por Carlos Monteiro |
Fotos: Carlos Monteiro
Vozinha: resiliência e altivez aos 40 anos
A
idade costuma aparecer primeiro no espelho. Depois, nas pernas. Por último, na
memória dos outros.
No
futebol, então, quarenta anos parecem uma eternidade. Muitos já penduraram as
chuteiras. Outros viraram comentaristas, treinadores ou lembranças de um álbum
de figurinhas. Mas há quem desafie o relógio sem fazer alarde. Vozinha é um
deles.
Enquanto
os atacantes correm atrás da fama, ele continua perseguindo a bola. Sem pressa.
Como quem aprendeu que experiência também defende.
Seu
rosto traz marcas que nenhum creme consegue apagar. Não são rugas. São minutos
jogados. Viagens longas. Campos difíceis. Treinos sob o sol. Derrotas engolidas
em silêncio. Vitórias comemoradas com a serenidade de quem sabe que o futebol
nunca pertence apenas aos vencedores. Na Copa do Mundo, sua história ganhou o
tamanho que sempre mereceu.
A
pequena Cabo Verde entrou em campo carregando muito mais do que onze jogadores.
Levou consigo um arquipélago inteiro, espalhado pelo Atlântico, acostumado a
vencer as distâncias antes mesmo de sonhar com estádios lotados.
E
lá estava Vozinha, debaixo das traves, sem gestos exagerados, sem discursos. Os
grandes goleiros raramente fazem espetáculo. Fazem o necessário. Um passo para
a direita. Dois para a esquerda. Um salto no momento exato. O impossível
acontece em silêncio. Foi assim durante toda a campanha.
Enquanto
o mundo descobria Cabo Verde, Vozinha parecia apenas cumprir mais um dia de
trabalho. Defendia uma bola, orientava a defesa, respirava fundo e recomeçava.
Como fazem os homens que conhecem o peso da responsabilidade. Há algo de bonito
nos atletas que envelhecem sem perder a elegância.
Eles
já não contam apenas com os músculos. Jogam também com a inteligência.
Antecipam movimentos. Conversam com a bola antes que ela chegue. Descobrem
atalhos invisíveis aos mais jovens.
Talvez
a resiliência seja exatamente isso; continuar quando todos imaginam que já era
hora de parar.
A
altivez também. Erguer a cabeça depois de cada gol sofrido. Aplaudir o
companheiro. Incentivar o estreante. Entender que liderança não se grita.
Transmite-se pelo exemplo.
Enquanto
milhares de torcedores comemoravam a surpreendente campanha cabo-verdiana,
pensei que o futebol ainda produz personagens capazes de ensinar muito além das
quatro linhas.
Num
tempo em que tudo parece descartável, um goleiro de quarenta anos lembrava que
algumas virtudes não envelhecem: persistência, disciplina, , humildade e
coragem.
Ao
apito final, os refletores procuravam os heróis da partida. Vozinha caminhava
devagar. Cumprimentava adversários. Agradecia à torcida. Tinha a mesma
serenidade de quem sabe que a maior vitória não cabe no placar. Cabe na
trajetória porque há troféus que ocupam uma prateleira.
E
há histórias que ocupam a memória. A de Vozinha pertence a essa segunda
categoria. Não apenas pela Copa que disputou.
Mas
por ter mostrado ao mundo que o tempo pode diminuir a velocidade das pernas,
nunca a grandeza de um homem que continua acreditando no próximo jogo
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade



.png=w352-h352-p-k-no-nu)
Redes Sociais