazem parte da vida emocional dos personagens. Tudo isso interfere na forma como eles sentem, amam, se relacionam e tomam decisões.
O desafio foi fazer com que a ambientação não fosse apenas um pano de fundo, mas também não ocupasse um espaço maior do que a história da Natasha e do Rodrigo. Eu queria que o leitor sentisse que aquele romance só poderia acontecer naquele lugar.
Kamylla Pereira Borges é mãe de três filhos, professora, associada da União Literária Anapolina – ULA, doutora pela Universidade de Brasília (unb) e mestre em Educação pela Universidade Federal de Goiás (ufg). Nascida em Jaraguá, constrói sua escrita a partir dos afetos, da memória e das vivências do interior de Goiás. Em Sob o céu do Cerrado, seu romance de estreia, aborda o amor maduro e as tensões dos relacionamentos após os quarenta anos.
Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.

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