Felipe Julius transforma tragédia climática em poesia

por Taciana Oliveira |


 


Em “Cicatrizes na paisagem”, Felipe Juliusa narra a travessia de uma mulher grávida durante as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul e reflete sobre memória, perda e reconstrução
.


As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 produziram imagens que circularam pelos noticiários: bairros submersos, famílias desalojadas e cidades inundadas pela força da água. Em "Cicatrizes na paisagem", vencedor do VIII Prêmio Cepe Nacional de Literatura, Felipe Julius escolhe outro caminho para registrar a tragédia. Ao invés de recorrer ao relato documental, transforma o evento em uma narrativa poética que acompanha uma viagem moldada por perdas, memórias e esperança. 


Dividido em três partes — "RS-040", "BR-101" e "A Chegada" —, o livro narra a fuga de uma mulher grávida que deixa Porto Alegre ao lado da companheira, Maria, durante as enchentes. As duas dividem o carro com uma família desconhecida e percorrem estradas bloqueadas em busca de um caminho seguro. A viagem transforma-se numa travessia emocional em que o luto e a expectativa pelo nascimento de uma criança se misturam à devastação da paisagem. Embora seja um livro de poesia, "Cicatrizes na paisagem" entrega uma estrutura narrativa. Os poemas se encaixam em “capítulos de um romance”, permitindo que personagens, conflitos e relações amadureçam ao longo do percurso. Esse desenho aproxima a obra do chamado "road novel", gênero em que a estrada deixa de ser apenas cenário e passa a orientar o desenvolvimento da narrativa.


Felipe Julius evita transformar a tragédia em espetáculo. Ele não concentra o olhar nas cenas de destruição e  dirige a atenção para os pequenos gestos que sobrevivem ao desastre: uma fotografia salva da lama, um livro recuperado entre os escombros, conversas durante a viagem, o cuidado entre desconhecidos e o nascimento que insiste em acontecer quando tudo parece ruir. A enchente não destrói apenas casas e ruas; altera profundamente a relação das personagens com o passado. O título sintetiza essa ideia. As cicatrizes não pertencem apenas às cidades atingidas, mas às pessoas que seguem vivendo depois que a água recua. O livro mostra que reconstruir significa conviver com marcas que dificilmente desaparecem.


Outro aspecto é a naturalidade com que Julius incorpora diferentes referências culturais ao texto. Mário Quintana, Adélia Prado, Antônio Cicero, Susan Sontag e elementos da tradição tupi-guarani aparecem ao lado de canções populares e situações cotidianas, compondo uma escrita que circula entre o erudito e o popular sem perder a fluidez. 


A leitura crítica da crise climática e das decisões políticas que agravam seus efeitos nunca assume um tom panfletário. Ela emerge na descrição das cidades devastadas, das estradas interrompidas, da precariedade da assistência à população e das consequências do abandono ambiental. Assim, é o próprio percurso das personagens que evidencia a dimensão coletiva da tragédia. 


Do ponto de vista da construção discursiva, “Cicatrizes na paisagem” estabelece uma tensão produtiva entre lirismo, oralidade e narratividade. Felipe Julius  recorre a imagens poéticas de vigor imagético sem renunciar a uma dicção próxima da fala cotidiana, produzindo um texto em que o refinamento formal convive com a inteligibilidade. O resultado é uma poesia que concilia elaboração estética, expressividade e comunicabilidade, permitindo que a experiência da catástrofe seja compartilhada por diferentes perfis de leitores.


“Cicatrizes na paisagem” é uma reflexão sobre deslocamento, pertencimento e sobrevivência. O autor demonstra que a poesia pode funcionar enquanto testemunho histórico. Não para explicar os acontecimentos, mas para preservar aquilo que dificilmente cabe nas estatísticas: o medo, a solidariedade, o amor e a capacidade humana de continuar seguindo adiante quando tudo ao redor parece ter sido levado pela correnteza.


Abaixo, segue uma entrevista com o autor.


1. As enchentes de 2024 são o ponto de partida de Cicatrizes na paisagem, mas a obra vai além do registro documental. Em que momento você percebeu que esse acontecimento poderia se transformar em uma narrativa sobre memória, deslocamento e reconstrução?

Percebi isso quando a água baixou e o que restou não foi o vazio, mas o excesso. Móveis nas calçadas, fotografias secando em varais, a linha de lama marcada nas paredes. A enchente, enquanto acontecia, era notícia. Depois dela, virou memória, e memória é matéria de literatura. Entendi que não me interessava narrar a catástrofe, e sim o que ela desenterra. As vidas que precisaram recomeçar de dentro da perda, os deslocados que carregavam a casa nos ombros e no vocabulário. Foi nesse interstício entre o fato e a ferida que a obra encontrou lugar.

2. O livro é estruturado como uma longa travessia pelas rodovias RS-040 e BR-101. O que essas estradas representam dentro da arquitetura simbólica da obra?

São, antes de tudo, caminhos reais de fuga e de retorno, e no Cicatrizes se tornam a própria espinha da narrativa. A estrada é o espaço do entre. Quem tá nela já não pertence ao que ficou para trás e ainda não alcançou o que virá. É o território do/a outsider, do/a deslocado/a por excelência. 

A RS-040 carrega a saída, a urgência, o olhar no retrovisor.  A BR-101, que costura o litoral do país, abre a travessia para algo maior e sugere que aquela dor gaúcha é também brasileira, que a tragédia local desemboca num destino coletivo. 

3. Você escolhe narrar a história a partir da perspectiva de uma mulher grávida, acompanhada por Maria, em meio a uma das maiores tragédias climáticas do país. O que motivou essa escolha e quais foram os desafios de construir essa voz narrativa?

Eu precisava de uma voz que carregasse, literalmente, o futuro no corpo enquanto o presente desmoronava ao redor. A gravidez concentra o paradoxo central do livro, que é gestar vida em meio à devastação, esperar em meio ao desespero. Ao lado dela, Maria é amparo e espelho, um nome que ecoa a mãe arquetípica da cultura brasileira. O maior desafio foi a escuta. Construir essa voz sem transformar a dor em ornamento. 

4. Além da tragédia ambiental, o livro incorpora referências à filosofia, à literatura, às tradições indígenas, à religiosidade e à cultura popular brasileira. Como essas diferentes referências foram sendo incorporadas ao poema narrativo?

Uma enchente é radicalmente democrática. Arrasta o santo de gesso e o livro de filosofia, o terço e o rádio de pilha. Quis que o poema tivesse essa mesma correnteza. As tradições indígenas entram porque foram os primeiros povos a ler os rios como seres vivos, e a tragédia confirma o que eles sempre souberam. A água não esquece o caminho que lhe tomaram. A religiosidade popular entra porque é a língua em que o povo brasileiro reza sua dor. A filosofia e a literatura entram como quem pergunta, não como quem responde. O poema narrativo permite essa convivência. 

5. Ao longo da obra, a paisagem devastada pelas enchentes também revela marcas deixadas pela ação humana, pela desigualdade e pela negligência ambiental. Você acredita que a poesia pode contribuir para preservar a memória desses acontecimentos e ampliar o debate sobre a crise climática?

Acredito… e essa crença sustenta o livro. A notícia envelhece em dias. O poema é uma tecnologia de memória de longa duração. O que sabemos de tragédias antigas, sabemos em grande parte porque alguém as cantou. Mas a poesia faz algo que o dado não faz. Converte estatística em rosto. "Milhares de desabrigados" é uma abstração. Uma mulher grávida atravessando a RS-040 é alguém.

A paisagem devastada do livro revela que a enchente não foi apenas natural. Houve ocupação irregular consentida, alertas ignorados, desigualdade decidindo quem mora na várzea. Nomear isso em verso é impedir que a enchente leve também a responsabilidade. 

6.  Sua obra dialoga com a tradição da poesia narrativa brasileira ao transformar uma tragédia recente em matéria literária. Quais poetas ou obras influenciaram sua decisão de contar essa história em versos?

A influência decisiva foi Mário Quintana, porque ele me deu a licença histórica, um poeta da minha cidade que já havia transformado uma enchente do Guaíba em literatura. Escrever sobre 2024 foi, de certo modo, responder ao seu livro “Sapato Florido” oitenta anos depois. Junto dele vieram os autores que a própria narradora carrega na bagagem: Antônio Cícero e seu Guardar, que é quase o programa ético do livro, velar pela memória como por uma chama, Adélia Prado e sua defesa do sentimento como a coisa mais fina do mundo, Sophia de Mello Breyner nos votos feitos à criança, a concisão de Monterroso, que reescrevi em chave política, e a epígrafe de Antonio Gamoneda, ouvir o coração em um silêncio novo. 

7.  Embora trate de acontecimentos concretos e desenvolva uma narrativa contínua, você escolheu a poesia para contar essa história. O que esse gênero literário lhe permitiu expressar que talvez um romance ou um conto não alcançassem?

Porque a enchente quebrou a sintaxe do mundo, e a prosa pressupõe um mundo com sintaxe. O romance explica, encadeia, dá causas e consequências. A poesia pode gaguejar, silenciar, deixar o verso interrompido. O corte do verso é o próprio corte na paisagem. 

Mais do que isso, a poesia trabalha com o que a água também trabalha, o ritmo, a repetição, a cheia e a vazante. Um poema narrativo longo tem correnteza e arrasta o leitor.


Leia o primeiro poema do livro:

(I)


A única maneira de escapar de Porto Alegre

é pela RS-040, pela estrada que corta Viamão.


Aqui, os poucos postes que surgem

parecem velas de um cortejo,

iluminando não as sendas,

mas o inventário da nossa inquietação.


A via única é estreita,

o limite exato entre a fuga

e os liames que não conseguimos arrancar.


No asfalto, betume gasto.

E, no fundo da Chevrolet Spin,

Maria e eu: lagartas inertes,

apertadas em uma cápsula de metal.


A criança no meu ventre chuta com força.

A sensação é aguda, cortante,

como algo que não cabe em si,

mas talvez não tão grande quanto a incerteza.


Estamos acompanhadas por recém-conhecidos:

Seu Carlos, que guia com mãos pregadas;

Gabi, sua filha, pequena e atenta,

que está ao nosso lado;

e Hermínia, sua mãe,

copilota de um filho que carrega um fardo invisível.


São gente boa e resistente,

como a gente.


Saímos correndo das enchentes,

carregando o que conseguimos,

antes que as chuvas se erguessem ainda mais,

antes que nos soterrassem na lama.


A capital está um caos,

cheia de estrangulamentos e pressa:

as avenidas Castelo Branco e Assis Brasil, bloqueadas.

Pouca água potável, menos mantimento ainda,

e o barro — muito barro —

assanhando, invadindo, enroscando tudo o que toca.


Além disso, o combustível.

Temos que cuidar da gasolina,

contar os quilômetros,

e torcer para chegar a algum posto em tempo.


No rádio, João Gomes repete a trilha da viagem,

seu cantar atravessa o taciturno,

e já não nos distrai.


Minha única firmeza é a prece muda

que faço a cada quilômetro,

para que tudo dê certo,

para que eu consiga te reencontrar em Floripa, maninha.

Mas, antes, precisamos atravessar

e achar a BR-101,

ainda intacta



Compre o livro: clica aqui





Felipe Julius nasceu em Porto Alegre (RS), em 2000, e mora em Florianópolis (SC). É escritor, roteirista e redator publicitário, formado em Comunicação Social pela PUC-RS. Seu livro de estreia, Foram talvez os anjos revoltados (Urutau, 2023), foi finalista do 66º Prêmio Jabuti, na categoria Poeta Estreante. Seu segundo livro, Cicatrizes na paisagem, venceu o 8º Prêmio CEPE Nacional de Literatura. É TEA — nível de suporte 1.



Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.